Tática é tirar o foco das investigações do miliciano suspeito de matar a vereadora Marielle Franco.

Decano do jornalismo  comenta, em sua coluna deste domingo 1º/III na Folha de S.Paulo, os efeitos do caos político instalado por Jair Bolsonaro ao compartilhar, via WhatsApp, vídeos de convocação para protestos de inspiração ditatorial.

 

“Ao instalar o estado típico de pré-golpe, Bolsonaro viu sair de cena o caso do miliciano Adriano da Nóbrega. Uma vitória. Parcial, mas vitória.

A possível investigação e a apreensão dos 13 celulares do fugitivo levaram Bolsonaro a mostrar-se, mais do que apreensivo, temeroso mesmo. O miliciano, é claro, não foi por ele defendido e homenageado na Câmara senão por conveniências especiais para fazê-lo”, escreveu Janio no seu artigo “O msu cheiro do golpismo”.

“Vinda a repercussão, Bolsonaro faz o que sabe: ataca a imprensa, acusando-a de difundir como atual uma mensagem sua de 2015. Mas o vídeo inclui citação à facada que levou em 2018. Faz assim como a afirmação de que Flávio Bolsonaro condecorou um Adriano da Nóbrega isento de qualquer condenação —mas Flávio precisou ir ao presídio para entregar-lhe a medalha. Desmentidos de Bolsonaro não são verdades, são palhaçadas morais”, prossegue Janio.

Ele fez questão, também, de atentar para a fraca reação das chamadas “instituições”:

“Quem quiser que duvide, mas o chamado ao povo contra o Congresso e o Supremo tem o odor palaciano. Foi talvez precipitado pelos riscos implícitos no assassinato emudecedor do miliciano e também ex-capitão Adriano da Nóbrega. Se não houve precipitação intencional, o efeito colateral prestou o mesmo serviço. Sem diminuir o efeito principal, de evidenciar o avanço para a situação típica do golpismo —e a reação tímida ou intimidada das instituições que podem e devem reagir mais do que à altura”, escreve.