Jornalista diz que direção da Record Goiânia reclama que perdeu audiência no público da classe C, “mas as matérias deixaram de mostrar falta de médico nos Cais, problemas de infra-estrutura, para ter cobertura apenas de tráfico de drogas, câmaras de vigilância e animais bonitinhos”, frisa.

A jornalista Mariana Martins anunciou nas suas redes sociais que foi comunicada nesta terça-feira de seu desligamento da TV Record em reunião com diretores da emissora em Goiânia.

A profissional postou vídeo no Instagram onde relata pressão psicológica, machismo e preconceito da direção sobre as jornalistas da emissora, que está perdendo o público C em virtude do jornalismo “chapa-branca”, que não  mostra os problemas vividos pela população com a falta de médicos nos Cais, e problemas de infraestrutura nos bairros.

 

Confira a denúncia da jornalista:

Mariana Martins: 12 anos de jornalismo, mais uma vítima do machismo e preconceito da emissora aliada do bolsonarismo

Clique Aqui e assista ao vídeo no Instagram

 

“Hoje pela manhã fui comunicada de uma decisão da empresa pela minha demissão. Não me disseram o motivo, e que acredito que eu tenho que dar uma satisfação com vocês que me acompanham. Eu sei alguns dos motivos, e queria dividir com algumas mulheres. A pressão pela audiência, a busca pela audiência, não pode maltratar, e nem coagir o funcionário. Vivi várias situações de constrangimento, que deixaram claro para mim que queriam me transformar noutra pessoa, numa pessoa que eu não sou.

Eu trabalhei na TV Anhanguera , filiada da Globo por quase oito anos, me levaram para a Record com uma proposta de um projeto novo, e eu fui muito feliz, se encerra ali e começava um novo ciclo, e de um tempo para cá comecei a viver situações de constrangimento. A última delas, e a mais grava aconteceu no último dia 4. Me levaram para uma reunião, havia várias pessoas nesta reunião, foram apresentados números de audiência e mostraram que  nosso jornal perdeu audiência.

A emissora de um modo geral perdeu o público C, que é público alvo da Record e ganhou o público A-B, que é um público que  migra muito. A Record quer recuperar a audiência deste público C, só que eles não percebem –  e o que eu tentei argumentar com eles lá foi isso – que a culpa não é das pessoas, não é da Mariana, porque colocaram nesta reunião várias fotos das minhas redes sociais, com a presença de várias pessoas me constrangendo de forma absurda.

Colocaram fotos minhas de biquíni, fotos de viagem, dizendo que  eu tinha que me transformar e transformar o meu instagram em outro para falar a linguagem deste  público, para chamar estas pessoas, porque as fotos estavam muito bonitas e eu tinha que ser outra.

Eu cheguei a ouvir de uma gerente, que é mulher, que eu tinha que mudar talvez o meu jeito de andar, que não era certo, que eu sensualizava um pouco na hora de falar. Eu sensualizar no jornal gente? Eu não sensualizo nem aqui no instagram com vocês.

Então situações de constrangimento, preconceito, machismo foram inúmeras. Chegaram ao ponto de colocar a rede social de uma jornalista de São Paulo, dizendo que eu teria que colocar o meu instagram daquele jeito.

Eu argumentei com eles de que não é isso que fideliza o público. O publico não  vai assistir o jornal porque a Mariana está usando a calça feia ou bonita, justa ou larga.

O que fideliza o público é ele ver a denúncia dele no ar, é ele ver a reclamação dele no ar. É um jornalismo imparcial. A gente tinha que estar ali discutindo conteúdo, não era constrangendo como fizeram comigo e com  outra colega da emissora, que é conhecida por ter um corpo bem chamativo, a coagiram e ela teve que apagar no instagram dela fotos de maiô, fotos de viagem.

Isto não está certo.

Tudo que estou falando aqui não é da minha cabeça, eu tenho como provar.

Eu não estou fazendo isto para aparecer. É só para você que é mulher saber que não é a sua roupa que vai te definir. Pode parecer pouco para algumas pessoas mas eu tenho 12 anos de jornalismo, todos os dias nas ruas ouvindo as pessoas, olhando no olho e sendo verdadeira. Isto não pode ser diminuído, menosprezado, porque acham que a roupa que eu estou usando não é legal, que eu tenho que ser menos feminina, que tenho que passar uma impressão mais séria.

Eu sou verdadeira aqui. Você me conhece. Você sabe que não é porque eu viajei e postei uma foto de biquíni eu sou menos jornalista por isso. Porque o meu papel está bem feito no jornal. A matéria que eu saio para fazer eu entrego bem feita. Os meus comentários e meus posicionamentos no jornal são coerentes. Por isso a gente não pode se calar para nenhum tipo de preconceito. A gente precisa se unir e ser firmes, precisa ter voz e não se calar diante de pressão por audiência, pressão psicológica nos funcionários, pressão na mulher, que a mulher tem que ser menos, tem que usar uma roupa mais discretinha para parecer competente. A gente não pode se calar diante disso.

Eu agradeço muito todos vocês que me acompanharam aqui, e quis deixar este depoimento porque não tá certo isso.  No contrato que a gente assina não há nada que diz que eles podem ter ingerência nas nossas redes sociais, porque a minha vida é a minha  individualidade. É a minha casa que eu mostrou aqui para vocês. Eles não podem  fazer isto por contrato.

Mas eles fazem pressão na gente, fazem tortura psicológica na gente e a preocupação deveria ser com o bom jornalismo, ético, sem amarras comerciais, nem com prefeitura, nem com o Estado. Por que parece que na cidade os problemas acabaram. A gente só faz matéria lá de  tráfico de drogas, imagens de câmara de segurança, carro roubado ou coisa bonitinha de bichinho. Os problemas de infra-estrutura da cidade, a falta de médico em Cais… E é isso que fideliza o público, porque as pessoas sabem que é de verdade.

Obrigado pelo apoio que sempre recebi aqui, e eu vou falar para vocês o que eu falei para eles:  Não é esse preconceito e esse machismo que  vão diminuir a história que eu construí. Eu sei do meu valor, e acima de tudo, a verdade sempre prevalece e Deus sabe de tudo.

Mulheres, ergam a cabeça e valorizem o conteúdo, a inteligência. Não deixem que diminuam vocês por questões físicas nunca. Este tipo de preconceito precisa acabar.