Recebido sob aplausos, escritor, jornalista e ex-deputado federal diz que a filiação é ‘reencontro comigo mesmo’ e antecipa foco em crescimento sustentável, cidadania plena e combate à desinformação.

Da RBA

O ex-deputado federal Jean Wyllys celebrou a filiação ao Partido dos Trabalhadores (PT) na noite desta segunda-feira (24) em uma live com a presença dos ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff, do ex-ministro da Educação Fernando Haddad, da prefeita de Barcelona, Ada Colau, dentre outros convidados ilustres. Em sua fala, o mais novo petista afirmou que a filiação é um “reencontro comigo mesmo”, uma “estratégia contra o fascismo” e uma forma de comprometer a nova casa com agendas do século 21, “das quais não podemos abrir mão”.

Jean adiantou suas agendas. A primeira, de “crescimento econômico que leve em conta a sustentabilidade dos recursos naturais e a reversão das mudanças climáticas, preservando a biodiversidade e as comunidades indígenas”. A segunda é a da promoção da equidade de gênero e cidadania plena para a comunidade LGBTQ+ e as mulheres em geral, “mas em particular as negras e pobres, o que significa enfrentar o racismo estrutural no Brasil”. A terceira é o combate à desinformação e às fake news.

“Seja muito bem-vindo, Jean”

Antes de falar, porém, ele recebeu as boas vindas da presidenta do PT, a deputada federal pelo Paraná Gleisi Hoffmann. “Hoje é um momento histórico, a filiação de Jean Wyllys. É uma alegria imensa recebê-lo. Seja muito bem-vindo, Jean”, disse, abrindo a live. “É uma alegria para todos nós do Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras tê-lo entre a gente.”

Gleisi destacou que a chegada do ex-deputado vem em um momento importante por ser um “símbolo de resistência e coragem diante do preconceito e da violência que sofre cotidianamente. Nunca se rendeu, nunca baixou a cabeça, nunca fugiu do debate”, disse a parlamentar, acrescentando que ele Jean do exílio “uma contundente denúncia das práticas fascistas daqueles que querem impor um projeto excludente”. Ainda durante a live, a presidenta da sigla saudou os integrantes do Psol, ao qual chamou de partido irmão.

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Lula agradeceu a solidariedade de Jean Wyllys (Reprodução)

17 de abril de 2016

Dilma Rousseff antecedeu a fala de Lula, que encerrou o evento de filiação de Jean Wyllys ao PT (leia ao fim desta matéria). Ela destacou a atuação do então psolista na sessão da Câmara dos Deputados que autorizou a abertura de impeachment contra seu mandato presidencial. “Esse é o momento de muita felicidade para mim e tenho certeza para todos os militantes do PT. Eu tenho mais do que admiração e respeito. Eu reconheço no Jean Wyllys um grande lutador, uma pessoa que teve o discernimento e enxergou a profundeza do que estava acontecendo no dia 17 de abril de 2016. Quando um deputado federal, que deveria ter compromisso com a democracia, foi capaz de saudar um representante da ditadura militar responsável por assassinatos políticos. E o tamanho da indignação do Jean Wyllys mostrou ao país aquilo que o mundo inteiro percebeu: estava sendo enterrada, junto com aquela autorização para abrir o processo de impeachment, a democracia no Brasil.”

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Dilma e Gleisi recebendo o novo integrante do PT (Reprodução)

Política com pê maiúsculo

Outro grande nome da sigla, o ex-ministro Fernando Haddad, foi o primeiro integrante do partido a saudar o novo filiado, logo após a fala de Gleisi Hoffmann. O ex-prefeito de São Paulo abriu expondo o motivo de admirar Jean Wyllys. “Política para você é muito parecido com o que é política para nós do PT. Transcende o cálculo eleitoral, é uma coisa de alma, uma entrega, uma doação à sociedade que a gente acredita. Aos valores, princípios. É lutar destemidamente pela construção de um mundo melhor, que tenha espaço para cada um de nós na sua individualidade, personalidade.”

“E você nos faz lembrar dessa política com pê maiúsculo, que dialoga com o futuro da humanidade”, acrescentou. “Você é destemido, um companheiro que nasceu para lutar e vencer. Está vindo para uma fileira que te respeita e te acolhe com muito entusisasmo e nos encheu de emoção o anúncio de sua vinda”, finalizou.

Convidados ilustres

Entre Haddad e os dois ex-presidentes, três convidados de Jean Wyllys fizeram breves participações. Ada Calau, prefeita de Barcelona, classificou Jean Wyllys como um embaixador internacional da esperança, do partido da vida, democracia e direitos humanos: “considero a filiação maravilhosa e me emociona muito”.

Anielle Franco, irmã de Marielle Franco e diretora executiva do Instituto Marielle Franco, classificou o dia como simbólico para a democracia e defesa da vida, lembrando da “violência política que tirou a vida da minha irmã em março de 2018” e que forçou Jean Wyllys a deixar o país, “impedido de exercer o direito político conquistado nas urnas”.

James Green, da Rede Americana de Intelectuais em Defesa da Democracia no Brasil, reforçou a importância de Jean Wyllys para a comunidade LGBT brasileira. Lembrou de uma passagem da luta em que esteve presente, na greve geral de 1980. “Desde então o movimento LGBT brasileiro cresceu tanto que eu, em 1980, jamais poderia ter imaginado.”

Avanço democrático

Jean Wyllys também falou. Se disse nervoso, tanto que preferiu ler um discurso que já havia escrito. Começou destacando a transformação do país para melhor entre 1988 – ano da promulgação da chamada Constituição Cidadã e em que começou a militar no movimento pastoral da Igreja Católica, “ainda vivendo na extrema pobreza que nasci e me criei” –, e 2014, “ano da minha primeira reeleição (como deputado federal pelo Rio de Janeiro)”. “Essa melhora foi fruto das instituições democráticas. Dos sindicatos à imprensa livre, passando pelos partidos políticos e pelos movimentos sociais e organismos não governamentais, incluindo aí os artistas”.

“É inegável que essa melhora deu um salto qualitativo e quantitativo nos dois governos do presidente Lula e no primeiro governo da presidenta Dilma Rousseff.” Ele citou alguns dos avanços daquele período, como a erradicação da fome, o pleno emprego, a liberdade de imprensa – “mesmo às vezes com desonestidade intelectual” –, a existência de oposições de esquerda e de direita e o respeito às minorias. Destacou também, no período, a chegada do primeiro negro ao Supremo Tribunal Federal (STF), o ex-ministro Joaquim Barbosa, indicado por Lula. E ainda da eleição da primeira mulher à presidência da República, Dilma Rousseff, e do “primeiro gay assumido ligado ao movimento LGBT e vindo da classe trabalhadora, esse que vos fala agora”.

Retrocesso golpista

Porém, continuou, dois anos depois a história mudou e tomou rumos sombrios. “Em 2016, diante de uma crise econômica mundial, integrantes da coalizão construída pelo PT decidem trair o partido e se aliar com os partidos de direita para tomar, em um golpe parlamentar, o segundo mandato que o povo democraticamente deu a Dilma Rousseff”, disse. Acrescentou que o processo abriu espaço para a extrema direita, “para os fascistas e sua atuação suja e violenta. A partir daí, a democracia, que era ainda uma construção, passou a ser arruinada”, continuou, destacando que foi esse movimento que causou a morte de Marielle Franco, em 2018.

Jean também lembrou do dia em que abriu-se o processo de impeachment contra Dilma. “Aviltado por insultos homofóbicos e pelo elogio feito por Bolsonaro ao torturador da presidenta Dilma Rousseff, eu cuspi na cara do fascista que se tornaria presidente da República”, lembrou. Destacou finalmente que sua atitude era um compromisso incondicional com a democracia, a justiça, a verdade histórica e as liberdades civis. No encerramento, despediu-se do antigo partido. “Estou certo de que o Psol deve ter muito orgulho do que deixei para o partido. Eu tenho muito orgulho disso. E tenho excelentes amigos no Psol e seguirei amigo de todos eles e todas elas.”

Enfim, Lula

Lula foi o último a falar, fechando o evento com chave de ouro em um discurso emocionante. O ex-presidente, de óculos, destacou logo de cara que o momento era tão importante que ele iria ler a fala em vez do costumeiro improviso: “uma liturgia de momentos importantes”. A seguir, classificou a chegada do novo filiado como um “momento auspicioso” para a história de 40 anos do partido. “Por isso, é com grande orgulho e alegria que recebemos hoje a sua filiação no partido que ousamos fundar em plena ditadura dos anos 80. O partido dos trabalhadores e das trabalhadoras, dos intelectuais, do povo negro, índio, LGBT, artistas, mulheres, sem-terra, sem-teto, dos oprimidos e dos sonhadores. Afinal, o partido do povo brasileiro.”

40 anos depois

O presidente de honra do PT comparou a chegada do novo integrante com a fundação da sigla. “Era preciso derrotar a ditadura militar e remover todo o entulho autoritário que os anos de chumbo e de sangue acumularam sobre esse país. Era preciso reconstruir o Brasil”, relembrou.

Dirigindo-se a Jean, continuou. “Quatro décadas depois, sua chegada ao Partido dos Trabalhadores coincide com outra luta histórica. Agora é urgente, imprescindível, derrotar o fascismo. Agora é preciso reconstruir e transformar o Brasil. Varrer para o lixo da história esses que não se incomodam sequer diante da morte de 450 mil brasileiros. Que deixam o país sufocar por falta de oxigênio. Que veem com indiferença pessoas morrendo nas filas de UTIs porque eles se recusaram a comprar vacinas. É um alento poder contar com sua força nessa difícil tarefa de remover camadas e mais camadas de ódio, arrancar com as próprias mãos, até sangrar os dedos se preciso for, para debaixo deles nós reencontrarmos o amor e o respeito pela vida que durante muito tempo foram marca desse país.”

Solidariedade e Coragem

Após dizer ser difícil falar de todas as qualidades do novo integrante do partido, destacou duas. “A primeira, solidariedade. Você esteve cada dia ao meu lado na minha prisão injusta”. A outra é a coragem. “Já faz parte da história da luta democrática o seu voto na trágica sessão da Câmara dos Deputados, que selou o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff. Você teve coragem de chamar pelo nome aquele show de horrores que se desenrolava. O impeachment era uma farsa. E você soube e ousou dizer em alto e bom som. Ousou ainda mais. Diante daqueles que o constrangiam, que tentavam intimidá-lo, disse com todas as letras o que eles de fato eram. Torturadores, covardes, analfabetos políticos, canalhas. Enfrentou o fascismo de peito aberto”.

Sobre o exílio, Lula disse que Jean “preferiu ficar vivo, ainda que tivesse que sair do nosso país, que ama de paixão. Mas você nunca nos deixou de verdade. Jamais se afastou um milímetro da defesa para os direitos humanos”, continuou o ex-presidente, para um já emocionado novo companheiro. “Esteve sempre na trincheira daqueles que lutam por um mundo e um país mais justo. Amanhã, quando com sua ajuda todo esse pesadelo chegar ao fim, nós teremos a felicidade de recebê-lo de volta ao Brasil. Querido Jean Wyllys, bem-vindo ao PT, bem-vindo à nossa causa, que já é a sua causa”. Após a fala de Lula, já com as lágrimas tomando seu rosto, Jean respondeu: “Obrigado, meu amigo. Tu vens e eu já escuto os teus sinais”, lembrando letra de canção de Alceu Valença.