Recomendações para reduzir a transmissão da doença entre esses grupos e outras minorias étnicas incluem higienização, distanciamento social e melhorias no acesso a serviços básicos de saúde nas comunidades; Américas se tornaram epicentro da pandemia nas últimas semanas.

Agência ONU News – Altos índices de pobreza, falta de acesso a serviços básicos de saúde, água e saneamento básico, barreiras linguísticas, culturais e exclusão social são alguns dos fatores que agravam as taxas de contaminação com a Covid-19 entre afro-americanos e indígenas nas Américas.

Unicef/Alejandra Pocaterra Dois homens da etnia Eñepa transportam vacinas para o ambulatório rural de San José de Kayamá, na Venezuela, em fevereiro de 2020

 

Num guia, a Organização Pan-Americana da Saúde, Opas, reúne recomendações para reduzir a transmissão da doença entre esses grupos e outras minorias afetadas.

Pandemia do novo coronavírus está atingindo de forma desproporcional a minorias étnicas em várias partes do mundo e expondo desigualdades. Foto: Unsplash

Europa e China

Numa entrevista a jornalistas, nessa terça-feira, médicos e especialistas da Opas lembraram que as Américas tiveram mais tempo para se preparar contra a chegada da pandemia, por terem sido atingidas após a Europa e a China, onde a doença surgiu no ano passado.

Nas últimas semanas, no entanto, a região se tornou o epicentro global da Covid-19. No guia, a agência da ONU recomenda medidas de higiene, distanciamento social, acesso a serviços básicos de saúde como alguns dos passos para conter a pandemia entre indígenas e afro-americanos.

A Opas acredita que sistemas de saúde precários, alta prevalência de doenças crônicas e menos acesso à previdência social agravam o quadro. A agência cita ainda desconfiança causada por uma história de racismo e altos níveis de trabalho informal entre os membros dessas comunidades como barreiras adicionais.

Participação

Uma das recomendações é a participação das comunidades indígenas e dos negros na formulação de decisões com implicações sobre sua saúde. É preciso ainda que esses grupos estejam conectados ao atendimento e cuidados contra a Covid-19, uma vez que muitos vivem em áreas remotas.

Um exemplo é a Bacia Amazônica que reúne povos indígenas em mais de 2,4 mil territórios e 800 comunidades. Deste total, 200 vivem em isolamento voluntário.

Para os agentes de saúde, é difícil o acesso, e estudos provam que a prevalência de tuberculose, malária e doenças evitáveis por vacina como o sarampo e a febre amarela é alta. Um outro problema é a insegurança alimentar, que afeta 85% da população nessas áreas, assim como a falta de água e saneamento básico.

Pnud Peru/Mónica Suárez Galindo A Opas ressalta que muitas práticas como o distanciamento social não são aceitáveis por certas comunidades como natural.

Água e sabão

A Opas ressalta que muitas práticas como o distanciamento social não são aceitáveis por certas comunidades como natural. Outras dificuldades como barreiras às práticas de higiene com água e sabão, que podem ser culturalmente rejeitadas por determinadas comunidades, por isso a agência decidiu promover as medidas pela ótica indígena com a ajuda de serviços de saúde e outros setores.

A agência afirma que autoridades locais devem fomentar diálogo e participação dos líderes indígenas e outros representantes não apenas para desafios relacionados agora à pandemia, mas para outras fases pós-Covid-19 que tratam da recuperação econômica.

O guia realça a importância de que todos os membros da casa saibam o que fazer caso alguém contraia a Covid-19 incluindo o apoio específico que precisa ser dado.

Lar e Lares

Um aspecto cultural relevante é o conceito ocidental de “lar” ou “casa” que frequentemente não pode ser aplicado ao de “lares” que inclui a família estendida e que representa a comunidade como um todo.

A comunicação nesse caso é elemento crucial para alcançar os grupos étnicos, e as autoridades de saúde devem oferecer informação nas línguas indígenas utilizando símbolos e imagens compreendidas pela comunidade, se possível.

O guia inclui medidas importantes de proteção dos territórios como ações para fornecer água potável, sabão, desinfetante e alimentos, além de outros itens de primeira necessidade.

Ao falar da maneira apropriada de lidar com o corpo das vítimas fatais no contexto da Covid-19, o guia recomenda seguir os protocolos nacionais e as diretrizes de respostas específicas que sejam seguras, dignificadas e culturalmente apropriadas.

Esse tratamento deve ser baseado nas tradições e costumes dos povos indígenas, afrodescendentes e de outras raízes e também levar em conta as recomendações da Opas e da Organização Mundial da Saúde, OMS, na forma de lidar com o cadáver.