O jornalista Adecio Piran, de 56 anos, proprietário do jornal Folha do Progresso, que denunciou “O Dia de Fogo” protesto de pecuaristas do Sudoeste do Pará está ameaçado de morte e sofre campanha de difamação. Reportagem do jornal Folha de S.Paulo revela que Piran trabalha sob escolta policial.  O site Brasil de Fato, relata que grupos de Whastsapp de ruralistas fazem ataques à sua reputação com um panfleto apócrifo, que também foi distribuído em versão impressa à população de Novo Progresso, no sudoeste do Pará.

O jornalista registrou um Boletim de Ocorrência na Polícia Civil. O panfleto traz uma foto montada de Adecio, na qual ele aparece de chapéu, com o símbolo da cifra do dólar no óculos preto, uma imagem de incêndio ao fundo e a frase: “Mentiroso, Estelionatário e Trambiqueiro”.

Um dos trechos do panfleto acusa o jornalista de inventar a notícia do protesto “dia do fogo” para prejudicar o desenvolvimento de Novo Progresso, município que enfrenta alta das queimadas. “Não é de hoje que este senhor [Adecio] vem prejudicando nossa região com falsas notícias que é compartilhada por ONG´s e ativistas mundo afora fazendo com que nossa cidade seja vista como vilã em queimadas e desmatamento, o que é mentira”, diz o panfleto.

À agência Amazônia Real, o jornalista Adecio Piran revelou que sua situação de segurança estava difícil. Ele contou que nasceu em Novo Progresso e trabalha como jornalista há 20 anos, mesmo tempo que tem o veículo. “É ameaça geral aqui. São [as ameaças] de pessoas que não aceitam a verdade e que, de uma forma ou outra, atacam para se esconder dos atos praticados”, disse ele sobre os panfletos distribuídos em Novo Progresso.

Adecio Piran afirmou que os anunciantes do jornal também estão sendo ameaçados e coagidos. “Eles [os produtores rurais] estão fazendo uma corrente para retirar os patrocinadores do jornal. Nossa situação está muito complicada”, e por isso o jornalista registrou um Boletim de Ocorrência (BO) na Unidade Polícia Civil da cidade.

A reportagem teve acesso ao BO. No documento, o jornalista disse que é alvo de difamação, calúnia e ameaça por parte de grupos denominados de “Direita Unida Renovada” e “Caneta Desesquerdizadora”, ativos na rede social WhatsApp. Também responsabilizou Donizete Severino Duarte, que seria administrador do “Direita Unida Renovada”, em Novo Progresso, como um dos autores das ameaças.

A reportagem não localizou Duarte para falar sobre a denúncia. Já o presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Novo Progresso, Agamenon Menezes afirmou que o jornalista mente e também registrou um BO contra Adecio Piran por calúnia e difamação.

Em outro trecho do panfleto apócrifo, Piran é acusado de estelionato. “O que estamos sabendo é que esse cidadão é um estelionatário que extorque dinheiro de empresários e políticos há anos, antes de publicar suas matérias mentirosas, um fracassado que vive de maracutaias.”

O jornalista rebateu a denúncia, dizendo que seu veículo, que tem uma página na internet, sobrevive de pequenos anúncios e não recebe recursos públicos. Segundo ele, o jornal ganhou credibilidade ao longo dos anos, denunciando crimes ambientais.

“A imprensa na cidade não publica [as notícias dos crimes] com medo de represálias que ocorrem, principalmente sobre as causas ambientais”, afirmou Piran.

Sobre a acusação do presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Novo Progresso, Agamenon Menezes, da qual o “dia do fogo” foi uma mentira inventada pelo jornal Folha do Progresso, o jornalista Adecio Piran indagou:

“O Exército não está aqui apagando fogo? Eles [ruralistas] precisam entender que a Amazônia não é minha, é do planeta”.

A reportagem da Amazônia Real procurou instituições como o Ministério Público Federal do Pará, Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e o Artigo 19 da Constituição, que defendem a liberdade de expressão e liberdade de imprensa. No que diz respeito às instituições, elas informaram que estão acompanhando a situação do jornalista em Novo Progresso, mas ainda não se pronunciaram.

Coragem

Segundo matéria da Folha, assinada por  João Valadares,  o jornalista Adécio Piran, 56,  nasceu em Medianeira, o Paraná e se mudou há 30 anos para Novo Progresso, no Pará. O pai havia sido despejado de sua terra e conseguiu um lote do INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) no Pará, próximo à divisa com o Mato Grosso. De acordo com a reportagem, Novo Progresso tem um histórico de conflitos entre índios, garimpeiros e grileiros.

Pirán atua há 22 anos como jornalista, desde que abriu o próprio jornal, o Folha de Novo Progresso, que possui página atualizada diariamente na internet. Em 2014, Adécio Piran se envolveu em uma conflusão ao filmar ação truculenta da PM na abordagem de torcedores que estavam voltando de um evento esportivo. “Tive a câmara confiscada”, relata.

Adécio Piran conta que fez a matéria “para anunciar o que iria ocorrer (Dia do Fogo). Esta área aqui é recordista em focos de incêndio. Essa divulgação ganhou proporções nacionais e internacionais”, diz.

Ele conta que começou a sofrer ameaças após publicar as informações do Dia do Fogo, quando Novo Progresso registrou aumento de 300% no número de incêndios. Ele diz que não sai de casa a noite.

“Tenho medo sim, de morrer. As pessoas não são fáceis. A região é de muito problema”, resume.

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