Episódio aconteceu após o vice-governador Carlos Almeida Filho se recusar a responder perguntas dos jornalistas Rosiene Carvalho, Cynthia Blink, Adriano Santos e Jullie Pereira (Foto de SJPAM)

Por Izabel Santos   Amazônia RealManaus (AM)  – Há uma semana, Manaus foi palco de mais um episódio de agressão contra a liberdade de imprensa no Brasil. No dia 28 de outubro, o que era pra ser uma entrevista coletiva do vice-governador do Amazonas, Carlos Almeida Filho (PTB), foi transformada em pronunciamento e agressões da sargento da Polícia Militar Michele Welche Silva Lobo contra as jornalistas Rosiene Carvalho, especializada em política é repórter da rádio Band News e correspondente do UOL, Jullie Pereira, repórter e apresentadora do site Amazonas Atual, Cynthia Blink, repórter da Rádio Mix e portal do O Amazonês, e o fotojornalista Adriano Santos, do portal Manaós.

A imprensa local havia recebido um comunicado para a coletiva de Carlos Almeida Filho, cujo objetivo era esclarecer por que seu nome aparece no esquema de compra superfaturada de respiradores para tratamento de pacientes com Covid-10 nos hospitais do Amazonas. Em vez de uma entrevista, o vice apenas leu um pronunciamento por 15 minutos. Em imagens que circulam nas redes sociais, a jornalista Rosiene Carvalho aparece falando “quando um jornalista é impedido de perguntar, todos são agredidos”. Antes de sair, Almeida Filho parou diante dela e limitou-se a dizer “eu já respondi, Rosi”. Virou as costas e deixou a sala acompanhado por outras pessoas.

O que se seguiu foram agressões contra os profissionais de imprensa. Nos vídeos, é possível ver a sargento Michele Welche Silva Lobo, que faz a segurança de Carlos Almeida Filho, empurrando Rosiene e em atrito com as jornalistas Jullie Pereira e Cynthia Blink. O fotojornalista Adriano dos Santos, que filmava a situação, foi empurrado e impedido de filmar o rosto da policial militar.

“Claramente, ela (a sargento da PM) não estava preparada para exercer a segurança de uma autoridade pública. Você não vê alguém da Polícia Federal agredindo jornalistas”, disse Rosiene Carvalho à Amazônia Real. Jornalista há cerca de 15 anos, ela também mantém um blog com notícias sobre os bastidores da política local. Entre outros veículos pelos quais já passou, Rosiene foi repórter de política do jornal  Crítica.

“É intolerável tudo o que aconteceu. Desta vez foi em público, mas todos os dias acontece”, acrescentou. “Não podemos normalizar as agressões contra jornalistas, nem em Manaus e nem em lugar nenhum.”

Carlos Almeida Filho entrou na política após ganhar popularidade como defensor público do Estado do Amazonas e titular da 1ª Defensoria Pública Especializada em Atendimento de Interesses Coletivos. Ele atuava sobretudo em causas ligadas a direitos básicos e moradia.

Carlos Almeida Filho (de máscara preta) durante a coletiva
(Foto cedida: Adriano Santos/Portal Manaós)

Mas os jornalistas que ousaram questionar o vice-governador estavam atrás de outra história. Carlos Almeida Filho é apontado como articulador da compra superfaturada de respiradores para o tratamento da Covid-19. A operação Sangria, da Polícia Federal, aponta o governador Wilson Lima (PSC) como chefe dessa fraude na aquisição dos equipamentos, incluindo ainda a cúpula da secretaria de Saúde do Amazonas.

Rosiene elencou cinco perguntas que Almeida Filho deixou de responder e publicou em seu blog. Ao final, a jornalista deixou uma mensagem direta ao vice-governador. “Quando não quiser ser questionado, não chame a imprensa, vice-governador. Se esconda e fuja de eventos públicos para não ouvir perguntas e não repetir o vexame a que se submeteu”, afirmou. “Eu não tenho medo de perguntar e o senhor, no dia que quiser responder às perguntas, terá todo espaço e atenção do meu trabalho para dar os esclarecimentos que a população precisa e que sua história merecer.”

Perguntas sobre a operação incomodaram

Outra agredida, a jornalista Cynthia Blink revelou à reportagem da Amazônia Real que a sargento Michele já demonstrava comportamento agressivo durante a fala do vice-governador. Ela chegou até a ter a impressão de que a servidora do Estado protegia um cinegrafista de outro veículo para a captura de imagens.

“Só que, quando cheguei mais perto, e fiquei atrás, ela começou a me empurrar com o cotovelo. Eu achei que estava pisando em algum cabo e atrapalhando o trabalho do colega, então me desculpei. Ela começou a falar ‘não pode passar pra lá! não pode passar pra lá!’. Foi aí que eu entendi qual era o papel daquela mulher naquele lugar”, disse Cynthia, em declaração à Amazônia Real.

Para garantir que o ocorrido não caia no esquecimento, as três repórteres e o fotojornalista registraram, no último sábado (31), um Boletim de Ocorrência (BO) no 6º DIP. Cynthia, por sua vez, foi a única que fez exame de corpo de delito. No Instituto Médico Legal (IML) ela mostrou um ferimento na mão direita que se assemelha a uma queimadura, pois a pele foi arrancada. “Não é normal que você saia para trabalhar e volte machucada”, disse.

Policial (de azul) agride jornalistas (Foto: reprodução vídeo da rede social)

“Nós, jornalistas, podemos até ficar sem uma resposta, mas não temos o direito de não perguntar, pois devemos essa pergunta ao nosso leitor. Imagina uma pessoa que perdeu um familiar nessa pandemia por falta de um respirador? Essa pessoa merece saber o que aconteceu, como toda a sociedade e é por ela que eu pergunto”, declarou Blink.

Esta não foi a primeira vez que Cynthia sofreu um tipo de intimidação por parte de uma autoridade. Em julho de 2015, o delegado da Polícia Federal Leon Emerich arrancou o celular de sua mão, enquanto ela gravava o depoimento dele sobre a compra de votos envolvendo o ex-governador cassado do Amazonas, José Melo (PROS). Emerich alegou que a então repórter de política do jornal Diário do Amazonas não tinha autorização para fazer o registro dentro do Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM).

Recém-formada em jornalismo, Jullie Pereira saiu da coletiva sem marcas físicas, mas vai carregar na memória essa experiência de seus primeiros momentos como profissional da imprensa. Ela também se solidarizou com a colega veterana. “Falei para Rosiene que ela mostrou na prática que as perguntas devem ser feitas e que esse é o nosso trabalho”, afirmou. “Espero ter feito a minha parte, sentir que fiz o que eu podia e que não cruzei os braços”, refletiu a jornalista, que integrou o grupo que fez o Boletim de Ocorrência.

Jornalista sofre cerceamento

Rosiene Carvalho durante cobertura em ocupação (Foto: Arquivo pessoal)

Esta não foi a primeira vez que Rosiene Carvalho sofre pressão e cerceamento da liberdade de expressão e de imprensa de integrantes do governo Wilson Lima. Um dia antes das agressões, em outra coletiva de imprensa, assessores ordenaram que ela saísse do local, já que o governador Wilson Lima atenderia apenas a profissionais que estavam fazendo transmissões ao vivo. Perseverante, ela permaneceu e não só fez a pergunta que queria como o governador Wilson Lima respondeu.

Em janeiro de 2019, Rosiene foi desconvidada do programa Roda Viva na TV Cultura do Amazonas. O entrevistado seria o então secretário de Educação de Estado, Luiz Castro (Rede), envolvido em polêmicas dispensas de licitação para contratos de merenda e transporte escolar. “Eu não podia participar da entrevista porque o ‘pessoal do governo’ considera que sou uma jornalista ‘polêmica’ e podia ‘enrolar o secretário’”. Oito meses depois, Castro deixou a secretaria após denúncias do Ministério Público de Contas do Estado do Amazonas (MPC-AM) sobre possíveis irregularidades na sua gestão.

Logo após o episódio da agressão, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Amazonas emitiu nota condenando os atos de violência verbal e física contra os profissionais. “Não há como calar diante de um contexto que vem se tornando praxe entre autoridades públicas locais, como um reflexo do contexto nacional, de silenciar a imprensa ou responder somente a quem lhe convém, em um total desrespeito à democracia”, afirmou a nota. O sindicato vai formalizar denúncia ao Ministério Público Estadual e à Corregedoria da Polícia Militar para abertura de procedimento administrativo.

“O dever da imprensa é cobrar explicações diante de denúncias graves, especialmente durante a pandemia. Os relatos sugerem que as autoridades ainda não aprenderam a lidar com a obrigação de prestar contas à sociedade e precisam orientar suas equipes a respeitar a liberdade de imprensa”, declarou o presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Marcelo Träsel, por meio de nota.

Também em nota, o governo do Amazonas afirmou que determinou o afastamento da sargento da PM e que será aberto um procedimento administrativo. A nota ressaltou que o governo “preza pela liberdade de imprensa e a correta postura de seus servidores”.

Outras jornalistas do Amazonas enfrentaram ameaças e ataques este ano, entre elas, Dora Tupinambá, presidente do Sindicato dos Jornalistas, e  Édila Chaves, do Portal do Holanda, ofendida pelo site CM7. As repórteres Larissa Balieiro, da rádio Difusora; Thais Gama e Thassya Simões, ambas da rádio BandNews Difusora; Pietra Telles, do Portal Camisa Doze, e Natasha Pinto, da Rede Diário do Amazonas, foram ofendidas pela torcida de homens do time do São Raimundo, durante a cobertura do campeonato de futebol, no Dia Internacional da Mulher, em 8 de Março – justamente a data na qual as mulheres protestam contra a violência em vários países.

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 Izabel Santos

É graduaIzabelda em Jornalismo pela Faculdade Martha Falcão, de Manaus (AM). Tem mais de dez anos de atuação na cobertura de política e meio ambiente. Trabalhou no Jornal Amazonas Em Tempo; no Portal Amazônia, foi coordenadora de jornalismo na rádio CBN Amazônia e coordenadora de jornalismo no canal televisivo Amazon Sat. Foi indicada ao Prêmio Milton Cordeiro de Jornalismo em 2014, na categoria Internet, pela série de reportagens “Balbina, hidrelétrica da contradição”. Foi a jornalista responsável pelas ações de divulgação científica da segunda fase do INCT Adapta, projeto científico sediado no Inpa que investiga o impacto das mudanças climáticas nos organizamos aquáticos da Amazônia. ([email protected])