Esta não é a primeira vez que Iris Rezende anuncia que se aposenta das lides políticas.

Marcus Vinícius de Faria Felipe

As mãos trêmulas, a voz embargada, gagejada. Iris Rezende Machado estava emocionado quando leu o seu discurso de despedida da vida pública. Ele iniciou com um longo balanço de sua carreira política, e dos motivos que o levaram a concorrer em 2016 pelo quarto mandato no Paço Municipal. Durante todo este período está tenso. Só ficou mais natural quando proferiu a frase:” Cumpre informar que encerro neste momento a minha carreira política, construída ao longo de mais de seis décadas”.

Parece que ao anunciar o término de sua jornada política, Iris ficou mais leve. Alí ele abriu mão do que mais gosta: fazer política. Todo o discurso foi como que se ele estivesse mastigando e engasgando, mas ao tomar o impulso de dizer o que veio dizer, ou seja, que encerrava sua jornada, Iris mudou de feição, e o semblante desanuviou-se, como quem faz uma confissão que lhe alivia a alma.

Faço esta leitura corporal, porque talvez os colegas não tenham feito. Achei significativa a carga emocional a que o prefeito estava submetido. Iris ingressou muito jovem nas lides políticas. Considerando seus 86 anos (ele completa 87 no dia 22 de dezembro) tinha 25 anos no seu primeiro mandato como vereador, 29 como deputado estadual e 32 anos quando se elegeu prefeito de Goiânia pela primeira vez. É muito tempo fazendo a mesma coisa. E por isto mesmo é difícil abrir mão desta coisa.
 
Entre idas e vindas
Mas é preciso considerar que Iris já anunciou aposentadoria outras vezes e voltou atrás – ou como ele prefere dizer -, fizeram-no voltar atrás.
Em 1998 não era candidato ao governo. Foi para disputa diante da relutância de Maguito Vilela em disputar a reeleição. O governador estava em processo de separação conjugal e temia os reflexos desta situação na política e passou por assim dizer o bastão para Iris, que foi candidato e perdeu.

Ao final das eleições de 2002, quando foi derrotado na reeleição ao senado, migrou da disputa eleitoral para a política partidária, assumindo a direção estadual do PMDB, de onde fez o seu salto para a eleição a prefeitura de Goiânia em 2004. Alí ele já planejava uma candidatura ao governo do Estado, mirando 2006. Maguito assumiu a candidatura, Iris foi para a reeleição e em 2010, deixou dois anos de mandato para o vice, Paulo Garcia (PT) e foi candidato a governador. Fez uma disputa renhida com Marconi Perillo (PSDB), mas o tucano venceu no segundo turno.

Em 2014 o empresário José Batista Júnior, o Jr. Friboi tomou de assalto o PMDB. O primeiro a sair foi Vanderlan Cardoso, que tinha trocado o PR pelo PMDB, e foi abrigar-se no PSB que era de Friboi. Iris já sinalizava que queria ser candidato, mas uma ala do partido pregava renovação. Cristão-novo na política, Friboi foi cozinhado vivo no PMDB e escafedeu-se. Iris que já tinha desistido de ser candidato, foi acionado às pressas e topou mais uma vez representar o partido, que novamente foi ao segundo turno das eleições estaduais, mas não superou Marconi e a máquina do “Tempo Novo” (PSDB, PTB, PP e aliados). Iris, no entanto, plantou um fato novo, garantindo a eleição de Ronaldo Caiado ao Senado, posto que o projetaria para vencer a disputa ao governo do Estado em 2018.

Ao final do pleito de 2014, Iris anunciou que estava pendurando as chuteiras. Mas veio 2016 e o “aposentado” foi convocado pelos peemedebistas para retomar o Paço Municipal. Decidiu a candidatura na undécima hora e foi para um pleito difícil, onde perigou ficar atrás de Vanderlan Cardoso (PSB), que compôs ampla aliança com os partidos da base marconista  e chegou a ficar empatado tecnicamente no primeiro turno. Mas Iris teve fôlego para ficar na frente, numa eleição onde outros nomes também foram bem votados como os deputados Delegado Waldir (PR), Francisco Júnior (PSD) e Adriana Accorsi (PT).

Desistindo de desistir?
Iris pode ser convencido a desistir da aposentadoria? Se for considerada a sua trajetória, diria que sim. Mas se analisarmos a sua expressão corporal no discurso desta terça-feira, 25/08, acredito que não.

Simbolicamente, ele fez seu pronunciamento um dia depois do aniversário de 66 anos da morte do presidente Getúlio Vargas. Iris conquistou seu primeiro mandato sendo eleito vereador pelo PTB de Vargas. Em Goiás, os trabalhistas eram aliados do PSD de Pedro Ludovico, um varguista de primeira hora. Iris era fã dos dois, políticos que nunca desistiram de uma disputa política.

Perseguido, ameaçado de impeachment, Getúlio só saiu morto do Palácio do Cadete. Pedro Ludovico queria luta armada contra a ditadura e quase rompeu com o filho, Mauro Borges, quando este aceitou ser deposto pela intervenção do Coronel Meira Mattos.

Iris se pronunciou.
Falta o pronunciamento do PMDB.

Ele costuma se sensibiizar com as manifestações de seus correligionários.

É sintomático que Iris não tenha anunciado o sucessor.
Não apontou nenhum nome. Não deu nenhum indicativo. Não citou Maguito, Leonardo, nem ninguém.
Para quem conhece o velho cacique, um pingo é letra.

Confira o vídeo com o pronunciamento

 

Leia o momento em que Iris anuncia que encerra a sua carreira política:

“Ficamos extremamente sensibilizados com as inúmeras manifestações de apoio em curso na sociedade para que nos disponibilizemos  a disputar um quinto mandato na prefeitura de Goiânia nas eleições deste ano.

São sobretudo movimentações espontâneas e cercadas de imenso carinho, na medida em que, ao longo de nosso mandato, tomados o cuidado de  não fazer nenhuma sinalização neste sentido. Contudo aqui estou, para de maneira oficial comunicar que não serei candidato à prefeitura de Goiânia no pleito que  se aproxima.

Cumpre informar que encerro neste momento a minha carreira política, construída ao longo de mais de seis décadas. (Neste ponto, Iris para de tremer as mãos).

Decidi fazer este anúncio com antecedência para que aqueles que pretendem se candidatar à minha  sucessão possam se colocar na disputa, para que a sociedade fique livre na missão de escolher os seus favoritos.

Concluirei as minhas atividades públicas no dia 1 de janeiro de 2021 com a transmissão do cargo de prefeito da Capital, ao legítimo vencedor da disputa democrática deste ano.
As duas decisões foram amplamente amadurecidas e tomadas de maneira muito  conscientes. São definitivas e irredutíveis. De hoje até o encerramento das minhas responsabilidades públicas em 1 de janeiro de 2021, naturalmente, permanecerei focado em sempre trabalhar em dobro para que a nossa gestão cumpra todos os compromissos firmados com a população de Goiânia”.