Novas revelações da Vaza Jato publicadas pelo jornal El País, revela que procuradores de Curitiba rejeitaram a delação de Palocci sobre sistema financeiro e optaram por fazer acordos com os banqueiros, que levaram inclusive à palestra remunerada do procurador chefe da Lavajato  Deltan Dallagnol na Febraban.

No seu site, o Jornal GGN, o jornalista Luis Nassif comenta: “Preso em setembro de 2016, Antonio Palocci passou dois anos tentando convencer os procuradores de Curitiba a aceitarem um acordo de delação premiada que, segundo ele, implicaria meios de comunicação e o setor financeiro. Mas a força-tarefa acabou rejeitando a negociação, alegando falta de provas de corroboração. Hoje, descobre-se que os motivos eram outros. A frase do procurador Roberson Pozzobon, um dos colegas de Dallagnol na Lava Jato, postada em conversa no grupo de procuradores no aplicativo Telegram, não deixa dúvidas de que esses integrantes do Ministério Público sabiam muito bem com o que estavam lidando: “O Banco, na verdade os bancos, faturaram muuuuuuito com as movimentações bilionárias dele (o doleiro Adir Assad,)”.

A reportagem da Rede Brasil Atual observa que  “o empresário e lobista Adir Assad foi condenado por lavagem de dinheiro e tem suas digitais em diversos escândalos de corrupção – inclusive na Petrobras, alvo da Lava Jato. Os bancos brasileiros “faturaram muuuuuuito” com suas movimentações bilionárias (como disse Pozzobon). Mas apesar de terem passado pelas mãos dos procuradores da Lava Jato suspeitas de crimes graves cometidos pelas instituições financeiras, os agentes do Ministério Público em Curitiba  – diferentemente do que fizeram com as empreiteiras – preferiram deixar o setor mais concentrado e lucrativo da economia brasileira de fora.

Ao analisar as operações do doleiro, haviam descoberto que Assad tinha conta no Bradesco nas Bahamas para lavar dinheiro “a rodo”. E que, em 2011, o Compliance Officer, setor responsável por fazer o banco cumprir normas legais, teria alertado o Bradesco de que havia algo errado com essa conta. “E o que o Bradesco fez?”, perguntou Pozzobon. “Nada”, ele mesmo responde, de acordo com a reportagem.

Deixaram de ser investigadas a omissão dos bancos a respeito de movimentações suspeitas e o uso de informações privilegiadas do Banco Central. E a parte da delação premiada negociada entre a força-tarefa e o ex-ministro Antonio Palocci que dizia respeita à falcatrua dos bancos foi deixada de fora do acordo – “ainda que o ex-ministro tivesse afirmado que houve prática de crimes de grandes instituições financeiras”, prossegue a reportagem. “O banco Safra aparece 71 vezes ao longo das 87 páginas de proposta de delação premiada do ex-ministro entregue à força-tarefa e obtida pelo El País. O banco Bradesco, outras 32.”

 

Mais grave ainda, os procuradores já tinham conhecimento do envolvimento lucrativo dos bancos em corrupção mesmo antes da delação de Palocci. E já haviam optado pelo “desinteresse” nos casos. Escolheram como estratégia fazer acordos com os banqueiros, e não investigar a fundo seu modus operandi, ao contrário do que fizeram com as empreiteiras. Para as grandes construtoras, o objetivo era ir fundo para responsabilizá-las. Para os bancos, o objetivo foi negociar acordos “a título de indenização por lavagem de dinheiro e falhas de compliance”.

Recibo de palestra do procurador Deltan Dallagnol à Febraban (Federação Brasileira dos Bancos)

 

Essa opção, segundo conversa entre os procuradores, levava em conta o chamado “risco sistêmico”. Ou seja, a Lava Jato tinha consciência da paralisia que provocaria nos negócios do setor de óleo e gás – afetando toda uma economia e empregos decorrentes de uma gigantesca cadeia produtiva liderada pela Petrobras. Sabia que o setor de infra-estrutura capitaneado pelas grandes empreiteiras abalaria igualmente a atividade econômica brasileira. Mas teve receio seletivo em relação à “segurança” do sistema bancário.

 

As receitas das empreiteiras envolvidas na Lava Jato caíram 85% desde 2015. Já os lucros do sistema bancário não param de bater recordes, com crise ou sem crise, com PIB em alta ou com a economia despencando.

Fica escancarada mais uma faceta da seletividade que define o caráter de toda a Operação Lava Jato. A escolha dos delatores foi determinada de acordo com a conveniência. Alguns trechos das delações interessavam, outros não. Outros, ainda, tinham de ser alterados ou adequados ou inventados para satisfazer a incriminação dos “réus” que a força-tarefa pretendia condenar e encarcerar. Para contribuir com essas condenações, vazamentos seletivos de informações sigilosas eram distribuídos para a imprensa corporativa, como o Jornal Nacional.

Aliás, a seletividade de caráter leva também personagens como Sergio Moro e Deltan Dallagnol a crer que os seus vazamentos são mais legítimos do que os outros. Como seletiva também é a Globo, que adorava receber ou repercutir os vazamentos seletivos da Lava Jato. Mas tenta ainda hoje omitir, desqualificar ou criminalizar as revelações da Vaza Jato.

 

GGN:  O que disse Palocci

O Jornal GGN selecionou os principais pontos da delação que Antônio Palocci apresentou ao MPF em Curitiba uma “narrativa complexa sobre sua relação com poderosos, como Joseph Safra (Banco Safra), Pedro Moreira Salles (na época, do Unibanco), Lázaro Brandão e Luiz Carlos Trabuco (Bradesco), dentre outros.”

SAFRA

Sobre o banco Safra, delator afirma que recebeu convite para ser conselheiro do banco na Suíça. e que Joseph Safra teria pedido sua ajuda para “recuperar prejuízo que teve com a crise dos derivativos cambiais envolvendo uma das empresas em que tinha participação societária, a Aracruz, em 2008”.

Em troca, o banco teria dado “carta branca” a Palocci para obter recursos junto ao banco – e o ex-ministro disse que isso estava estendido a Lula –  e fez doações eleitorais e pagamentos à empresa de consultoria Projeto, de Palocci. O Safra não quis se manifestar.

BRADESCO E HENRIQUE MEIRELLES

Ainda de acordo com Palocci, em 2009, quando ele era deputado federal, o então economista-chefe do Bradesco, Octavio de Barros, e Júlio Siqueira, vice-presidente executivo do banco, o procuraram para obter informações adiantadas do Banco Central sobre a mudança da taxa básica de juros, a Selic.

Palocci afirmou à Lava Jato que obteve essas informações com o então presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e repassava ao Bradesco. Os envolvidos negam as acusações.

UNIBANCO

Ainda como deputado, Palocci teria sentado em cima de um projeto de lei para não prejudicar a fusão dos bancos Unibanco e Itaú, em 2008, a pedido Pedro Moreira Salles, banqueiro do Unibanco. O PL 265/2007 transferiria do Banco Central para o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) a análise dos casos de fusão bancária, e isso poderia fazer com que a negociação do Unibanco fosse engavetada por violar o princípio da livre concorrência. Juntos, os dois bancos dominariam mais de 30% do mercado.

Em contrapartida, o novo banco Itaú Unibanco teria doado 4 milhões de reais para a campanha de Dilma Rousseff em 2010. O problema é que a instituição, naquela eleição, fez doações no mesmo volume para outros candidatos que lideravam as pesquisas eleitorais.

SANTANDER/BANESPA

Palocci também relatou que, em 2000, quando o Santander comprou o Banespa, ele, ainda prefeito de Ribeirão Preto (SP), foi procurado por Miguel Jorge, na época diretor de relações governamentais do Santander/Banespa, para que a prefeitura não migrasse para outras instituições. Palocci aceitou em troca de doações para o PT em 2002.

 

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Leia a reportagem completa do El País.