Reportagem analisou os 450 principais canais nos quais os anúncios foram exibidos.

 Texto: Ethel Rudnitzki, Laura Scofield | Infográficos: Bruno Fonseca, Larissa Fernandes -“Oi vizinhos, como vocês estão na quarentena? Eu tô bem, junto da minha família”, diz um adolescente à câmera enquanto segura placas que dizem o contrário. “Estamos sendo machucados”, lê-se em uma delas. O vídeo termina com a indicação de canais de denúncia para violência doméstica e faz parte de uma campanha do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos (MMFDH) veiculada em rádios, TVs, jornais impressos e na internet – especialmente em canais de YouTube.

Segundo levantamento da Pública, o ministério investiu R$ 270.814,04 de dinheiro público por meio do sistema de anúncios do Google – Google Ads – na divulgação da campanha contra violência doméstica em 119.251 canais de YouTube no período de 1a 28 de maio de 2020. Além da plataforma de vídeos, as redes sociais Facebook, Instagram e Twitter também veicularam anúncios, adicionando R$ 522.256,81 de gastos à pasta.

A reportagem examinou os 450 canais de YouTube que mais receberam verbas do MMFDH no período. Juntos, receberam R$113.484,27 e foram visualizados 8,6 milhões de vezes, gerando 1,45 milhões de cliques – uma taxa de interação de 16,4%.

Muitos deles foram beneficiados também em campanha da reforma da Previdência, promovida pela Secretaria de Comunicação do Governo (Secom), veiculada entre junho e agosto do último ano. Na época, o governo patrocinou campanhas para canais infantis, religiosos e investigados pela Justiça, como mostrou levantamento da Pública.

Os dados foram obtidos em agosto pela Fiquem Sabendo, agência de dados especializada na Lei de Acesso à Informação (LAI).

Campanha voltada para religiosos

O MMFDH utilizou a plataforma Google Ads para a veiculação de campanha contra a violência doméstica no YouTube. Nela, anunciantes podem delimitar o público-alvo para suas campanhas e os tipos de canais onde suas propagandas serão exibidas. “Você pode segmentar para quem você quer que o anúncio apareça. Você consegue segmentar idade, pessoas, região, assuntos e uma série de segmentações que o Google oferece”, explica Ildeberto Rodello, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP em Ribeirão Preto (FEA-RP).

A segmentação escolhida pelo MMFDH fez com que a campanha fosse veiculada principalmente em canais de música. Dos 450 principais canais que mais receberam repasses, 100 eram desse tipo e apresentaram o anúncio mais de 2 milhões de vezes. Entre eles, 25% eram de música gospel ou religiosa.

Foi também em canais de música que a campanha contra a violência doméstica teve mais interações – a cada cem pessoas que assistiram à propaganda nesses canais, 29 clicaram no anúncio.

A segunda categoria que rendeu maior taxa de interação com a campanha foi a de canais religiosos. Entre 1o de maio e 28 de maio, mais de 132 mil acessos aos vídeos do MMFDH foram feitos em seis canais desse tipo – com faturamento de R$ 1,8 mil. A cada 100 pessoas, 25 clicaram com os anúncios.

Canais de música gospel tiveram taxa ainda maior – 32% – e trouxeram à campanha contra a violência doméstica mais de meio milhão de visualizações, com um faturamento de R$ 7.338,69 em dinheiro público.

Rodello entende que pelas segmentações disponibilizadas pelo Google é possível que a campanha tenha sido direcionada a um público-alvo com interesse em religião. Contudo, especialmente após a Lei Geral de Proteção de Dados – que entrou em vigor em setembro e estabelece limites para o uso de informações pessoais –, acredita que “esse tipo de segmentação não deveria ser feito”.

Entre os canais associados a religião que veicularam os anúncios do MMFDH está o da gravadora gospel MK Music. A empresa pertence ao grupo MK de Comunicação, da família do senador bolsonarista Arolde de Oliveira, investigado no inquérito que apura a organização de atos antidemocráticos. O grupo MK administra vários veículos de mídia, como a Rádio 93 FM e o site Pleno.News, um dos que mais disseminam desinformação, conforme apurado por esta reportagem da Pública.

A gravadora ainda foi recentemente acusada de romantizar a violência doméstica em um clipe musical de uma de suas artistas, Cassiane. Na produção, uma mulher sofre agressões do marido alcoólatra, mas entrega uma bíblia e um bilhete dizendo que o perdoa, em vez de denunciar o agressor. Depois das críticas, uma nova versão do clipe foi lançada. Nele, a mulher denuncia e mais tarde perdoa o marido.

“Jamais romantizaríamos qualquer crime. Violência contra mulher é crime e repudiamos veementemente. Inclusive, consta no referido clipe todas as referências para denunciar através do Disque 180”, respondeu a gravadora, omitindo que a primeira versão do clipe não continha o canal de denúncia.

O clipe foi lançado em julho, dois meses depois de o canal da MK Music ter veiculado os anúncios do MMFDH contra violência doméstica, atingindo 121 mil pessoas, com um faturamento de R$ 1.651,27. Foi o terceiro canal de YouTube que mais recebeu pela campanha.

Em resposta à reportagem, o grupo MK disse que “não procede” a informação de que receberam dinheiro público em seu canal de YouTube, alegando que “a distribuição de anúncios de qualquer natureza e o direcionamento aos canais ou vídeos são de competência exclusiva do YouTube”.

Sobre a acusação de disseminação de desinformação pelo grupo, a empresa respondeu que a gravadora MK Music “há mais de 35 anos trabalha levando mensagem de paz, amor e fé através da música, com seriedade, idoneidade, respeito e credibilidade”.

Pelo AdWords, o MMFDH financiou canais de desinformação e associados a atos antidemocráticos

Além do grupo MK, outros oito canais associados à disseminação de desinformação foram beneficiados pela campanha do MMFDH. Juntos, eles apresentaram os anúncios contra a violência doméstica mais de 122 mil vezes e receberam R$ 1,6 mil do governo.

Destes, o canal mais beneficiado foi o DR News, que veiculou a campanha mais de 20 mil vezes e atingiu um faturamento de R$ 303,55 em dinheiro público. “Descoberto o plano internacional contra o povo brasileiro”, diz um vídeo do canal, no qual apresenta fala do deputado Osmar Terra, um dos políticos bolsonaristas que negam a gravidade da pandemia de coronavírus no Brasil.

Grande parte dos canais desinformativos beneficiados pela campanha do MMFDH é partidária do presidente. O canal Brasil Acima de Tudo, que rendeu 21 mil visualizações à campanha do MMFDH e faturou R$ 241,50, classifica Bolsonaro como “um dos maiores fenômenos eleitorais da história”.

Já o Vista Pátria, que apresentou anúncios contra a violência doméstica mais de 12 mil vezes e faturou R$ 146,77 de dinheiro público, mantém relações próximas com o presidente. Em 23 de maio, enquanto a campanha era veiculada, o youtuber responsável pelo canal, Allan Frutuozo, se reuniu com Jair Bolsonaro, a quem chamou de “o único líder legítimo aqui da pátria”, e gravou um vídeo chamando para manifestações em favor do presidente e contra as instituições.

Procurados, os canais DR News, Brasil Acima de Tudo e Vista Pátria não responderam até a publicação da reportagem.

Também está associado aos atos antidemocráticos o Foco do Brasil, que gerou 13.694 visualizações aos anúncios do MMFDH e recebeu R$ 194,73. Apesar disso, em sua descrição no YouTube o canal diz que “não recebe e nunca recebeu nenhum recurso financeiro de políticos, empresários ou quem quer que seja”.

Com 2,25 milhões de inscritos, o canal posta vídeos de Jair Bolsonaro e de um jornal denominado JB News, que comenta as principais notícias do dia sob a ótica bolsonarista. Um vídeo publicado em maio mostrou durante seis minutos atos em apoio ao presidente e contra as instituições, e o apresentador afirma que “manifestações de apoio a um presidente não foram vistas no Brasil desde as Diretas Já”. A informação é falsa. Em 2016, milhares de pessoas foram às ruas em apoio à presidenta Dilma, que sofria processo de impeachment.

Vídeo do canal “Foco do Brasil” divulga atos antidemocráticos com informação falsa

O Foco do Brasil, que deletou vídeos e mudou de nome, é investigado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em inquérito que apura a organização de atos antidemocráticos desde maio, período em que circulou a campanha. Questionado, o canal disse que está colaborando com as investigações e para a reportagem “não se preocupar quanto a isso”.

Quando questionado sobre a veiculação de anúncios do governo, o canal acusou a reportagem de “não dominar o assunto pelo qual está perguntando”.

Disseram ainda que “nenhum criador de conteúdo na plataforma tem qualquer ingerência sobre os anúncios veiculados pelo YouTube via Google Ads. Também não temos a possibilidade de estabelecer filtros sobre isso”. No entanto, o YouTube permite que canais bloqueiem anúncios de categorias ou de anunciantes específicos, conforme explicam no suporte da plataforma.

Sobre o assunto, a reportagem consultou também o pesquisador Ildeberto Rodello, que explicou que, apesar de o Google Ads não permitir que os canais escolham que anunciantes exibirão vídeos em seus canais, “eles saberiam quais anúncios foram exibidos [em seus vídeos]”.

MMFDH repetiu erros da Secom em campanha

Além da campanha de enfrentamento da violência doméstica, o Foco do Brasil veiculou anúncios governamentais da Nova Previdência promovidos pela Secretaria de Especial de Comunicação Social do governo federal entre junho e agosto de 2019, quando ainda se chamava Folha do Brasil. O canal exibiu a campanha mais de 57 mil vezes e faturou R$ 726,25 de dinheiro público na ocasião.

Mais de 3,7 mil canais veicularam as duas campanhas – 3,1% de todos os canais beneficiados pelo MMFDH. Entre eles estão canais envolvidos em problemas judiciais distintos, como o do youtuber Renato Garcia, investigado por posse ilegal de armas, munição e drogas, encontradas em sua casa em maio de 2019. Ele veiculou os anúncios governamentais mais de 170 mil vezes e faturou R$ 2.097,16 com as duas campanhas.

Outro exemplo é o Fran para Meninas, canal que recebeu R$ 1.084,34 por 91 mil acessos no anúncio da Nova Previdência e R$ 129,15 por 8,6 mil acessos na campanha do MMFDH. O canal está sendo investigado pelo Ministério Público (MP) pelo que o Conselho Tutelar chamou de “exposição vexatória e degradante” de crianças, como revelou a revista Veja em maio deste ano.

Procurados, os canais Fran para Meninas e Renato Garcia não responderam até a data de publicação da reportagem.

As duas campanhas direcionaram recursos públicos também a canais que foram banidos do YouTube por violação das regras da plataforma. O YouTube exclui conteúdos que violam direitos autorais ou disseminam discurso de ódio, entre outros. No total, R$ 3.321,33 foram gastos com esses conteúdos.

Segundo estudo conduzido pela Universidade de Oxford, a maioria de sites e canais de baixa credibilidade utiliza o Google AdWords como sua principal forma de faturamento. Isso porque “grande parte desses veículos são de acesso gratuito, enquanto a mídia tradicional se esconde atrás de paywalls”, explica Emily Taylor, pesquisadora do Instituto de Internet da universidade.

Por isso, empresas e governos precisam atentar para os tipos de sites e canais que estão financiando por meio de anúncios. “Que tipo de empresa você está mantendo online? Com que sua mensagem está sendo associada?”, questiona a pesquisadora.

Rodello concorda: “O governo não deveria veicular anúncios em canais que sejam de outro propósito, que tenham fake news e não sejam sérios”. A campanha da Nova Previdência promovida pela Secom gerou investigação na Polícia Federal (PF) para apurar se a publicidade governamental estaria sendo utilizada para financiar sites que apoiam o governo. No mais recente relatório da PF, a delegada Denisse Dias Ribeiro afirmou que o objetivo da investigação é identificar se o governo federal agiu por ação deliberada ou omissão no financiamento das páginas, conforme noticiou o jornal O Globo. O secretário Fábio Wajngarten, chefe da Secom, responsabilizou o Google pela veiculação dos anúncios em sites de desinformação.

O mesmo relatório indicou que existem “vínculos, ainda não totalmente esclarecidos”, entre o grupo investigado por relação com os atos antidemocráticos e o MMFDH, comandado por Damares Alves.

O MMFDH não respondeu sobre a segmentação utilizada na campanha de enfrentamento à violência doméstica veiculada no Youtube. Também não pronunciou sobre as investigações da PF sobre a associação do ministério com atos antidemocráticos.

Campanha foi veiculada em outras redes sociais

Além do YouTube, a campanha de conscientização contra a violência doméstica foi veiculada em outras plataformas, que foram identificadas pelo MMFDH como “sites” – incluem redes sociais, plataformas de rádio e podcast e outros sites de distribuição de conteúdo.

Entre as redes sociais, o Instagram foi o que mais recebeu dinheiro do governo; apresentou a campanha 45.650.063 vezes entre 1o e 28 de maio de 2020 e recebeu mais de R$ 215 mil por isso, com 0,17% de taxa de interação.

O Facebook aparece em seguida, tendo veiculado o anúncio cerca de 44 milhões de vezes, com 0,57% de taxa de interação no período, o que rendeu mais de R$ 170 mil de dinheiro público. O Twitter gerou a maior taxa de interação (5,13%) e trouxe à campanha mais de 11 milhões de visualizações por quase R$ 150 mil.

As redes Facebook, Instagram e Twitter receberam mais de meio milhão por 100 milhões de impressões e 922 mil interações

Além dos anúncios nas redes sociais, o MMFDH veiculou uma versão em áudio da campanha contra violência doméstica em plataformas de distribuição de conteúdo, como rádios e podcasts, que também classificou como “sites”. A mais bem remunerada entre essas, a TuneIn recebeu R$ 28 mil e a menos, a Radiopolis, uma rádio colombiana em espanhol, faturou quase R$ 2.500 de dinheiro público no mês de maio.

Sete das plataformas de rádio e podcast mais bem pagas receberam mais de R$ 11 mil cada uma por apresentar a campanha do governo entre 1º e 28 de maio; gerando entre 64 mil e 160 mil impressões e 3.685 e 22.886 interações.

Créditos de imagens

 Reprodução/Youtube

 

Colaborou Bruno Fonseca

 

Reportagem originalmente publicada na Agência Pública

Assine nossa newsletter