Embaixada da Alemanha publica vídeo no Youtube para mostrar que Hitler perseguiu comunistas, socialistas e judeus, católicos e protestantes, no Brasil judeus e rabinos repudiam fala do presidente e museu do holocausto em Israel define nazistas como militantes de extrema-direita.

Após o presidente Jair Bolsonaro (PSL-RJ), declarar na última terça-feira que o Partido Nazista era de esquerda, judeus no Brasil e no mundo, além da própria embaixada alemã no Brasil vieram à público desmentir o mandatário brasileiro. “Não há dúvida, não é? Partido Nacional Socialista da Alemanha”, disse Bolsonaro, referindo-se ao nome do partido de Adolf Hitler. O presidente respondia a um jornalista que o questionou sobre a opinião do ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, que recentemente escreveu em seu blog que o nazismo foi de esquerda.

O presidente Bolsonaro durante sua estada em Israel também visitou o Museu do Holocausto.  Em seu site, a instituição traz um breve histórico sobre a ascensão do partido nazista na Alemanha entre guerras, onde observa que a ideologia do partido de Adolf Hitler era de extrema direita:

“Ao abordar a situação alemã após o Tratado de Versailles, que selou a paz entre as principais potências europeias após a Primeira Guerra, o museu explica que havia um clima de frustração que, “junto a intransigente resistência e alertas sobre a crescente ameaça do Comunismo, criou solo fértil para o crescimento de grupos radicais de direita na Alemanha, gerando entidades como o Partido Nazista”,informa.

Alemanha reage
Em setembro do ano passado, em entrevista ao jornal “O Globo”, o embaixador alemão no Brasil, Georg Witschel, afirmou ser “uma besteira completa” dizer que o nazismo foi um movimento político de esquerda. O diplomata afirmou que há amplo consenso entre historiadores alemães e mundiais de que Hitler liderava uma corrente política de extrema- direita.

Com a legenda “Os alemães não escondem o seu passado. Saiba como se ensina história na Alemanha”, o vídeo tem pouco mais de um minuto de duração. A ideia era ressaltar a importância de não se esquecer os crimes do nazismo entre 1933 e 1945, período em que o Holocausto levou à morte de cerca de 6 milhões de judeus e de 5 milhões de pessoas de outros grupos, como comunistas, socialistas, social-democratas, católicos, protestantes, testemunhas de Jeová, negros, homossexuais e ciganos.

Judeus repudiam declaração
Em entrevista ao jornal Estado de S. Paulo, o rabino da Congregação Israelita Paulista e representante da Confederação Israelita do Brasil para o diálogo inter-religioso, Michel Schlesinger, também contestou a declaração do mandatário.

Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, Schlesinger afirmou que o nazismo foi uma ação da extrema-direita europeia, embora seu oposto, a extrema-esquerda, também tenha gerado catástrofes.

“O Holocausto foi um produto do nazi-fascismo, movimentos da extrema-direita europeia. Dizer que a Shoá (Holocausto) foi criada pela esquerda é falsificar a história”, diz Schlesinger.

Na revista Carta Capital o coletivo Judeus pela Democracia classificou a fala do presidente Jair Bolsonaro sobre o nazismo como “mentirosa e perigosa”. Segundo o coletivo, a fala do presidente é “mais uma estratégia para polemizar e fazer a mídia despender energia com uma discussão que nada diz respeito ao trabalho que ele deveria fazer”. Eles apostam que a tentativa de Bolsonaro é demonizar a esquerda.

“É um tremendo desrespeito com os judeus mortos pelo nazismo o presidente fazer uma afirmação dessa. Não podemos mudar a história de acordo com a nossa própria ideologia”, disse Guilherme Cohen, um dos idealizadores do grupo.

Franceses criticam Bolsonaro
A declaração do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, de que o nazismo foi um regime de esquerda repercutiu na França, país que foi ocupado pelo exército nazista alemão de 1940 a 1944, durante a Segunda Guerra Mundial. Vários sites franceses de notícias reproduzem a constatação do “mito” realizada na terça-feira (2), após visitar o Museu do Holocausto (Yad Vashem), em Jerusalém.

Em entrevista à RFI (Rádio França Internacional), Jean Yves Camus, um dos maiores especialistas em extrema direita da França, disse que a declaração de Bolsonaro “é um insulto aos judeus que morreram no Holocausto”.

Cientista político e pesquisador associado do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (Iris) Camus, não há dúvidas que a constatação de Bolsonaro “é evidentemente falsa”. Segundo ele, as razões são simples:

“Nem Hitler, nem as pessoas que o seguiram jamais tiveram atividades políticas na esquerda”, diz o pesquisador francês.

Três dias após assumir o poder na Alemanha, em 1933, a primeira medida de Hitler tornar ilegal o Partido Comunista, banindo os comunistas do Parlamento Alemão e colocando a maioria deles em campos de concentração onde foram mortos, juntamente com socialistas, social-democratas e liberais.

À RFI, o cientista político explica que toda a história do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães – também conhecido como Partido Nazista – nasceu da extrema direita alemã após a Primeira Guerra Mundial. Segundo ele, alguns fatores contribuíram para a formação do movimento: “a necessidade de vingança após a derrota da Alemanha no conflito, a ascensão do nacionalismo, a vontade de extensão territorial da Alemanha e a noção de supremacia racial, que é absolutamente específica ao Partido Nazista e que não é compartilhada nem pelo Partido Comunista, nem pela social-democracia alemã”.

“O que diz o presidente Bolsonaro é completamente descabido porque no programa do Partido Nazista há a vontade de exterminação do povo judeu que é uma intenção consequente do racismo da legenda. Nunca encontramos esses elementos na social-democracia alemã ou no Partido Comunista alemão”, conclui.