Encontro ocorreu no Instituto Lula e foi intermediado pelo governador do Ceará, Camilo Santana. Marqueteiro das campanhas vitoriosas de Lula, o publicitário João Santana acredita que a chapa PDT-PT é imbatível em 2002, e Lupi, presidente do partido criado por Brizola diz que aliança pode mudar os rumos da política nacional.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ex-ministro Ciro Gomes (PDT), sem diálogo entre si desde 2018, estiveram reunidos há quase dois meses e selaram as pazes, segundo informa matéria do jornal O Globo desta quinta-feira (29). O gesto pode significar a retomada do diálogo mais produtivo entre os dois líderes da esquerda brasileira e uma reaproximação entre seus partidos de esquerda de olho na disputa presidencial de 2022

A conversa teria sido intermediado pelo governador do Ceará, Camilo Santana, filiado ao PT e aliado dos irmãos Ferreira Gomes em seu estado. As tratativas para viabilizar a conversa duraram mais de um mês e o objetivo imediato seria unir PT e PDT com vistas à disputa da prefeitura de Fortaleza para derrotar o candidato bolsonarista Wagner Sousa (PROS). A aliança não vingou, mas a conversa evoluiu bem sobre as consequências da pandemia da Covid-19 na conjuntura nacional e o governo de Jair Bolsonaro.

A conversa, ocorrida na sede do Instituto Lula, em São Paulo, durou uma tarde inteira e, segundo O Globo, Ciro teria falado de suas mágoas com o PT, enquanto Lula lembrou os ataques do ex-ministro ao partido.

​​

Desde o encontro, Ciro e Lula mudaram o tom ao se referirem um ao outro e cessaram os ataques e alfinetadas. Os dois tiveram uma relação próxima, principalmente no primeiro governo do ex-presidente, quando o hoje pedetista foi ministro da Integração Nacional. O ex-presidente costumava exaltar a postura leal de Gomes durante a chamada crise do mensalão, em 2005.

Com o correr dos anos, mantiveram o contato, apesar de alguns ataques pontuais. O clima entre eles, porém, se deteriorou ao longo da eleição de 2018. Os petistas chegaram a oferecer a Ciro a possibilidade ser vice de Lula para depois que ocorresse o indeferimento — desta forma, o pedetista assumiria a cabeça da chapa. Ciro classificou a oferta, entre outros termos, de “aberração” e “papelão” e disse que não aceitaria ser um “vice de araque”.

Lula acabou não sendo candidato, substituído por Fernando Haddad, que teve Manuela D’Ávila (PCdoB) como vice, e Ciro Gomes também manteve seu nome na disputa presidencial. A campanha foi marcada por outros episódios tensos entre os dois maiores partidos de esquerda o que acabou por inviabilizar o apoio de Ciro a Haddad no segundo turno e culminando com a vitória de Bolsonaro.  Desde então, o recente encontro é o primeiro gesto de harmonia entre os dois e pode ter uma grande importância para unir as forças progressistas e democráticas.

Em setembro, já depois da conversa, Lula colocou o pedetista na lista de nomes qualificados para disputar a Presidência. Também considerou “pontuais” as diferenças entre eles e disse ter respeito por Ciro. Desde o encontro, o ex-presidenciável do PDT, por sua vez, não fez mais acusações pesadas contra o ex-presidente e o PT.

Na atual eleição municipal, o PT apoia 173 candidatos a prefeito do PDT, que por sua vez está em chapas encabeçadas por 134 petistas. Essas alianças, porém, não se dão em nenhuma das capitais.

A profecia de Santana

Em entrevista ao programa Roda Viva na noite desta segunda-feira, o marqueteiro João Santana chamou de “imbatível” uma chapa de esquerda encabeçada por Ciro Gomes, do PDT, tendo Lula como candidato a vice seria imbatível. A fala chegou aos ouvidos do presidente do PDT, Carlos Lupi, que disse que uma aliança assim poderia mexer no tabuleiro político e mudar os rumos de 2022.

Por enquanto tudo são conjecturas, mas os líderes dos maiores partidos de centro-esquerda do país já deram os primeiros passos, ao retomar o diálogo. A estratégia de colocar ex-presidentes como vice de outros candidatos e potencializar os votos na chapa começou com Cristina Kischner na Argentina, que ancorou a chapa do atual presidente Alberto Fernandez e está sendo repetida no Equador, onde o ex-presidente Rafael Correa foi indicado vice de Andrés Arauz. Deu certo para Los Hermanos argentinos e está dando certo também no Equador. Pode dar certo no Brasil? O futuro dirá.

 

Com informações de O Globo, DCM e Veja