Comissão exibe ata de reunião que seria “prova cabal” da ligação entre a Precisa Medicamentos com o escândalo da vacina Covaxin e o deputado Ricardo Barros.

da RBA

O aguardado depoimento de Francisco Maximiano, dono da Precisa Medicamentos, terminou sob tensão. Ele foi ouvido nesta quinta-feira (19) após a oitiva ser adiada por quatro vezes. Um dos últimos senadores a questionar o empresário, Alessandro Vieira (Cidadania-SE) afirmou que “esse cidadão é parte de um eixo de empresas” e, além dos evidentes “indícios de corrupção e lavagem de dinheiro”, mentiu à comissão. “O que exige tomada de providência é que o depoente claramente mentiu”, afirmou o senador. Ele sugeriu então à presidência da comissão que decretasse a prisão de Maximiano (confira vídeo abaixo).

 

Vieira mencionou o contrato de locação de um imóvel no Campo Belo (zona sul da cidade de São Paulo), do qual Maximiano disse ser apenas fiador, mas do qual era o locatário. O imóvel seria frequentado pelo empresário Marcos Tolentino, ligado ao líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR).

Para evitar a possível prisão, Maximiano recuou. “Eu formalmente me retrato e peço desculpas, pois realmente consto como locatário no contrato deste imóvel. Não me recordava, pois não vivi lá”, disse o depoente.

Alessandro Vieira (ao centro) conversa com advogado de Maximiano após sugerir prisão e retratação do depoente

Precisa, medida provisória e Ricardo Barros

silêncio de Maximiano acabou sendo inútil diante de documentos devastadores apresentados pela CPI, como no caso do aluguel mencionado por Randolfe e Vieira. Mas havia mais.

“O senhor Ricardo Barros já atendeu alguma demanda apresentada por vossa senhoria?”, quis saber Randolfe de repente. “Respeitosamente, vou permanecer em silêncio”, respondeu o empresário.

O senador então mostrou ata de reunião do Ministério da Saúde de 12 janeiro deste ano em que se lê: “Presidente da Precisa questionou sobre a possibilidade de alteração da MP 1.026, para que seja inserida agência regulatória indiana no rol do disposto no art. 16” (da MP).

“Adivinha quem, na Câmara dos Deputados, apresenta a emenda reivindicada (por Maximiano)?”, ironizou Randolfe.

A emenda é do líder governista Ricardo Barros, que na semana passada acusou a comissão de ser responsável pelo atraso das vacinas no país. “O que a CPI atrapalhou foram os negócios dele, Ricardo Barros”, disse. Para o vice-presidente da CPI, a ata mencionando o “presidente da Precisa” e a emenda proposta pelo líder governista na Câmara é uma “prova cabal” da ligação entre Maximiano e sua empresa com o escândalo da vacina Covaxin e o deputado Barros.

O dono da Precisa usou durante toda a sessão o direito de não responder questões que o autoincriminassem, com base em habeas corpus concedido pela ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal (STF), o que irritou a CPI. Ainda pela manhã, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), vice-presidente, sugeriu consultar novamente o STF sobre qual o limite do depoente para não responder. Soraya Thronicke (PSL-MS) discordou e apontou que a decisão do ministro Luiz Fux, presidente do STF, já definira a competência da comissão para dar ordem de prisão. A senadora, Humberto Costa (PT-PE) e Simone Tebet (MDB-AL) se posicionaram contra a proposta de suspender a sessão, que continuou.

‘Não há silêncio dos inocentes aqui’

Simone Tebet (MDB-MS) afirmou que as não respostas de Maximiano apenas comprovavam os indícios de negócios fraudulentos da Precisa. “Não há silêncio dos inocentes aqui”, afirmou, em referência ao famoso filme sobre um serial killer. “Quando o depoente ora responde, ora não, ele está dando a resposta. Quando ele se reserva ao direito de ficar em silêncio, ou ele sabe que, se falar, vai ter que mentir, ou vai ter que se autoincriminar. Então, já temos as respostas”, afirmou a senadora.

“Minha sensação se confirma pelo silêncio (de Maximiano)”, afirmou Tasso Jereissati (PSDB-CE). “Ele se esconde atrás de um advogado que a toda pergunta cochicha em seu ouvido. É muito receio de ficar incriminado. É porque tem muita culpa no cartório – acrescentou o senador– e confirma a visão que tenho de que existe uma vasta teia de negócios ilícitos que envolve o depoente e tem sim um certo apadrinhamento do Ricardo Barros.”

Cármen Lúcia dá prazo a CPI sobre Barros

Ontem, a CPI incluiu Barros entre os investigados da comissão. Na sexta, a maioria aprovou a quebra de sigilo fiscal do deputado federal e de Frederick Wassef, advogado da família Bolsonaro.

A ministra Cármen Lúcia, do STF, determinou no final da tarde que a CPI se manifeste em 24h sobre o pedido de Ricardo Barros para suspender as quebras de sigilo no âmbito da comissão. A informação é do Metrópoles. Na semana passada, com a arrogância característica, ele afirmou que a comissão poderia quebrar seus sigilos que não encontraria nada.