Ary Ribeiro Valadão governou Goiás entre 1979 e 1983. Ele faria 103 anos no dia 14 de novembro. Seu governo foi de realizações nas áreas de infra-estrutura e social.

Marcus Vinícius de Faria Felipe

Ary Valadão foi governador nomeado pela ditadura militar para governar Goiás de 15 de março de 1979 a 15 de março de 1983. Montou um governo apoiado no planejamento, tendo o engenheiro Othon Nascimento como um dos principais secretários. Desta parceria surgiram os prédios onde estão instalados hoje a Secretaria de Economia, a Agência ABC de Comunicação, o Colégio Hugo de Carvalho Ramos e projetos agrícolas como o Rio Formoso, que tinha a missão de diminuir a dependência brasileira de arroz importado. O Projeto Rio Formoso, hoje localizado no Estado do Tocantins,  estabeleceu o o plantio de arroz irrigado, com uma área de 69.130,12 hectares.

O Projeto Rio Formoso, possui hoje uma área total de 27.787 hectares, utilizando um sistema de irrigação de inundação e subirrigação, com produção de arroz irrigado (inundação) no período chuvoso (outubro a abril); soja, milho, feijão e melancia (subirrigação) no período seco (maio a setembro).

Ary também concebeu o Projeto Alto Paraíso, para incentivar a produção de trigo na região da Chapada dos Veadeiros, na região Nordeste de Goiás. O cultivo do trigo foi introduzido na região da Chapada no século XVIII, por imigrantes egípcios. O clima temperado, graças à altitude e à sazonalidade das chuvas, próprio da ecorregião, permitiu que a cultura se tornasse um sucesso, resultando na construção de moinhos movidos a água. A variedade chamada Trigo Veadeiro, altamente produtiva na região havia desaparecido e foi resgatada graças às ações de conservação de recursos genéticos da Embrapa e reentroduzida na região.

Pelas mãos da primeira-dama Maria Valadão nasceu o projeto “Alimentos da Solidariedade”, onde o governo do Estado passou a ofertar cestas de alimentos a preços de custo para população mais vulnerável que sofria com a carestia. O programa teve grande impacto naquele início da década de 1980 marcada por hiperinflação, desemprego que levariam ao fim da ditadura. O período conhecido Crise da Dívida Externa, definido por uma capa do jornal Pasquim: “Nossa inflação é de 100% e a dívida externa de 100 bilhões”.

Também pela visão de Dona Maria Valadão, foram criados conjuntos habitacionais para famílias das hoje chamadas classes C, D e E como o Conjunto Vera Cruz e o Finsocial. A invasão da “Fazenda Caveiras, em 1979, por militantes da causa da moradia ligados ao PT e MDB, levou a criação do Jardim Nova Esperança e depois ao Jardim Curitiba I e II.

Em depoimentos na redação do Diário da Manhã, ao compadre Batista Custódio, Ary Valadão contava que conspirou para derrubar o governador Mauro Borges naquele ano de 1964. “A Revolução triunfou no Brasil e tinha que triunfar em Goiás”, dizia. Ele diz que elementos mais radicais queriam dinamitar as pontes nos rios que circundam Goiânia com o objetivo de isolar a Capital, mas ele se posicionou contra. “Coisa de gente que não entende de política”, dizia Ary que exerceu dois mandatos de deputado estadual, seis de federal, dois mandatos de prefeito de Anicuns, sua terra natal, onde construiu a primeira usina hidrelétrica para garantir o abastecimento de energia ao município.

Ary era amigo do general Golbery do Couto e Silva, que foi fundamental para a sua indicação como “governador biônico” (sinônimo para nomeado). Ary, no entanto, não tinha a mesma intimidade com o general João Figueiredo (1979-1984), último ditador do ciclo militar. Certa feita, enfrentou o ditador de plantão numa reunião no Palácio do Planalto. Na audiência, pediu a liberação de créditos suplementares para Goiás. Figueiredo fez troça. Ary não gostou e bateu a mão na mesa. “O senhor me respeite”!, no que Figueiredo bradou: “O senhor também me respeite, eu sou general!”. “E eu sou governador de Goiás”, retrucou Ary. Um breve silêncio se perdurou entre ambos, que se acalmaram, e trataram da agenda. “Sai de lá com a verba liberada”, disse Ary ao seu maior confidente, Batista Custódio.

Esta e outras estórias tive o prazer de ouvir do ex-governador e do Editor-Chefe do Diário da Manhã, nas minhas idas e vindas como jornalista e editor de política do jornal nos anos 1990 e no início do ano 2000.

O final de governo de Ary foi marcado pela tristeza do pai que perdeu o filho, Aryzinho, num acidente de avião que comoveu Goiás. O jovem, que também era piloto, teve 90% do corpo queimado após a queda da aeronave. Ele escapou praticamente ileso do pouso forçado, mas voltou para resgatar um dos pilotos, e foi tomado pela explosão da aeronave. Apesar do infortúnio, Ary manteve-se até o fim na gestão do governo, trabalhou pela eleição do seu sucessor, o ex-governador Otávio Lage, com quem tinha atritos políticos no passado, mas ao final respaldou sua candidatura. A vitória esmagadora de Iris Rezende Machado (MDB), com 80% dos votos válidos, não inibiu Ary Valadão de fazer a transmissão de posse do cargo. O último governador do regime dos quartéis mostrou dignidade em passar o governo e as chaves do Palácio das Esmeraldas ao sucessor, eleito pelo voto direto.

Seu último ato como governador foi a doação da “Chácara do Governador”, antigo sítio destinado ao lazer dos governantes goianos, ao estilo da Granja do Torto, em Brasília. O local foi loteado para famílias sem-teto, e hoje é um bairro com centenas de casas.

Ary Ribeiro Valadão tinha 102 anos, completaria 103 no dia 14 de novembro.  Informações dão conta de que faleceu de causas naturais. Ele deixa viúva dona Maria Peixoto Valadão com e duas filhas.