Comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica discutem renúncia coletiva do governo após demissão do Ministro da Defesa, Fernando Azevedo. Com a perda de respaldo nas Forças Armadas, apoiadores do presidente incentivam motim das PM´s contra os governadores.

O dia de hoje, 29 de março – véspera do fatídico 31 de março, quando em 1964 o Brasil mergulhou numa ditadura de 21 anos -, marcou uma tentativa de autogolpe do presidente Jair Bolsonaro. Segundo fontes ouvidas por vários jornais da grande mídia (Folha, Globo), a demissão do ministro da Defesa, o general Fernando Azevedo, se deu por sua recusa de convocar o Estado de Sítio, e ainda, promover o general Eduardo Pazeullo,  ex-ministro da Saúde, ao posto de general quatro estrelas.

De acordo com matéria do jornal O Globo, ss comandantes Exército, Marinha e Aeronáutica estão discutindo no início da noite desta segunda-feira (29) uma renúncia conjunta aos cargos, como reação à saída do ministro da Defesa, Fernando Azevedo.

Segundo a jornalista Malu Gaspar, do Globo, o mais provável é que deixem seus postos ainda hoje. “Além de Edson Pujol, que o presidente Jair Bolsonaro disse hoje nos bastidores que demitiria, participam da reunião em local não revelado o comandante da Marinha, Ilques Barbosa Junior, da Aeronáutica, Antônio Carlos Muaretti Bermudez. Ministros militares de Jair Bolsonaro também participam do encontro”, diz a jornalista.

A renúncia conjunta dos chefes das Forças Armadas seria algo inédito na história da República.

O processo de deterioração das relações do governo com as Forças Armadas, segundo o cientista político Danilo Bragança entrevistado pelo site Sputnik Brasil.  Em nota oficial, Azevedo e Silva anunciou que sai com “certeza da missão cumprida”, afirmando que preservou “as Forças Armadas como instituições do Estado”.

O cientista política e professor de Relações Internacionais da UFF, Danilo Bragança, disse à Sputnik Brasil que todas essas movimentações do governo indicam mudanças muito fortes no jogo de forças da política brasileira. De acordo com ele, a mudança de ministros que agitou a vida política do país no começo desta semana sugere que estejamos entrando no limite da governabilidade de Bolsonaro e das relações do bolsonarismo com outras instituições e poderes.

“O legislativo que forçou a saída de Ernesto Araújo, o judiciário que tem reprovado ou negado demandas que são absolutamente absurdas por parte do governo Bolsonaro, e parece que há um elemento a mais nesse processo tudo ainda a se confirmar, que é a resistência das Forças Armadas”, observou.

De acordo com Bragança, a chegada do centrão a partir dos acordos que levaram Arthur Lira e Rodrigo Pacheco à presidência da Câmara e do Senado, respectivamente, acabou virando um obstáculo para o governo Bolsonaro.

“Se imaginava no começo um governo formado por uma base evangélica muito forte, uma base de policiais militares e as Forças Armadas […] Essa base aos poucos ficou sendo então somente as Forças Armadas, tendo à frente de ministérios-chave como Defesa, da Saúde, da Infraestrutura, entre outros, militares da ativa ou da reserva.

Presidente Jair Bolsonaro, chefe supremo das Forças Armadas brasileiras, chega para o evento em homenagem ao Dia da Vitória no Rio

© FOTO / TOMAZ SILVA/AGÊNCIA BRASIL

O especialista argumentou que a saída de Eduardo Pazuello do Ministério da Saúde já havia indicado um certo desgaste, porque “embora Pazuello tenha sido um ministro catastrófico para o nosso país, no geral ele tinha algum respaldo das Forças Armadas”.

“A saída do Pazuello representou um processo de deterioração também das relações entre as Forças Armadas e Bolsonaro, entre esse partido militar propriamente dito que está no governo e as Forças Armadas enquanto instituição. Esta relação foi ruindo”, afirmou.

​O especialista avaliou que as mudanças ministeriais desta segunda-feira (29) revelam um processo de deterioração das relações do governo com as Forças Armadas, ao mesmo tempo que há um processo de “acomodação” das relações entre o governo, o Executivo e o Legislativo, sobretudo com o Senado, que atacou duramente o Ernesto Araújo no Ministério das Relações Exteriores.

“É um momento de ruído de comunicação, de desentendimento, de desinteligência entre o Executivo federal, o partido militar que está no governo, e as Forças Armadas, que tem o general Fernando Azevedo e Silva como um dos mais antigos dentro do governo”, completou.

O ex-ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, estava à frente do Ministério da Defesa desde o início do governo de Jair Bolsonaro.

Mudança em seis ministérios

Além da Defesa o derretimento do governo Bolsonaro é visto em outras cinco pastas. Segundo informações da Folha de S. Paulo o Advogado Geral da União  José Levi, pediu demissão do posto após reunião com Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto. Conforme apurado pela Folha, Levi se recusou assinar ofício da presidência ao Supremo Tribunal Federal (STF) que queria impedir os governadores de decretarem lockdown em seus Estados.

Na Casa Civil, sai o ministro Walter Braga Netto e assume o ministro Luiz Eduardo Ramos, que chefiava a Secretaria de Governo. No Ministério da Justiça, assume o delegado federal Anderson Torres, que comandaava a PF e tem relações com lideranças da Polícia Militar, substituindo André Mendonça, que volta para a Advocacia Geral da União.

o Ministério da Defesa entra Walter Braga Netto, no lugar de Fernando Azevedo e Silva.

O Ministério das Relações Exteriores, será comandado pelo embaixador Carlos Alberto Franco França.

Na Secretaria de Governo entra a deputada federal Flávia Arruda (PL-DF).

Walter Braga Netto, Luiz Eduardo Ramos e André Mendonça foram movidos entre pastas.

O delegado federal Anderson Torres, o embaixador Carlos Alberto Franco França e a deputada federal Flávia Arruda (PL-DF) são os novos integrantes do governo.

Autogolpe com milicianos da PM

No seu “Balaio do Kotscho”, o veterano jornalista Ricardo Kotscho (ex-Estadão, atualmente escrevendo no UOL), diz que há rumores de que sem o apoio das Forças Armadas o presidente Jair Bolsonaro estaria incentivando uma rebelião de comandantes da Polícia Militar nos Estados contra os governadores. Os indicativos seriam postagens da deputada federal Bia Kicis, qincitou um golpe da PM contra o governador da Bahia, Rui Costa (PT), ao defender um soldado que, durante um surto, invadiu o Farol da Barra (Salvador) e disparou para o alto. Segundo a bolsonarista, o “soldado é um herói”. Ele foi atingido por outros PMs durante três horas de operação para contê-lo. Após o uso de um negociador, que buscou dissuadí-lo das ameaças, pedindo que depusesse as armas, o soldado surtado atirou contra seus colegas e foi alvejado, morrendo no fim da noite deste domingo. Para variar, o filho “03” do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SÇ) também encoraja motins da PM contra os governadores que estão promovendo isolamento no pior momento da pandemia de covid-19, que tem vitimado em média 3 mil pessoas por dia no Brasil.

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