Analistas do banco britânico HSBC demonstraram preocupação com a abordagem da companhia brasileira JBS em relação ao desmatamento no Brasil e discutiram sobre potenciais impactos em investimentos na gigante do setor alimentício. Relatório produzido pelo TBIJ e pelo jornal britânico The Guardian despertou investidores do Reino Unido para o fato de que frigorífico brasileiro não monitora sua cadeia produtiva e está adquirindo bovinos de áreas recém desmatadas por grileiros que invadiram áreas de proteção e terras indígenas. Anistia Internacional denunciou JBS na ONU. MPF anunciou que vai investigar a empresa.

A cerca de um mês este site publicou o artigo “O lado burro do agronegócio pode quebrar a agricultura no Brasil“, onde o articulista Marcus Vinícius de Faria Felipe alertava para o fato de que o desmatamento desenfreado na Amazônia, incentivado pelo governo federal, levaria a reações na Europa, Estados Unidos e Ásia. Nesta quarta-feira, o DW (Deutsche Welle), emissora alemã similar à BBC de Londres, publicou matéria onde mostra reação do HSBC à devastação da Amazônia.

Um dos principais bancos do mundo, com sede em Londres, o HSBC alertou a JBS-Friboi, empresa dos goianos Joesley Batista e  Wesley Batista -, sobre o fato de que estão comprando gado de áreas índigenas e de reserva ambiental que foram desmatadas e transformadas em pasto por grileiros.

A DW cita o relatório do banco obtido pelo Bureau of Investigative Journalism (TBIJ), uma organização de mídia sem fins lucrativos baseada no Reino Unido, que apontou que os analistas do HSBC acreditam que o frigorífico “não tem visão, plano de ação, cronograma, tecnologia e soluções” para monitorar sua cadeia de fornecimento de carne e evitar que o gado processado em suas fábricas não tenha ligação com áreas desmatadas na Amazônia.

Em uma reportagem publicada nesta quarta-feira (12/08) em parceria com o jornal The Guardian, o TBIJ  ainda apontou que os analistas do banco questionaram a JBS “múltiplas vezes” sobre sei plano para abordar a questão do desmatamento. Os analistas, segundo o  TBIJ, ficaram insatisfeitos e apontaram que “JBS está sob pressão”.

Os analistas do banco ainda apontaram que a JBS permitiu que um concorrente menor assumisse a liderança na abordagem do desmatamento. É uma referência à Marfrig, outra exportadora brasileira de carne bovina, que em junho se comprometeu publicamente em implantar até 2025 um sistema de rastreamento completo de toda a sua cadeia de produção.

“Nunca vimos um grande líder da indústria deixar um assunto tão sério para um participante menor do setor”, aponta o relatório, segundo o TBIJ.”Ser o maior fornecedor de soluções para o desmatamento no Brasil gera uma valorização benéfica. Infelizmente, não vemos a JBS inclinada a liderar e conquistar esse título”, aponta o relatório.

A reportagem ainda lembra que a JBS, que teve faturamento de 200 bilhões de reais em 2019 e que tem capacidade de processar mais de 75 mil bovinos por dia, já está sob forte pressão por causa de suspeitas de ligação com desmatamento.

Em julho, o braço de investimentos da Nordea Asset Management, um dos maiores grupos financeiros do norte da Europa, anunciou que não investiria mais na JBS e que estava excluindo ações avaliadas em 40 milhões de euros do seu portfólio. O grupo citou o histórico ambiental da JBS e que reuniões com a empresa brasileira não produziram resultados satisfatórios.

Poucos dias ante da decisão, um relatório da Anistia Internacional apontou indícios de que bovinos criados ilegalmente em áreas protegidas da Amazônia viraram bifes embalados com o selo da JBS.

No mesmo mês, uma reportagem conjunta do TBIJ, Guardian e Repórter Brasil apontou que uma fazenda multada por desmatamento ilegal em Mato Grosso teria usado os serviços de transporte da JBS para a prática de “triangulação de gado”, ou seja a transferência de bovinos de uma propriedade “ficha suja” para uma fazenda “ficha limpa”, que, por sua vez, revendeu as cabeças para a JBS. A companhia nega qualquer irregularidade.

O relatório do HSBC também menciona essa reportagem e outros problemas históricos, como o envolvimento da sua liderança em casos de corrupção.

“Após seu legado de problemas de governança e corrupção, o conselho e a liderança sênior da JBS precisam provar que a empresa realmente mudou”, diz o texto.

Apesar de todas essas restrições, o relatório, segundo o TBIJ, aponta que os analistas do HSBC ainda acreditam que é um bom negócio investir na multinacional brasileira.

“Gostamos da JBS por seu histórico de redução de dívidas, portfólio diversificado de proteínas, presença geográfica, liderança no setor e escala”, apontaram os analistas.

A empresa brasileira não respondeu os questionamentos dos jornalistas, afirmando que prefere não fazer nenhum comentário até o fim da semana, quando pretende divulgar seus mais recentes resultados financeiros para investidores e acionistas.

Anistia Internacional denuncia JBS

Gado bovino criado ilegalmente em áreas protegidas da floresta amazônica brasileira entrou na cadeia de fornecimento da maior produtora de carne bovina do mundo, a JBS, disse a Anistia Internacional em relatório de 72 páginas, Da Floresta à Fazenda .

Ao não monitorar efetivamente a entrada de gado bovino em sua cadeia indireta de fornecimento, a JBS falha na adoção de um processo adequado de devida diligência como estabelecido nos Princípios Orientadores das Nações Unidas sobre Empresas e Direitos Humanos . De acordo com os Princípios Orientadores da ONU, a JBS contribui para abusos de direitos humanos dos povos indígenas e comunidades tradicionais residentes em reservas extrativistas ao participar nos incentivos econômicos para o gado bovino criado ilegalmente em áreas protegidas, afirma a Anistia Internacional.

“Desde pelo menos 2009 a JBS tem conhecimento dos riscos de gado bovino criado ilegalmente em áreas protegidas entrar em sua cadeia de fornecimento”, disse Richard Pearshouse, diretor de Crises e Meio Ambiente da Anistia Internacional.

“A JBS deixou de implementar um sistema de monitoramento efetivo em sua cadeia de fornecimento, inclusive de seus fornecedores indiretos. Ela precisa reparar os danos causados e imediatamente implementar sistemas para evitar que isso volte a ocorrer”.

Ainda que a Anistia Internacional não tenha encontrado evidências de envolvimento direto da JBS em abusos de direitos humanos nos três locais investigados, pôde constatar que gado bovino criado ilegalmente em áreas protegidas ingressou na cadeia de fornecimento da empresa. A organização exorta a JBS a adotar medidas até o final de 2020 para reparar essa situação.

MPF investiga denúncia

Reportagem do G1 mostra que o Ministério Público Federal de Rondônia (MP-RO) declarou que vai apurar a denúncia da Anistia Internacional contra a JBS, que teria comprado gado criado ilegalmente áreas protegidas da Amazônia, como em terras indígenas e reservas extrativistas de Rondônia. A multinacional, em nota, negou as acusações.

De acordo com a procuradora da República Gisele Bleggi, o MPF conta com o projeto Carne Legal, que acompanha e rastreia toda a cadeira produtiva do alimento, além do Projeto Amazônia Protege, que tenta frear a legalização de produtos, dentre eles a carne, oriundos da exploração ilegal em terras indígenas.

“Todos os procuradores que atuam na área ambiental participam destas investigações, e propõem as medidas judiciais cabíveis, tanto na área criminal, como na área cível. A invasão e exploração de terras públicas dão origem também a conflitos e disputas por áreas, aumentando a violência no campo e na floresta”, disse Bleggi à Rede Amazônica.

Com informações do DW, G1, The Guardian e site Ecodebate