Ex-jogador, que agora é dirigente do Lyon, diz que há “milhares de George Floyds no Brasil, critica Neymar, diz que Moro elegeu Bolsonaro mas acredita que a “ficha” dos brasileiros está caindo.

Juninho Pernambucano, revelado pelo Sport Recife, craque do Vasco da Gama e da seleção brasileira vive na França, onde  trabalha como diretor esportivo do Lyon, time no qual se destacou como jogador, onde foi pentacampeão do Campeonato Francês (Ligue 1), algo que o rico Paris Sant’Germain (PSG) de Neymar & cia nunca conseguiu.

Entrevistado pelo jornal inglês The Guardian por  2 horas e meia, o ex-craque mostrou preocupação com a situação do Brasil. Ele criticou o governo Bolsonaro pelo descontrole na pandemia do coronavírus e mais: disse que sob Bolsonaro aumentaram as mortes de negros, índios e mulheres no Brasil.

“Há milhares de George Floyd’s no Brasil”, denunciou.

Juninho disse que a elite rica brasileira não se importa com os mais pobres, e culpa o ex-juiz Sergio Moro pela eleição de Bolsonaro.  Opina que com Moro e a Lava Jato houve  criminalização da política e do PT,  que  levarm ao golpe contra a ex-presidente Dilma Roussef e prisão de Lula.

Para o ex-jogador a chamada grande imprensa, twitter, facebook e whatssap devem fazer auto-crítica de seu papel nas eleições de 2018, quando não questionaram os molhões de fake nees disparados pela campanha de Bolsonaro.

Juninho também não poupa o “garoto” Neymar. Diz que o jogador do PSG só pensa em dinheiro:

“Olhe o Neymar. Ele se mudou para o PSG apenas por causa de dinheiro. O PSG deu tudo a ele, tudo o que ele queria e agora ele quer sair antes do fim do contrato. Mas agora é a hora de retribuir, de demonstrar gratidão. É uma troca, você vê. Neymar precisa dar tudo o que pode em campo, para mostrar total dedicação, responsabilidade e liderança. O problema é que as elites no Brasil tem uma cultura de ganância e sempre querer mais dinheiro. Foi isso que fomos ensinados e o que aprendemos. ” Neymar é o culpado aqui, ou a sociedade brasileira? “É simplesmente o que ele aprendeu. Preciso diferenciar Neymar como jogador e Neymar como pessoa. Como jogador, ele está entre os três primeiros do mundo, no mesmo nível de Cristiano Ronaldo e Leo Messi. Ele é rápido, forte, pode marcar e dar assistência como um verdadeiro camisa 10. Mas, como pessoa, acho que ele é culpado porque precisa se questionar e crescer. No momento, porém, ele está apenas fazendo o que a vida lhe ensinou a fazer, ” reflete.

Confira os principais trechos da entrevista:

“Temos um sistema educacional ruim no Brasil”, diz ele. “As pessoas ricas dizem que temos que investir em educação – mas como? Precisamos lutar contra a fome, como disse o [ex-presidente] Lula. Se você está com fome, não tem confiança. Imagine um pai ou mãe que não são capazes de fornecer três refeições por dia para seus filhos?, questiona

Juninho argumenta que “mas ainda mais importante que a educação é dignidade. A dignidade humana é um direito que todos nós precisamos ter. Desculpe, isso está me deixando muito emocionado … ”

 A dignidade tem sido escassa para a maioria dos brasileiros recentemente, e o tratamento do governo com a crise de coronavírus só piorou as coisas. “Sinto uma profunda tristeza”, diz Juninho, sua voz quebrando novamente. “Desespero”, desabafa..

“Estamos fazendo tudo errado; indo contra tudo o que o resto do mundo está fazendo. Eu sou brasileiro, sei que somos um país pobre e nosso pessoal precisa trabalhar, mas isso é uma questão de vida. Se tivéssemos um lockdown, poderíamos estar perto do fim disso, mas não … é desesperador ver nosso país agora. ”

“Não tenho mais em contato com 80 ou 90% dos meus familiares  e amigos por causa de divergências sobre Bolsonaro e sua política. No começo, por volta do segundo turno das eleições presidenciais de 2018, tentei conversar com as pessoas e mostrar-lhes vídeos e tudo sobre o que estava acontecendo”,.

“Bolsonaro é filho do WhatsApp e de notícias falsas. As pessoas que apoiavam Bolsonaro eram maioria e foi minha decisão me afastar delas. Eu sei que alguns deles estão se arrependendo de sua decisão agora. Eles achavam que Bolsonaro era a única opção.

O stabilishment (os mais ricos)  no Brasil não tem empatia e está nos ensinando a não tê-lo também. A elite não entende o tamanho das desigualdades financeiras no país e, se crescerem, haverá violência.

“Temos grandes jornalistas em nosso país, mas não um editor que publique e publique. Mais de 42 milhões de pessoas não votaram em 2018. Se a imprensa brasileira tivesse feito seu trabalho real, Bolsonaro nunca teria sido eleito. Jornalismo de verdade: escreva e conte a verdade a todos. ”

Quando você derruba Dilma de uma maneira tão desprezível, você quebra uma jovem democracia. A vitória de Bolsonaro é resultado de um juiz arrogante como [Sérgio] Moro no caso Lula, uma cultura de ódio contra o Partido dos Trabalhadores e notícias falsas ”.

 Como era possível uma criança de oito anos ser baleada pela polícia? Como é possível viver depois disso?

Existem milhares de George Floyds no Brasil e milhares de outros que sofreram em silêncio que não conhecemos“,

“É desumano dizer que não temos George Floyds no Brasil. Os tiroteios acontecem todos os dias. Os gays também são perseguidos e essa é uma das coisas que mais me irritam com as pessoas que apoiam Bolsonaro. No entanto, ninguém pode vencer o tempo. Algum dia todos descobrirão quem você realmente é.

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