Ex-governador diz que encerra carreira politica com a passagem pela SSP, faz elogios ao presidente eleito Jair Bolsonaro e aponta avanços da segurança em Goiás.

Ex-prefeito de Anápolis, ex-governador, ex-deputado federal e ex-senador Irapuam Costa Júnior anuncia que encerra sua vida publica nesta sua passagem por onze meses á frente da Secretaria de Segurança Pública de Goiás. Aos 81 anos ele se prepara para uma temporada em Portugal, onde pretende desfrutar da companhia da família e amigos.

Conhecedor e colecionador de armas, Irapuam defende mudanças no estatuto do desarmamento e diz que o presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL-RJ) acerta ao defender o direito de cada cidadão ter em sua casa ou no seu estabelecimento comercial uma arma para sua defesa. Ele no entanto, advoga que no combate à criminalidade o serviço de inteligência é hoje mais importante que  a repressão.

Irapuam encerra sua gestão com balanço positivo. Ele afirma que em Goiás houve substancial redução do número de roubo a residencias, estabelecimentos comerciais e no transporte público a partir do maior investimento em patrulhas, veículos e na criação do Batalhão dos Terminais.

Experiente, avalia que a derrota do ex-governador Marconi Perillo (PSDB) não representa o fim de sua carreira politica. Ele estima que o ocaso é momentâneo, e faz parte das idas e vindas da vida, mas ressalta que trata-se de um político ainda jovem e que tem futuro pela frente.

Em relação ao governador eleito Ronaldo Caiado (DEM), ele avalia que sua militância nos movimentos classistas e os vários mandatos no Congresso Nacional o prepararam para este novo momento no Executivo. Mas, com a experiência de quem foi inquilino da Casa Verde, ressalta que o momento vindouro será de um grande aprendizado para o futuro governador: ” No Executivo as cobranças vem primeiro. No Executivo a responsabilidade está em primeiro lugar, nos outros poderes, não só no Judiciário, como no próprio Legislativo, você tem o dever, tem o direito, mas o direito está sempre na frente, enquanto no Executivo o dever está sempre na frente, pois você é o executor, é o dono das ações, é o dono da caneta. E é sempre cobrado por isto”, alerta.

Confira abaixo a íntegra da entrevista:

 

 

 

A sua filha,  economista e ex-secretária da Fazenda de Goiás, Ana Carla Abrão Costa,  se projetou no país ao participar de seminários, palestras, com presença marcante na mídia nacional com avaliações sobre a conjuntura da economia brasileira. Como o sr. tem acompanhado a sua carreira?

Irapuam Costa Júnior – Corujamente…

 

O sr. conclui o trabalho de onze meses à frente da Secretaria de Segurança Pública. Quais são os resultados deste trabalho?

Irapuam Costa Júnior – O resultado se traduz na queda dos doze índices de criminalidade que são utilizados para aferir o trabalho policial. Ouve uma queda apreciável em todos os índices que refletem a criminalidade em Goiás, e eu dou como exemplo alguns crimes que são mais temíveis, mais violentos, como roubo a comércio, roubo a residências, roubo a transeunte, que tiveram uma redução próxima a 50% em relação ao ano passado.

Existe uma maior sensação de segurança no Estado?

Irapuam Costa Júnior – Há porque o número de abordagens policiais em 2018 foi 70% maiordo que o que ocorreu no mesmo período em 2017. A presença de novas viaturas nas ruas transmite esta sensação de segurança, sem falar na questão dos terminais da grande Goiânia, onde a presença do Batalhão dos Terminais – criado na nossa gestão -, levou a uma redução enorme na criminalidade nestes locais, inclusive os registros policiais passaram a ser 20% daquilo que eram anteriormente.

Estive com um contemporâneio do sr., o ex-prefeito de Goiânia Indio do Brasil Artiaga, e ele se disse admirado de sua disposição, nesta altura da vida, em assumir um cargo como este em que o sr. se encontra. E eu pergunto: o que motivou o sr. a ser secretário de Segurança Publica?

Irapuam Costa Júnior – Eu sou antes de mais nada filho de policial. Eu sempre me voltei para segurança pública em todos os cargos públicos nos quais passei, tive uma atração especial por esta área de conhecimento. Quando convidado, resolvi dar esta última contribuição ao serviço público, justamente porque senti que havia algo errado, já há 30 anos, na segurança pública. Havia uma inversão, uma desvalorização do trabalho policial e uma vitimização do criminoso, o que me levou a aceitar e a trabalhar, dentro do que alguns querem dar a entender que é “politicamente incorreto”, que é valorizar o policial e responsabilizar o criminoso pelo que ele faz. Eu acho que o caminho certo é esse pelos resultados colhidos em Goiás.

O novo secretário de segurança publica já está anunciando, e será o delegado da polícia federal Rodnei Martins. Qual recomendação o sr. faria para o seu sucessor?

Irapuam Costa Júnior – O dr. Rodnei Miranda é um homem muito experiente, vem de uma escola policial muito boa que é a polícia federal, e tem larga experiência por ter sido secretário de segurança pública no Espírito Santo. Além disso ele tem passagem pelo cargo mais difícil  no serviço público que é o cargo de prefeito. É um homem que não precisa de conselhos, ele tem o preparo suficiente para levar à cabo esta secretaria de segurança no Estado de Goiás.

O ciclo de Irapuam Costa Júnior na vida pública se encerra ao concluir esta tarefa na SSP?

Irapuam Costa Júnior – Acho  que sim. Eu trabalho desde os 11 anos de idade, e estou agora com 81 anos. Eu tenho duas aposentadorias após 35 anos de serviços para poder gozar.

 

O sr. está de partida para Portugal. É uma viagem ou uma mudança?

Irapuam Costa Júnior – É provisório. Seria muito difícil mudar do Brasil, mudar de Goiás onde tenho filhos, netos. É apenas uma mudança temporária. Vou passar uma temporada em Portugal, mas estarei sempre presente em Goiás.

 

O sr. foi senador Constituinte e esteve na comissão de Assuntos Econômicos, e hoje há sinais muitos claros do presidente eleito de uma mudança na orientação da economia a partir de 2019, sobretudo em relação aos acordos de comércio com parceiros tradicionais, por exemplo, um atrelamento à agenda econômica dos Estados Unidos e de Israel em detrimento de outros parceiros como o mundo árabe e a China. Como o sr. analisa isto?

Irapuam Costa Júnior – Quando o chanceler fala nesta mudança, nem sempre a imprensa procura mostrar aquilo que ele quer dizer. O que ele quer dizer é que nos últimos 30 anos, desde o governo de Fernando Henrique, nós (o Brasil) nos atrelamos a qualquer governo de esquerda. O pragmatismo responsável que existia no governo militar foi deixado de lado. O exemplo mais nocivo deste tipo de ação é a quantidade de dinheiro brasileiro que foi entregue a governos ditatoriais, miseráveis, que não tem condições de nos pagar, como os governos de Cuba, Angola, Moçambique, Equador e Nicarágua. Foram bilhões e bilhões de dólares que  fazem falta aqui dentro – à nossa saúde, principalmente -, que foram irresponsavelmente entregues a estes governos. O chanceler quando menciona esta mudança de rumos, ele o diz não só em relação aos Estados Unidos, que sempre foram um grande comprador do Brasil, e sobretudo, o fala no sentido do afastamento deste tipo de politica que é muito nociva. Eu exerci o meu papel de jornalista há alguns anos atrás e denunciei este tipo de transferência, de exportação de capitais. Eu disse que era mais do que óbvio que não iriamos  receber de Cuba e da Nicarágua. O exemplo está aí: Cuba não está pagando o empréstimo, assim como a Venezuela, Moçambique e dificilmente vamos receber de outros países como a própria Nicarágua.

Como constituinte que o sr. foi, olhando a Constituição 30 anos depois, o que o sr. acha que deve ser mantido e o que deve ser mudado na Constituição?

Irapuam Costa Júnior – Eu sou um crítico desta constituição, embora tenha passado por ela, tanto assim que o número de emendas na Constituição é algo próximo a uma centena. Ela trouxe prejuízos grandes,e eu cito um aqui, que é a estabilidade do servidor público. Hoje o servidor público brasileiro é um prepotente, com raras exceções. Ele trabalha pouco. Tem uma série de vantagens que o trabalhador comum, que trabalha muito mais que ele não tem. Esta Constituições precisa ainda de muitas emendas para ser o que é, e muitas destas emendas foram feitas neste governo Temer, como esta Reforma Trabalhista, que trouxe um benefício para o país enorme. Isto daqui há 20 anos será reconhecido e Temer será aplaudido.

 

O sr. particpa pela seguranda vez de uma transição na política de Goiás. Em 1982, o sr. fez a opção de romper com o governo da época e apoiar a candidatura de Iris Rezende que era candidato de oposição, e agora está participando de outro momento de transição com a derrota do marconismo e a vitória do senador Ronaldo Caiado. Que tipo de conselho ou orientação, o sr. como ex-governador, se permitiria dar ao governador eleito Ronaldo Caiado, em relação as particularidades que tem estes momentos de transição?

Irapuam Costa Júnior – O governador Ronaldo Caiado, também é um cidadão que tem muita experiência, que está há muitos anos no Congresso Nacional e já participou de movimentos fora do Congresso, como a UDR (União Democratica Ruralista) que foram movimentos importantes. A única coisa que eu poderia dizer a ele é que no Executivo as cobranças vem primeiro. No Executivo a responsabilidade está em primeiro lugar, nos outros poderes, não só no Judiciário, como no próprio Legislativo, você tem o dever, tem o direito, mas o direito está sempre na frente, enquanto no Executivo o dever está sempre na frente, pois você é o executor, é o dono das ações, é o dono da caneta. E é sempre cobrado por isto.

É um momento de agir com parcimônia?

Irapuam Costa Júnior – É um momento de aprendizado. Isto aconteceu comigo também, embora eu tivesse uma experiência administrativa maior, pois havia sido presidente da Celg, prefeito de Anapolis, já estava no executivo há alguns anos, mas quando cheguei ao governo do Estado tive que aprender muito. Isto acontece com todo governador.

Como o sr. avalia o ex-governador Marconi Perillo (PSDB), que no apogeu da vida publica, com quatro mandatos de governador e de repente tem uma derrocada como esta em 2018 e um ocaso melancólico. O que explica isto?

Irapuam Costa Júnior – Hebert Spencer, que foi um dos maiores filósofos do século XIX dizia que todos os eventos da natureza são cíclicos. Há sempre o apogeu e o fundo do vale. O governador Marconi evidentemente passa por um momento de depressão política mas ele tem um grande futuro na frente. Isto acontece com todos nós. Na vida nenhum de nós vive a vida sempre no seu apogeu. Todos nós passamos por momentos difíceis e momentos gloriosos.

 

O sr. antevê a ressurreição política de Marconi Perillo?

Irapuam Costa Júnior – Não tenho dúvida, que daqui a quatro ou oito anos no máximo, o trabalho que ele fez vai ser reverenciado. Ele é uma pessoa ainda nova, tem muito futuro pela frente.

 

O presidente eleito Jair Bolsonaro usou na campanha o símbolo da arma na mão. Esta bandeira de armamento e o discurso duro contra a bandidagem no Brasil foi determinante para a eleição dele?

Irapuam Costa Júnior – Não tenho dúvida nenhuma disto. Nós vivemos aí 30 anos em que o bandido foi vitimizado, foi colocado como vítima da sociedade – o que é uma falácia enorme. O bandido passou a receber bolsa, e isto redundou num aumento generalizado da criminalidade. O Brasil passou a ser o país onde o criminoso tem toda a facilidade: é preso hoje e amanha a justiça o coloca na rua, onde ele volta a assaltar. O policial que coibe isto, as vezes tem que responder por processo, pois qualquer coisa que ele faz com um bandido é acusado de truculência, de ter agido com excesso de força. E mais: o cidadão de bem foi desarmado. Tudo isto vem chocando a população que vem pedindo mudança. Uma prova de que esta questão do desarmamento foi mal conduzida durante os governos de esquerda, pode ser demontrado por estatística aqui mesmo em Goiás. Em todo o Estado de Goiás foram adquiridas legalmente duas vezes o número de armas que foram adquiridas em 2017, pela filosofia desarmamentista, teria que ter redundado num número duplo de homicídios, porém os homicídios caíram mais de 10%.

Os que combatem a liberação de armas no Brasil dizem que seria uma aberração qualquer cidadão portar uma arma na cintura na cidade. O que o sr. acha?

Irapuam Costa Júnior –  Esta fala é distorcida, falsa. É uma má fé, porque ninguém prega que todo mundo ande armado na rua. O que se prega é que o cidadão tenha o direito de ter uma arma em sua casa ou no seu estabelecimento comercial, bancário, ou até dentro do seu carro. Agora para que se tenha este direito de portar uma arma na cintura há muitas exigências, como ser treinado para isto e ter o equilíbrio psicológico suficiente para tal. E é isto que o Bolsonaro prega. O todos nós que somos contra este estatuto do desarmamento falamos é que onde foram adotadas políticas semelhantes a este, imediatamente houve um aumento da criminalidade como na Inglaterra, na Austrália.

O que é mais eficaz no combate á violência, a repressão ou a inteligência?

Irapuam Costa Júnior – Hoje o que é mais eficaz no combate à criminalidade é a inteligência., sem dúvida

Alguns setores da sociedade temem um governo de extrema-direita por parte de Bolsonaro. O sr. acha que ele vai fazer um governo democrático, respeitar o Congresso Nacional, ou será um caudilho, um governante autoritário, embora tenha sido eleito pelo voto popular?

Irapuam Costa Júnior – Quem taxa o presidente eleito de extrema-direita está agindo de má fé. Ele viveu no Congresso a vida inteira, ganhou uma eleição democrática contra todas as forças que se diziam expressivas no país. Não há nenhum traço na personalidade dele de extremismo. Eu nunca vi. O que há é que ele está enfrentando forças que são dominadas pela esquerda, que vão continuar por um bom tempo dominadas por ela, como a imprensa, faculdades, e uma parcela preponderante da igreja. Ele enfrenta isto, o meio artístico, que são áreas que são terrenos da esquerda.

O sr. avalia que neste novo governo haverá avanços na economia do Brasil a partir de janeiro?

Irapuam Costa Júnior – Não tenho dúvida nenhuma. As empresas publicas brasileiras foram tomadas de assalto nos últimos trinta anos. A esquerda gosta muito de viver às custas do governo, principalmente das empresas. O exemplo da Petrobrás está aí, o exemplo da TV Lula (EBC) que é um cabide de empregos da esquerda e não consegue um traço na audiência.

Sergio Moro surpreendeu o Brasil ao deixar a magistratura e assumir o ministério da Justiça no governo Bolsonaro. Ele está mais para algoz ou para herói?

Irapuam Costa Júnior – Ele está mais para missionário. Ele teve uma missão importantíssima, como nunca se viu neste Brasil na Justiça. Eu vivi toda uma época no Congresso, onde ele era dominado pelas empreiteiras. O orçamento da República era feito pelas empreiteiras. Eu vi isto lá e foi um dos motivos que me levou a abandonar a vida pública. Ele acabou com isto. Um homem só. Acredito que ele está agora aceitando esta missão de ministério da Justiça para ajudar nesta tarefa do Bolsonaro, e purificar um pouco o serviço público brasileiro, na expectativa de retornar às suas origens sendo conduzido ao Supremo Tribunal Federal.

As esquerdas sempre apontaram Irapuam Costa Júnior como conservador de extrema-direita. Como o sr. se define?

Irapuam Costa Júnior – Eu sou um democrata conservador. Sou de direita, não resta dúvida. Extremismo eu nunca pratiquei, nem quando fui governador ou na secretaria de segurança. Sempre agi extritamente dentro da lei, até não concordando com a lei, que é o caso do Estatuto do Desarmamento, que eu acho um erro, por considerá-lo anti-social, mas sempre o respeitei.

O sr. em momento algum neste momento redemocratização do Brasil defendeu a volta dos militares ao poder?

Irapuam Costa Júnior – Não. Acho que os militares prestaram um enorme serviço ao Brasil,principalmente quando eles impediram que o Brasil caminhasse para o rumo do comunismo. E eu acho que é o trabalho que o Bolsonaro vai fazer também. O marxismo é algo muito próximo da religião. O marxismo fracassou em 70 países no mundo e até hoje a esquerda não aceita este fracasso.

Bolsonaro age certo ou errado ao fustigar o mundo árabe, onde o Brasil exporta grande parte dos seus produtos agropecuários, anunciando que o Brasil vai transferir a embaixada de Tel Aviv para Jerusalém?

Irapuam Costa Júnior – Eu acho que isto está sendo muito exagerado pela imprensa. O fato dele transferir esta embaixada, não deixa de causar um certo frisson ao mundo árabe, mas o próprio mundo árabe não vai dar muita importância para isto. Eles vão continuar comprando do Brasil da mesma forma. O mundo árabe há alguns setores, alguns países que condenam algumas ações palestinas. Nem no mundo árabe há uma unanimidade quanto a questão palestina. Eu diria que isto é um exagero momentâneo da imprensa, que foi muito condescendente com o Lula quando ele ignorou Israel, que é a única nação democrática no Oriente Médio, e se aproximou enormemente das ditaduras, como a da Líbia. Hoje acho que está havendo um reequilíbrio do posicionamento brasileiro nesta questão.