Liberdad e Luta surgiu como tendência estudantil universitária em 1976 e fez História

Giorgia Cavicchioli – Brasil de Fato | São Paulo (SP) – Em 1976, surgiu uma tendência estudantil universitária histórica: Liberdade e Luta. Ela acabou se tornando um adjetivo entre 1970 e 1980. Libelu era sinônimo de radicalidade e, para os que pensavam diferente, de inconsequência política. O grupo foi impulsionado por uma organização clandestina internacionalista e ganhou fama ao retomar as palavras de ordem “abaixo a ditadura”.

Grupo ganhou fama ao retomar as palavras de ordem “abaixo a ditadura” – Divulgação-

Passadas quatro décadas, o filme Libelu – Abaixo a Ditadura mostra onde estão e como pensam aqueles jovens trotskistas que foram às ruas contra os generais. De acordo com o diretor Diógenes Muniz, era preciso dar destaque a essa época da História política do Brasil.

“A maior parte das narrativas sobre resistência ao regime militar que chegava para gente da minha idade era centrada na luta armada. Ou então, avançando no tempo, sobre as greves operárias do ABC. Entre uma coisa e outra, era como se houvesse um vácuo”, explica.

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Segundo ele, é de se admirar que o grupo conseguia fazer uma leitura política do que estava acontecendo naquele momento. Para Muniz, é muito difícil de conseguir explicar com clareza o que está acontecendo historicamente quando o indivíduo faz parte daquele momento.

“Formular e agir politicamente no aqui e agora não é tão simples assim. A projeção da Libelu no fim dos anos 1970, acredito, é também fruto desse exercício político bem feito por parte dos seus quadros”, afirma.

Libelu – Abaixo a Ditadura está disponível nas plataformas: NOW, Vivo Play, Oi Play, Google Play, iTunes, Apple TV e YouTube Filmes.

Leia a entrevista completa:

Brasil de Fato: Conte um pouco de onde veio a ideia de falar sobre o tema 40 anos depois.

Diógenes Muniz: Tenho 35 anos, então sou de uma geração que cresceu no pós-ditadura. A maior parte das narrativas sobre resistência ao regime militar que chegava para gente da minha idade era centrada na luta armada. Ou então, avançando no tempo, sobre as greves operárias do ABC.

Entre uma coisa e outra, era como se houvesse um vácuo, aqui não seria justo completar com “historiográfico”, mas certamente um vácuo de atenção ou de importância atribuída. Da turma que refunda o DCE [Diretório Central dos Estudantes] da USP [Universidade de São Paulo], ocupa as ruas em 1977, com o AI-5 ainda vigente, e luta pela recriação da UNE [União Nacional dos Estudantes], o episódio mais famoso era a invasão da PUC [Pontifícia Universidade Católica], em São Paulo, pelas tropas do Erasmo Dias. Ou seja, muito pouco para o tanto de vitórias políticas que eles acumularam.

Entendi que havia muita coisa pra pesquisar sobre essas pessoas e o que elas viveram naqueles anos. O fascínio aumentou conforme fui entendendo que a Liberdade e Luta se tornou uma coqueluche sem sequer ser a maior tendência estudantil daquela época, ou a que ganhava mais eleições pro DCE. Como pôde então um grupo pequeno e radical gerar tantas figuras públicas, e tão diversas, como Palocci, Magnoli, Arbex, Bucci, os Melo, os Turra, a Laura Capriglione, o Giannetti da Fonseca? O filme nasceu um pouco dessas dúvidas.

Como foi o processo para a realização do documentário? Para achar os personagens, fazer contatos?

Todo o processo de feitura do filme durou cerca de cinco anos. Eu e a Bianka Vieira, a assistente de direção, pré-entrevistamos dezenas de pessoas que viveram os acontecimentos daqueles anos, além de pesquisadores que estudaram o período. Íamos “fichando” cada entrevista e cruzando os relatos orais com os documentos que nos davam ou que encontrávamos pelo caminho.

Falamos não só com ex-libelus, mas com gente que tinha feito parte da Refazendo e da Caminhando, outras tendências estudantis que disputavam politicamente com a Liberdade e Luta. Tivemos acesso aos arquivos do jornal O Trabalho, o que foi muito generoso da parte deles… Sobretudo se considerarmos que é um filme feito “de fora”, por alguém que não milita na corrente O Trabalho, do PT.

É importante citar ainda três pesquisadoras que já tinham se detido, na academia, sobre o Movimento Estudantil da segunda metade dos anos 1970: Angélica Müller, Mirza Pellicciotta e Jordana de Souza Santos. De toda a pesquisa que fizemos, considero o programa em que o Mino Carta entrevista Josimar e Ricardo Melo, em 1979, na TV Tupi, o mais importante. A fita estava na Cinemateca e conseguimos chegar nela pouco antes do fechamento de seus arquivos, que seguem até agora inacessíveis, um absurdo criminoso.

O que você percebeu em comum entre todos os personagens? Tem algo em comum em relação ao que eles pensam hoje em dia? Ou são figuras completamente diferentes?

Felizmente, não encontrei nenhum ex-libelu que se tornou bolsonarista

Alguns deram uma guinada à direita ao longo da vida, mas há quem permaneça trotskista até hoje. Acho que a graça de ouvi-los falar em 2021 é essa: cada um elabora sua trajetória política e de vida de uma maneira. Em comum, todos sentem orgulho por terem participado da resistência à ditadura militar, independentemente do que aconteceu depois. Felizmente, não encontrei nenhum ex-libelu que se tornou bolsonarista.

Por qual motivo acha importante falar sobre o tema hoje em dia, em um momento em que o Brasil vive uma grande crise democrática com Bolsonaro?

O filme traz esses militantes… e aí é importante falar da OSI, a Organização Socialista Internacionalista, que impulsionava a Libelu… que souberam fazer a leitura de conjuntura daquela época e formular ações a partir dela. Pode parecer óbvio que, sob uma ditadura, é necessário se organizar e ir pra rua gritar “abaixo a ditadura”.

Formular e agir politicamente no aqui e agora não é tão simples assim

No entanto, fico angustiado quando noto como é difícil descrever o que estamos vivemos. Alguns falam em democracia rarefeita, ditadura gasosa, desdemocratização e por aí vai… Formular e agir politicamente no aqui e agora não é tão simples assim. A projeção da Libelu no fim dos anos 1970, acredito, é também fruto desse exercício político bem feito por parte dos seus quadros.

Por qual motivo você acha que falar sobre movimento estudantil é algo tão atual hoje em dia? Você nota alguma diferença entre os jovens daquela época e os de hoje em dia?

Acho que as semelhanças entre a época retratada pelo filme e hoje são superficiais. Os momentos históricos são bem diferentes, me parece. Eles viviam os estertores da ditadura. Nós convivemos com fascistas declarados no poder ameaçando o resto do país abertamente, todo dia, sem sofrer maiores consequências.

Em todo caso, falando sobre movimento estudantil, juventude e militância: vai ser interessante reencontrar daqui a 40 anos os membros do Movimento Passe-Livre que começaram a enorme revolta popular de 2013 ou escutar os secundaristas que ocuparam as escolas públicas em 2016. Digo isso porque parece que viver esses momentos de explosão política no olho do furacão deixa marcas pro resto da vida.

Assista ao trailer do filme:

Edição: Rebeca Cavalcante