Em artigo na Folha, o experiente articulista diz que os bolsonaristas do poder econômico começam a se assustar.

O governo Bolsonaro, e outras estruturas de poder que lhe dão algum apoio, segue para a derrocada. O silêncio do eixo olavista dentro do governo, por toda a última semana, representa a primeira dissensão verdadeira “entre os generais reformados do governo e Bolsonaro”. Estas são avaliações de Janio de Freitas na coluna deste domingo (02), na Folha de S.Paulo.

Até antes da semana passada, a tolerância do presidente Bolsonaro em relação aos insultos de Olavo de Carvalho feitos contra os generais Villas Bôas, Santos Cruz, Hamilton Mourão e mesmo aos militares em geral era explícita. Nos últimos sete dias, porém, finalmente houve um silêncio por parte da trupe olavista, incluindo do próprio presidente.

Veja os principais pontos da análise de Jânio de Freitas para a Folha hoje:

A aquietação silenciosa em que a trupe mergulhou, por toda a semana, obedeceu à reação, demorada mas enérgica, dos ministros militares à tolerância explícita de Jair Bolsonaro aos insultos de Olavo de Carvalho ao general Villas Bôas.

O “basta”, calado diante de ataques a outros generais, como Santos Cruz, e mesmo aos militares em geral, representa a primeira dissensão verdadeira, apesar das várias noticiadas, entre os generais reformados do governo e Bolsonaro.

O ataque ao ex-comandante do Exército foi agravado por dirigir-se também ao estado físico do general, condicionado à cadeira de rodas e ao auxílio respiratório. Pior do que indiferente, a atitude de Bolsonaro desconsiderou a contribuição de Villas Bôas à sua eleição, como patrocinador da candidatura nas Forças Armadas e entre os conservadores civis.

Não podendo ser um dos limitados à comunicação privada, Bolsonaro refluiu as suas provocações e a falta de senso, também como efeito das cobranças e conversas afinal mais responsáveis no Planalto.

Passou a semana buscando eventos em que se mostrasse simpático, quis entrevistas, culminando com o espetáculo do enlace a que atraiu dois incautos. Dias Toffoli e Rodrigo Maia capitularam a papéis deploráveis.

O primeiro não tem como comprometer por sua conta, em pactos ou no que seja, os demais magistrados do Supremo Tribunal Federal. Até os desvalorizou no tal pacto político com Bolsonaro em nome do tribunal. O outro, sonhando sempre com a Presidência, pensou subjugar às pretensões do Executivo a independência do Legislativo ditada pela Constituição. Ambos demonstraram mais presunção pessoal do que noção dos limites de suas funções.

O silêncio da trupe e a contenção de Bolsonaro falsificaram a índole do governo. Só Abraham Weintraub, da Educação (sic), com seu desempenho tanto pior que o de Ricardo Vélez quanto, por isso, melhor para o saldo de democracia ainda existente.

A construção ou, no nosso caso, a salvação do regime medianamente democrático precisa de quem o defenda. À falta de oposição organizada e incisiva, estudantes coadjuvados por professores entregam-se com altivez a esse papel. Weintraub é quem os incita.

Flagrante significativo: os meios de comunicação clamam sem cessar por melhor sistema de ensino, sua única ou maior bandeira de benefício com amplitude absoluta —e recorrem a métodos conhecidos para depreciar as manifestações contra o corte de 30% dos recursos do ensino superior público. É o famoso tiro no pé. Há informações sobre esforços de organização para manifestações várias, já em junho, de outros segmentos prejudicados.

É o esperável de um país que degringola. Ao se completar apenas o quinto mês de governo, os 3% de crescimento neste ano, previstos antes da posse pelo novo ministro da Economia, já estão reduzidos à faixa do zero vírgula. Afinal divulgados, os resultados econômicos do primeiro trimestre foram desastrosos. Os do atual não prometem coisa melhor.

A figuração das mudanças na Previdência como chave para uma grande virada é engodo. E seus propagadores sabem que aí não há milagre algum.

Estamos vivendo dentro de uma grande mentira. Não há sinal de que os militares do governo se inquietem além das bagunças da trupe bolsonara.

Mas os bolsonaristas do poder econômico (sim, é redundância) começam a assustar-se, ainda mais com as perspectivas do que com a má atualidade. Por ora, pacificam-se na sua catedral, a Bolsa. Não falta muito, porém, para que se sintam premidos a liberar as palavras ainda retidas em ambientes restritos, como fizeram em ocasiões passadas. Sem que isso permita, necessariamente, vislumbrar uma saída saudável de dentro da grande mentira.