Em entrevista ao programa Papo-Cabeça, da Rádio Interativa FM, o professor Alexandre Diniz, um dos responsáveis pelo modelo epidemiológico aplicado em Goiás,  enfatiza que não há saída individual, defende combate ao negacionismo, às fake news e que ninguém se salva sozinho numa pandemia, que exige esforço coletivo e coordenado pelos governos e pelo conjunto da sociedade.

O Professor José Alexandre Felizola Diniz Filho, do Departamento de Ecologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB/UFG) é um dos responsáveis, juntamente com outros persquisadores, pelo modelo epidemiológico desenvolvido pela UFG (Universidade Federal de Goiás) para o monitoramento e controle do cornavírus em Goiás. Ele foi o entrevistado desta terça-feira, 30, pkelo programa Papo Cabeça, da Rádio Interativa.
Graduado em Ciências Biológicas pela UFS, com mestrado pela UNESP e Doutourado na UNESP, ele é professor da UFG desde 1994, e recebeu em 2018 Medalha Nacional do Mérito Científico – Classe Comendador pela SBPC (Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência).

Na entrevista com o apresentador José Luiz ele explicou a necessidade de novo isolamento social para conter o crescimento acelerado do covid19 que Goiás tem experimentando desde o mês de maio, quando foi decretada a flexibilização, após os 45 dias iniciais de quarentena decretados pelo governo do Estado.

Alexandre Diniz também respondeu perguntas dos ouvintes. Ele reconheceu que o modelo de lockdown intermitente pode não ser o melhor, mas diz que se nada for feito, as projeções do modelo adotado pela UFG, de 18 mil mortes até o final de julho, podem vir a se concretizar. Sua opinião é de que o ideal é o isolamento total de 45 a 50 dias, mas diante das dificuldades de trabalhadores e empresas – que não tem o devido apoio do governo federal para fecharem as portes e ficarem em casa -, o isolamento intermitente, é uma saída menos drástica, porém necessária. Ele alerta, entretanto, que a responsabilidade é individual, pois, independente das determinações das autoridades municipais e estadual, cabe a cada pessoa compreender que o coronavírus é traiçoeiro, se propaga rápido, contamina todas as faixas etárias, e não há ainda garantidas de um tratamento eficaz, e ainda não se ter certeza de quando a vacina estará disponível a todas as pessoas.

O que justifica o novo fechamento?
Professor Alexandre Diniz Filho – A gente começa a ter mortes porque o sistema não se planejou e a não conseguiu comprar os leitos de UTI, os respiradores etc. Este é o pior dos mundos. Quando nós simulamos, no fechamento a gente sobe o isolamento para 50%, na abertura a gente desce para a situação que estamos hoje (emtorno de 37%). Não é ficar tudo bagunçado, fazer festa, nada disso, tem que segurar. Abre um pouco o comércio, as pessoas se organizaram um pouco, mas nas atividades essenciais. Se na semana de abertura virar festa, não adiantou nada. O cenário que estamos propondo, ou seja, o cenário que nós simulamos – e aparentemente o governo encampou esta idéia -, é de fazer o isolamento deste tipo. E aí vou chamar atenção para um ponto importante: não é para aumentar a movimentação. Na realidade em média, é que na volta fiquemos em 50% ou mais próximo dos 50% (de isolamento social).

Por que fazer de forma intercalada?
Professor Alexandre Diniz Filho –Fazemos de forma intercalada para que os comerciantes consigam se organizar um pouco melhor e para que a sociedade entenda que o problema não passou. Nõs ainda estamos começando com o problema na verdade. Então estamos propondo que o isolamento que hoje está em 30% ou 35%, porque as pessoas estão se movimentando, e se deixar vai para aquele cenário vermelho, e no período de fechamento que se feche tudo mesmo, e vá para 50%, que é aquilo que o Zé Luis falou, que é o decreto do mês de março.

O decreto de março foi uma boa experiência?
Professor Alexandre Diniz Filho – O decreto de março deu uma assustada em todo mundo d, ninguém estava esperando, com o fechamento das aulas e tudo, mas ele teve mais impacto, a gente chegou a quase 60% de isolamento. E é claro que é difícil manter isto, mas a idéia é a gente organizar isto. Não é para liberar tudo, como quem pensa que na semana de flexibilização está valendo tudo. Na pior das hipóteses (quando vier a flexibilização) a gente tem que estar como é agora (37% de isolamento).

Mas fica um município aberto e outro fechado…
Professor Alexandre Diniz Filho – Sim, Maysa falou sobre a análise de meta-população, sobre cada município vai fazer de uma forma diferente. A simulação geral (feita pela UFG), foi para todo o Estado, entendendo que todo o Estado iria se comportar de um jeito. Isto seria uma sincronia , e é o ideal. Mas, de repente, um município fica com tudo aberto, e as pessoas saem de lá e vão para outro, e aí, propagam contaminação, por isto o ideal é que tudo fosse sincrônico. Pela determinação do Supremo Tribunal Federal, cada município vai legislar de uma forma diferente. A gente vai ter que avaliar sempre, e ver como vai se comportar o quadro (do covid19), fazendo simulações. Já estão ocorrendo cenários de fechamentos intermitentes, e ele é mais fácil do que obrigar as pessoas a ficarem numa quarentena prologada. É psicológico até, com reflexos econômicos também, pois dá oportunidade de um planejamento, para as empresas se organizarem.

As pessoas tem clareza do que representa esta quarentena intermitente?
Professor Alexandre Diniz Filho – As pessoas tem que ser informadas, isto demanda uma grande campanha de divugação. Vocês na mídia estão fazendo um papel fantástico de esclarecimetno da população. Quero dar os parabéns para vocês aqui (da Rádio Interativa) e de todos os veículos. A gente sabe que é difícil, por causa do negacionismo, mas vocês estão tentando, e é preciso continuar este processo de conscientização da sociedade, pois a cada passo isto fica mais forte. A partir do momento em que a pandemia começa a crescer, os casos começam a chegar mais junto às famílias, que passam a ter familiares e amigos contaminados, ou foram para o hospital ou infelizmente morreram. Por isto esta informação tem que chegar às pessoas e as pessoas é que tem que respeitar (o isolamento).

Perguntas dos ouvintes:

Queria saber com relação aos parâmetros destes estudos. No dia 27 de maio disseram que se estivéssemos no cenário atual, com isolamento de 37%, chegaríamos no dia 30 de junho com mais de mil mortes. A gente continua com 37% de isolamento, e estamos no dia 30 de junho com 475 mortes, que é o cenário verde ou azul. Como fica?
Professor Alexandre Diniz Filho – Na realidade conseguimos calibrar a relação do R (número reprodutivo da doença) com o isolamento. Na verdade em relação à nota anterior, estamos mais próximos do cenário verde, porque no cenário vermelho da última nota técnica, estávamos entendendo que o isolamento iria cair mais, e ele não caiu, se estabilizou entre 37% a 38%, portanto, estamos mais ou menos no número de óbitos do cenário verde. Estamos falando de 475 mortes, mas com os atrasos no registro e notificação das mortes, hoje temos algo em torno de 600 mortes por covid19. Temos, portanto, uma recalibração, pois o isolamento se estabilizou, e não continuou descendo como estava no cenário vermelho, se estabilizando em 38%, o que é baixo. Agora, se olhar na nota técnica que o cenário verde também é ruim para o futuro, porque ele prevê um número grande de mortes, porque se mantém o R, o número reprodutivo da doença constante, que está muito alto, na casa de 1,4% a 1,5%. E a cada nota técnica (vamos soltar uma de hoje para amanhã), a gente vai ajustando o modelo, recalibrando, fazendo ele ficar cada vez mais fininho. A principal coisa que estamos fazendo agora é que temos os inquéritos populacionais de Goiãnia e com isto sabemos quantas pessoas estavam infectadas em maio e em junho, e com isto a gente sabe calibrar o nosso modelo em cima esta linha.

Sobre esta notícia de mais de 7 milhões de desempregados a mais do que já havia no país, quero saber se a UFG também tem trabalhado na área de negócios e inovação, para colaborar com este cenário econômico criado pela pandemia. A gente vê muitas empresas se adaptando, fazendo entregas, trabalho que eram presenciais 100% hoje são 50% no modo digital. Então as empresas tiveram que modificar e várias outras terão que fazer isto. A UFG está trabalhando nestas pesquisas na área econômica?
Professor Alexandre Diniz Filho – Desde o início da pandemia o pessoal da faculdade de Administração, Contabilidade e Economia está envolvido com isto, quem está à frente é o professor Vicente, juntamente com os professores Anderson, Paulo Scall. Eles estão fazendo planejamento em relação aos dados econômicos, no sentido de fazer este acoplamento da epidemiologia com a economia. Isto é importante por que temos um mundo novo pela frente dentro deste contexto da pandemia. Depois que acabar isto nós temos um mundo, porque muita coisa mudou em termos de ambiente de negócio, inovação, coisas que foram muito rápidas e que podemos entender e aproveitar para implementar coisas mais legais. Sempre vai ter um lado em que poderemos tirar proveito desta situação complicada em que a gente está vivendo. Muitas empresas estão se reiventendo, repessando.

Tem um amigo meu que está passando muito mal, com muita dor de cabeça, mas ou menos os sintomas do cocid19.Ele fez o exame, mas ainda não saiu o resultado. O que ele deve fazer, porque ele está saindo, está trabalhando, está conversando com muita gente. Ele tem que trabalhar…
Professor Alexandre Diniz Filho – A recomendação é essa: fique em casa se o sintoma for leve, se começar a se agravar (esta doença é muito traiçoeira), tem que procurar o serviço de saúde. Mas tem uma coisa importante: não só ficar em casa, mas entrar em contato com as pessoas com quem ele falou nos últimos cinco dias. É preciso falar com quem ele teve um contato mais próximo e alertar estas pessoas, dizendo “acho que estou com o covid e vocês talvez estejam”. Ele tem que ficar monitorando sua saúde, ficar em casa usando máscara, não sair, não ter contato com outras pessoas se for possível. Isto é o que chamamos de rastreamento do contato. O ideal é que a secretaria (de Saúde municipais e estadual) faça isto em massa, mas as pessoas podem fazer individualmente. Portanto, fique atento, e alerte as pessoas com as quais você teve contato, pois aí se quebra a cadeia de transmissão do vírus.

Precisa conectar a ciência à realidade, a gente não pode pegar uma idéia de laboratório sem estar conectado com a realidade. Ficar quatro meses com lockdown intercalado é muito pior do que ficar fechado 30/45 dias, a gente tira a previsibilidade do empresário, tira a capacidade dele se planejar com seus estoques, com, seus funcionários, com suas contas a pagar. Medida burra.
Professor Alexandre Diniz Filho – Se for pensado do ponto de vista matemático, concordo 100% com a realidade, mas cada município deveria estar pensando em algo, mas não estão pensando. Ela é burra mas as pessoas tem que pensar, e não estão fazendo isto. Se a gente ficasse com o isolamento de 45 dias a 50 dias, a gente teria acabado com a pandemia. Só que a gente fez isto? Não fez. Foi tudo feito meia-boca. Não é só em Goiás, em Goiânia, mas no Brasil. Por que? Porque as pessoas não respeitam. E veja que alguns países como China e Coréia do Norte – e veja que a gente não tem e não quer este sistema político -, mas enfim, China e Coréia do Norte fizeram um trancamento pesado, como foi feito em Wuhan no início da pandemia, você segura a pandemia. Segura rapidinho, mas a gente consegue fazer isto? Não consegue. A gente ficou 100 dias em quarentena. Mas ficamos mesmo? Não ficou. Fizemos, como sociedade, um negócio meia-boca. Concordo com você que se fechassem 30 dias de verdade, num compromisso da sociedade, do empresariado e de todo mundo, segura mesmo, segura pra caramba, e aí vai monitorando. É isto que a gente fez? Não. Este negócio alternado é uma maneira de pensar, mas cada um deveria pensar numa maneira de controlar. O alternado é para tentar viabilizar as empresas. Se você acha que é ruim, beleza, mas tem que discutir, e ninguém está discutindo, planejando, fica todo mundo um empurrando para o outro. Este é que é o negócio.

O nível de negação do brasileiro é realmente impressionante. Os indivíduos acreditam em fantasma, mula-sem-cabeça, mas não acreditam na doença, nem no vírus. Eu tenho um conhecido que é negacionista, que não acreditava, pegou a doença, passou mal, quase morreu e aí pensei: pronto, agora ele acredita. Mas ao não. Ele não aprendeu, melhorou e rapidamente voltou ás ruas e está aí…
Professor Alexandre Diniz Filho – Vamos para a primeira pergunta: A mensagem é quem puder fique em casa. Não tem jeito gente. Precisamos estar todos juntos para poder eliminar ou minimizar o máximo o impacto desta doença, ela é muito traiçoeira, as pessoas tem que entender isso e a situação está piorando em Goiás, a gente precisa fazer alguma coisa.

Eu tenho um pensamento de que tem que abrir tudo, deixar tudo aberto, porque não estamos mexendo só com crianças não, estamos mexendo com adultos. As pessoas tem que trabalhar, o comércio tem que abrir e vamos nos cuidar. Quem puder se cuida, quem não puder, ou quem quiser tomar sua cerveja, sair para o bar, se quiser jogar futebol, ir para academia, ele sabe o risco que está correndo. Não estamos mexendo com crianças.
Professor Alexandre Diniz Filho –Realmente estamos tratando com adutos, se a pessoa quer se contaminar, vai ter que arcar com as consequências, mas  numa epidemia, numa virose deste tipo, o problema são os outros. É simples, até entendo, a gente já falou aqui da questão de abrir o comércio, de abrir a economia, das pessoas ficarem sem emprego e ficarem sem condições, porque o governo federal não está nem aí. Vamos tirar tudo isto e supor que todas as pessoas que tivessem condições de ficar em casa ficassem, e quem não acreditasse pudesse ir para as ruas: o problema é que esta pessoa que não ficou em casa transmite a doença. Esta é a dificuldade toda, porque você pode querer arcar com as consequências, diz assim, “eu sou jovem”, como disse o presidente, “eu sou ex-atleta, eu não tenho problema”. Mas não é assim, pois não é verdade. Esta doença pode sim infectar. A gente não sabe exatamente em que condições ela se agrava. E em segundo, porque você vai transmitir para os outros. Se a doença ficasse só com você, até concordaria com o seu argumento, mas você vai transmitir para os outros, e aí a coisa fica mais delicada. Você tem que pensar um pouco melhor.

Eu não sei não, fico aqui com a minha dúvida, com a pulga atrás da orelha. A gente vê São Paulo, quantos milnhões de habitantes tem São Paulo? Aí agora se não fizer nada em Goiás vai dar 18 mil mortes, eu acho que esta pesquisa aí é muito fria.
Professor Alexandre Diniz Filho – Sobre as projeções, elas podem ter erro, mas nós podemos deixar tudo como está? É preciso que você faça uma continha: este modelo não é tão simples assim. Não é fazendo uma projeção de um para 2,para 4, depois 8, 16, 32 e 64. Não é assim. É mais complicado que este modelo geométrico, pois o número de infectados começa a aumentar e as pessoas suscetíveis à doença começam a morrer. É um modelo que a gente chama de logístico. Mas no começo ele vai funcionar parecido com esta progressão geométrica. Faça as constas, pense no número de mortes entrando lá no site da secretaria de Saúde, e pegue os mortos no início de junho, no meio de junho e agora. Ponha isto no papel e olha no que vair dar isto aí. A gente acha este número exagerado, porque o nosso cérebro tem dificuldade de projetar as coisas exponencialmente, então quando a gente põe no computador ou na ponta do lápis, a gente vê que os números crescem assustadoramente rápido. Não estou falando que ele é exponencial, porque quando chegarmos em setembro a gente vai estabilizando, e está descendo a ladeira, já passou do pico, provavelmente, mas ainda assim o número acumulado de mortes é muito alto, e a continha que você tem que fazer para pensar é essa. Claro que tem um monte de incertezas, e isto não é uma previsão, é uma projeção se o R ficar do jeito que está. Por exemplo, vamos supor que o R ficar do jeito que está, mas a gente tivesse um monte de testagem, pode ser que melhore, mas a gente sabe que não vai melhorar muito, porque o importante é o isolamento social. A gente pode ter estratégias complementares, que a gente vai publicar provavelmente amanhã ou depois. Dá para melhorar esta estimativa, tendo o isolamento e tendo outras coisas. Aquilo que disse para o ouvinte anterior, do rastreamento dos casos é legal, mas tem que ser feito muito intensamente, com muita gente, com todo mundo se comprometendo.