Com 95 milhões de habitantes o Vietnam não teve nenhuma morte pelo covid19. O país asiático testou em massa, está de portas abertas e junto com a China terá maior crescimento do PIB neste ano. Exemplo para o Brasil?

Marcus Vinícius

O site BBC registrou na última quinta-feira a emocionante história de Stephen Cameron, um piloto escocês de 42 anos foi a última vítima de covid19 a deixar a UTI no hospital em Ho Chi Min (antiga Saigon), capital do Vietnam. Conhecido como “Paciente 91”, Cameron ficou 68 dias, tinha apenas 10% de chance de sobreviver, mas vai voltar vivo para Escócia no dia 12 de julho. O governo vietnamita não economizou esforços para salvá-lo, porque o país asiático não registrou uma única morte pelo coronavírus, apesar de fazer fronteira com a China, de onde a pandemia se originou. Até a alta de Cameron, no dia 26 de maio, o Vietnam, país com 95 milhões de habitantes, tinha apenas 90 pessoas contaminadas pelo covid19.

Vietnam: 95 milhões de habitantes, NENHUMA morte por Covid19. Brasil, 210 milhões de habitantes, 63 mil óbitos, 1,5 milhão contaminados -Imagem: Vietnannet.vn

E daí?, diria o presidente Jair Bolsonaro, daí que o Vietnam é um país mais pobre que o Brasil. Seu povo ainda luta com as consequências de 10 anos de bombardeiro ininterrupto que arrasaram o país por agentes químicos e napalm durante a “Guerra Americana” (1960-1973). Este país em desenvolvimento escolheu o caminho de poupar vidas, enquanto o presidente brasileiro definiu que a vida dos brasileiros não tem importância.

Os números falam por si: 63 mil mortos e 1,5 milhão de infectados no Brasil, NENHUM MORTO e 90 contaminados no Vietnam.

Qual o segredo do Vietnam? Rigoroso isolamento social e testagem em massa. O episódio de infecção de Cameron dá ideia da seriedade dos vietnamistas com a questão sanitária. Piloto da Vietnam Air Lines, Cameron frequentou o Bar Bhuda, no dia 17 de março, data do St Patrick Day´(Dia de São Patrício). O bar estava lotado de turistas. No dia 18, com febre, fez o exame e deu positivo. Outras 20 pessoas também se contaminaram. O governo fechou o bar e testou 4.000, isso mesmo quatro mil pessoas que tinham relação com o Bar Bhuda.

Stephen Cameron, o Paciente 91,  recebe alta

E daí para as máscaras!

E o que temos no Brasil? Um governo central que não leva a sério a doença. Desde o início da pandemia, no mês de março, o presidente Jair Bolsonaro desdenhou dos perigos do coronavírus. Primeiro declarou que era uma gripezinha, e quando cinco mil brasileiros morreram, declarou o famoso “E daí”; para finalmente quando a mortandade chegou a 25 mil óbitos dizer: “sou Messias mas não faço milagres”. Vieram depois os episódios da cloraquina, quando receitou o uso indiscriminado do remédio, a título de prevenção contra a doneça, contrariando as recomendações de médicos brasileiros e cientistas daqui e da OMS (Organização Mundial de Saúde).

O ápice da irresponsabilidade do ex-paraquedista e capitão expulso do Exército por indisciplina e ameaça de terrorismo veio na última sexta-feira, quando vetou a lei 14.019, de 2 de julho de 2020, que obriga o uso de máscaras em todo o País como forma de prevenir a disseminação do novo coronavírus.

A nova lei surgiu de um projeto de lei (PL 1562/20) aprovado pela Câmara no início de junho. Porém, Bolsonaro vetou a obrigatoriedade do uso de máscaras em shoppings, lojas, indústrias, templos religiosos, estabelecimentos de ensino e demais locais fechados em que haja reunião de pessoas.

Também foram vetadas as multas aplicáveis a pessoas sem máscaras em estabelecimentos públicos e a outros estabelecimentos que deixassem de disponibilizar máscaras e álcool gel gratuitamente a funcionários e colaboradores.

Testes e isolamento vencem covid19

Em todos os países do mundo – além do Vietnam -, que tiveram sucesso no combate ao coronavírus, o isolamento social e o uso de máscaras foram os pilares das medidas sanitárias para controle da doença.

Bolsonaro age de maneira irresponsável e narcisista, de olho apenas nos seus interesses menores, distante do Estadista que a nação exige em tempos de guerra. E a pandemia do coronavírus é uma guerra pela vida. O ex-capitão escolheu a morte

O discurso bolsonarista atrapalha os esforços de prefeitos, governadores e autoridades de saúde no combate à doença. Pior: influencia parcela da população. O negacionismo contamina as relações sociais, de trabalho e comunitárias.  Sem respaldo financeiro do governo federal, empresários querem abrir a toque de caixa comércio, indústria e serviços, num momento em que o viés de contaminação é de alta, e o Brasil é o país com mais mortes diárias pelo covid19 – 1,5 mil dia -, fato que evidencia ainda mais a necessidade de distanciamento social.

Enquanto empresas fecham e o desemprego, a informalidade e o subemprego vitima 87 milhões de pessoas, o  presidente Jair Bolsonaro aposta no caos como estratégia de governo. A cada declaração polêmica, a cada medida esdrúxula desvia o foco, impedindo que a sociedade faça reflexão severa sobre o desgoverno que ele representa.

Alvo errado

É tão ruim sua influência que os setores empresariais, que deveriam neste momento estar pressionando o governo federal para medidas concretas para debelar a doença,  se unem contra prefeito e governadores que pouco podem fazer, a não ser respeitar as recomendações de cientistas para conter o vírus.

Está nas mãos do governo federal a capacidade de dar respostas à crise econômica e sanitária. Os recursos estão centralizados na União. De nada adianta o presidente da Fieg Sandro Mabel exaltar-se contra o governador Ronaldo Caiado (DEM) ou criticar o prefeito Iris Rezende (MDB) pelas medidas tomadas para controlar a curva de crescimento da doença. É em Brasília, mais especificamente no Palácio do Planalto, que Fieg, Fecomercio, Adial, CNA, CNI, Fiesp e outras entidades de representação do segmento empresarial deveriam estar colocando pressão.

O governo federal precisa seguir os exemplos exitosos do Vietnam, Alemanha, Coréia do Sul, Cingapura, Hong-Kong e outros países que fazem TESTAGEM EM MASSA da população para debelar o crescimento da doença.

 

Vacina e reconversão

Uma vacina está a caminho graças união de esforços entre a Universidade de Oxford (Inglaterra) e cientistas brasileiros de institutos públicos como a Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz), Instituto Butantã, USP (Universidade de São Paulo),  e Unesp (Universidade Estadual Paulista). A Fiocruz, um dos maiores laboratórios de fabricação de vacinas do mundo espera produzir 30 milhões de doses até o final do ano. Profissionais de saúde e idosos serão a prioridade. Mas a pandemia não será debelada penas com a vacina. Uma segunda onda do vírus está surgindo, e as medidas sanitárias serão necessárias mais uma vez.

O ideal é que houvesse por parte do governo federal o interesse em convergir esforços com as outras unidades federativas, e, sobretudo, investimentos em ciência e tecnologia, promovendo um novo arranjo industrial no país, incentivando empresas na revonversão industrial para produção de equipamentos médico-hospitalares, e em saneamento básico e  infra-estrutura nas comunidades mais carentes, maiores vítimas da pandemia. Isto alocaria recursos para construção civil e outras áreas de inovação, gerando empregos e poupando vidas.

O enfrentamento da pandemia exige um governo de união nacional, algo que Jair Bolsonaro já demonstrou que não tem preparo algum. Mas é possível “pôr o gizo no gato”. E esta pode ser a missão do setor empresarial, se tiver em mente que numa guerra ninguém se salva sozinho, e que cada vida é importante para o país retomar a normalidade.

É certo que empresários estão felizes com as medidas do governo Bolsonaro de redução do Estado, dos direitos trabalhistas e até com certo nível de desemprego que rebaixa salários e silencia  categorias. Mas a maioria das empresas depende do mercado interno, e sem empregos, salário e renda a conta não fecha nem para a iniciativa privada, nem para o setor público. A solução não pode ser vertical, mas circular: ou salvam-se todos, o todos pagam um altíssimo preço. Os países com governos mais responsáveis chegaram a esta conclusão. O Brasil ainda não.