Deputado goiano tem apoio da maioria do partido de Bolsonaro, enquanto presidente da Câmara fecha com centrão e sinaliza para MDB, PSDB, oposição e independentes

 

 

A disputa pela presidência da Câmara Federal promete lances de muita perspicácia política. O deputado federal João Campos (PRB) tem a simpatia velada do clã Bolsonaro e do PSL, partido do futuro presidente, o aval da Bancada da Bíblia, mas a soma dos partidos que o apoiam ainda não garante uma maioria folgada para dizer que fechou a fatura. Do outro lado um adversário forte, o atual presidente Rodrigo Maia (DEM) que é candidato à reeleição. Maia tem o respaldo do centrão, bloco formado por DEM, PP, PR, PTB e PSD que deu sustentação ao governo do presidente Michel Temer (MDB-SP), e sinaliza com abertura de diálogo com o bloco de esquerda (formado por PDT, PSB e PC do B) e o próprio PT.

É briga de foice no escuro o que vem por aí.

João Natal se lança na disputa escudado pelo lobby evangélico, que tem como  ponta de lança é igreja Universal cujo partido é o PRB ao qual está filiado. A chamada Bancada da Bíblia, juntamente com as bancadas do Boi (ruralistas) e da Bala (segurança) tem por volta de 172 deputados, eleitos nos mais diversos partidos com assento no Parlamento, do PSL do presidente eleito Jair Bolsonaro, passando pelo PSDB, MDB, PSD,DEM e até mesmo partidos de centro-esquerda como o PT e o PSB.  Considerando o histórico das eleições na Câmara Federal, o jogo não se dá nas bancadas temáticas, e sim, nas lideranças partidárias, porque são os partidos e não os líderes de bancadas temáticas que indicam membros para as comissões temáticas da casa, como a poderosa CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) a outras não menos importantes como as comissões de Finanças, de Saúde, de Educação, de Direitos Humanos, de Agricultura etc. O presidente Rodrigo Maia sabe disso e trabalha com esta hipótese para reverter o favoritismo de João Campos.

Governo

Considerando as bancadas, João Campos tem o apoio do seu partido, PRB, que elegeu 30 deputados, o PR, com 33, também fechou apoio ao presidente Bolsonaro e se junta ao PSL e ao PRB, formando um bloco que agrega 115 deputados federais. A futura base governista também deve contar com o apoio dos bloco dos pequenos  partidos, que juntos somam 36 parlamentares através da soma de PSC (8), Avante (7), PHS (6), Patriotas (5), PRP (4), PMN (3), PTC (2) e DC (1). Desta maneira, o governo Bolsonaro conta com 151 votos na Câmara Federal, e por consequência, são com estes 151 votos que João Campos inicia sua campanha.

 

Centrão

Rodrigo Maia fechou o DEM (29) e fez acerto com o antigo centrão, formado por PP (37), PSD (34), PTB (10), que juntos têm 110 votos. Maia trabalha para ter o apoio total do MDB (34) e PSDB (29), o que levaria sua candidatura à marca de 173 votos.  Não há certeza absoluta de que ele irá contar com todos os votos destes partidos, mas a aposta é no mínimo levar a maioria, e equilibrar o jogo com o candidato do Palácio do Planalto.

 

Oposição

Os partidos de esquerda e centro-esquerda tem juntos 137 votos, considerando que o PT elegeu 56 deputados, o PDT, 28; PSB, 32; PSOL, 10; PC do B, 9; Rede 1 e PPL, 1. Não há possibilidade deste bloco apoiar a candidatura de João Campos e a tendência  e que, em havendo  segundo turno na disputa pela Mesa Diretora da Câmara entre João Campos e Rodrigo Maia, que estes partidos, que fazem oposição ao governo de Jair Bolsonaro, optem pela candidatura de Maia, o que virtualmente poderia lhe garantir 310 votos.

 

Independentes

Mas há outro grupo de partidos que oscila entre a independência e o apoio crítico ao governo de Bolsonaro, juntos PV (4), PPS (8), PROS (8), Novo (8), Podemos (11) e Solidariedade (13) tem 52 votos. Ainda não está claro para que lado irão os votos deste conjunto, a tendência é que eles se dividam entre as duas candidaturas, ou que migrem para uma terceira força, que poderá surgir até o dia das eleições, que acontece após a posse dos deputados federais, no dia 1 de fevereiro de 2019.

 

Confiança

João Campos está confiante. Em entrevista neste final de semana à Rádio 730 AM ele afirmou que “Goiás tem chances de ter pela primeira vez o presidente da Câmara”.  Campos  acredita que há convergência entre as pautas que defende no Congresso  Nacional e as que foram defendidas pelo presidente eleito Jair  Bolsonaro, entre elas, projetos como Escola sem Partido, criminalização do aborto, redução da maioridade penal, Reforma da Previdência, Reforma Trabalhista, Ensino Religioso nas Escolas, definição de família cristã, etc.

 

Estado Laico

Se há convergência de ideologia entre os que apoiam Bolsonaro, é preciso dizer que não há uniformidade de pensamento nos partidos de direita e nem mesmo nas bancadas temáticas. Historicamente partidos de centro-direita como o PSDB, MDB dão muito valor às liberdades individuais. Siglas recém criadas como o Novo e Podemos também propugnam pelo livre arbítrio em temas econômicos, sociais e se afastam da pauta religiosa. O fato é que por mais que a bancada religiosa tenha crescido, ela ainda não é maioria, e as suas teses não tem o condão de unificar o pensamento na Câmara Federal. Se quiser garantir sua eleição à presidência do Parlamento, João Campos tem que apostar mais no Estado Laico e na conversa com forças difusas no Parlamento.

Muitos deputados foram eleitos por lobbies ligados ao sistema financeiro, empreiteiras, agronegócio e indústrias, e ficam assustados quando o presidente eleito promete brigar com o mundo árabe que importa US$ 17 bilhões/ano do Brasil para ficar ao lado de Israel que importa meros US$ 500 milhões. A China, que tem quase 2 bilhões de habitantes está se lixando para as questões religiosas do Brasil, mas é o nosso principal parceiro comercial, destino de 34% das exportações brasileiras. Brigar com a China que compra mais de um terço de nossos produtos, para ficar ao lado dos Estados Unidos, que compra 14% é dar um tiro no pé. Até porque, aquilo que o Brasil  mais exporta – soja, suco de laranja e carnes -,é também um dos setores mais fortes da economia norte-americana.  É nesta compreensão do Brasil como sétima ou oitava economia mundial que pode garantir a eleição do próximo presidente da Câmara dos Deputados.

 

Partidos com representação na Câmara Federal  a partir de 2019

PT           69           61           56

PSL         1             8             52

PP          38           50           37

*MDB   65           51           34

PSD        36           37           34

PR          34           40           33

PSB        34           26           32

PRB        21           21           30

DEM      21           43           29

PSDB     54           49           29

PDT        20           19           28

SD          15           10           13

*PODE  4             17           11

PSOL     5             6             10

PTB        25           16           10

PCdoB  10           10           9

NOVO   –              –              8

PPS        10           8             8

PROS     11           11           8

PSC        13           9             8

*AVANTE 1        5             7

PHS        5             4             6

*PATRI    2             5             5

PRP        3             –              4

PV          8             4             4

PMN     3             –              3

PTC        2             –              2

*DC       2             –              1

PPL        –              1             1

REDE     –              2             1

PRTB     1             –              –

TOTAL   –              513         513

(*) MDB (ex-PMDB), Podemos (ex-PTN), Patriotas (ex-PEN), Avante (ex-PT do B), DC (ex-PSDC)

(**) Em 3/9/18