Na Folha o experiente Jânio de Freitas mostra a diferença de tratamento dado pela PF e MP entre os R$ 50 milhões encontrados no apartamento do ex-ministro Geddel Vieira Lima(MDB-BA,) e os R$ 100 milhões encontrados nos imóveis de Paulo Preto, tesoureiro do PSDB de São Paulo.

Os donos  dos tesouros

Por Jânio de Freitas

Cem milhões de reais em dinheiro vivo e enfurnado domesticamente são o dobro do encontrado na caverna de Geddel Vieira Lima, mas não tiveram nem a metade, longe disso, do tratamento dispensado aos R$ 51 milhões. Das notas achadas na Bahia, a Polícia Federal distribuiu fotos de frente e de perfil, endereço e histórico da caverna, nomes e papéis dos colecionadores.

Com perceptível contrariedade, e só para não perder um momento de autopromoção, a PF só conseguiu dizer que uns R$ 100 milhões eram escondidos por Paulo Preto, menos conhecido como Paulo Vieira de Souza, em São Paulo. Mas a questão não é geográfica.

A distinção está entre o que uma polícia honrada não pode ser, nem fazer, o que outras se permitem. E ainda entre o que um Ministério Público, com seus procuradores e promotores, tem que fazer por sua altivez e respeitabilidade, e o que outros fazem em exibicionismos e facciosismo.

E se trata, também, da diferença entre altos magistrados e conselheiros de Justiça sem conexões espúrias e sem temor, e, de outra parte, os não juízes.

Em tradução simplificada dessas distinções, para aplicação aos dois tesouros achados e respectivos tratamentos, basta relembrar que Geddel Vieira Lima e família são do MDB, ao passo que Paulo Vieira de Souza é gente de confiança no PSDB que a Polícia Federal —já por tradição notória— acoita desde o início do governo Fernando Henrique.

Não seria bom, porém, que nestes tempos de tantas e grandes inovações, com milicianos enfim prestigiados, dinheiro público do fundo eleitoral em bolsos sem fundo, filhos fazendo e desfazendo ministros, faltasse inovação na PF. Até demais.

Parte relevante do sistema que distinguiu o PSDB, Sergio Moro é nada menos do que o ministro da Polícia Federal.

União perfeita, portanto, de tradições e de futuros esperáveis. Tão cuidadosa, que Sergio Moro tratou logo de entregar a chefia do “combate ao crime organizado” a Igor Romário de Paula. Delegado e apoiador de primeira hora do então candidato do PSDB, Aécio Neves, dele fez propaganda nas redes de internet em ostensivo desacato ao regulamento da PF e do funcionalismo público –mas seguro da impunidade.

Por que a PF e o MP não mostraram fotos do dinheiro no apartamento de Paulo Preto, como fizeram na apartamento de Geddel(acima)?

Está entendido, assim, como R$ 50 milhões da corrupção valem mais do que uma corrupção de R$ 100 milhões.

Compra de risco
Os episódios de violência cometidos por vigilantes de empresas “de segurança” sucedem-se, sobretudo em supermercados, sem providência alguma de prefeitos, governadores e governo federal.

Os contratantes têm um escapismo fácil: “Eles são terceirizados, a seleção é feita pela empresa de segurança”. Foi a explicação para as pauladas assassinas em um manso cachorro, no Carrefour, e para o assassinato de um jovem perturbado, e já dominado, no Extra.

Assim como as empresas “de vigilância”, os subcontratantes dos seus servidores têm a obrigação de saber a quem contratam e põem em contato com os clientes. Mas só quando um juiz escapar às seduções e der a devida punição a um desses contratantes, entre os mais altos, a integridade dos clientes passará menos riscos.

Na pista
Deputados e senadores estão avisados de que logo se abre a “negociação” para sua receptividade ao projeto de alterações na Previdência.

É o velho compra-e-venda, ou toma lá-dá cá, apelidos do santificado é dando que se recebe. Pela primeira vez com um militar —um general, Santos Cruz— entre os que vão operar no esquema de liberação de verba em troca de voto na Câmara e no Senado.

O Exército caminha. Eu é que não direi para onde.