Redes nacionais de televisão fizeram apostas diferentes na cobertura da Festa de Momo, com um lado mostrando irreverência e crítica social nos desfiles e nos blocos e o outro demonizando a folia.

Marcus Vinícius

 

Sou daqueles que concordam com o refrão de “Samba da minha terra”, do eterno João Gilberto:

“Quem não gosta do samba, bom sujeito não é
É ruim da cabeça ou doente do pé”.

Por isto sempre vi o carnaval como uma brincadeira saudável, um momento de estar com amigos celebrando a vida, porque como dizia o poetinha Vinícius de Moraes, “tristeza não tem fim, felicidade sim”.

Goiânia, nossa querida cidade que neste 2020 chega aos 87 anos, foi fundada por um amante do carnaval, o Dr. Pedro Ludovico Teixeira, que juntamente com o Professor Venerando de Freitas, primeiro prefeito de nossa Capital, animava os bailes nas décadas de 1930, 1940 e 1950 no antigo Automóvel Clube, atual Jóquei Clube.

Faço esta introdução para chamar atenção sobre a cobertura das redes nacionais de televisão sobre o carnaval deste ano. A Rede Globo e a TV Bandeirantes apostaram na alegria dos festejos, na Record, ao contrário, prevalece o estilo “TV Desgraça-mundo cão”.

Na Globo o destaque fica com os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro e de São Paulo,  com flashes sobre o carnaval dos blocos nas demais capitais do país. A Band, que tradicionalmente cobre o carnaval do Nordeste faz boas matérias sobre a festa em Recife, Olinda, Salvador e deu uma esticada em Belo Horizonte, onde os mineiros tomaram conta das ruas com muito entusiasmo, apesar das enchentes que castigaram a cidade.

Mas na programação da Record o carnaval é algo sinistro: roubo de celulares em São Paulo, brigas em blocos em São Paulo, Salvador e Porto Alegre. Na sequência, matérias sobre pedofilia, enfoque nas mortes por acidentes nas estradas, destaque para a rebelião dos milicianos infiltrados na Polícia Militar do Ceara e, para arrematar, um festival de notícias sobre desgraceiras pelo mundo.

Tá certo que ocorrem roubos, golpes, acidentes e outros sinistros durante o carnaval, mas e o jornalismo vai registrar tudo isto também, mas na Record há uma superposição deste “mundo-cão”, como se a emissora do Bispo Edir Macedo quisesse fazer no jornalismo o seu manifesto contra uma das mais tradicionais festas populares do Brasil.

 

Carnaval e Estado Laico

É preciso que a Record entenda de vez que o Brasil é um país laico no qual até Jesus vai para avenida. Em 1989 o saudoso Joãozinho Trinta fez um desfile histórico com a Beija-Flor, denunciando a miséria e a desigualdade social no enredo “Ratos e urubus, larguem minha fantasia”. O desfile teve como abre-alas um carro com uma reprodução do Cristo Redentor vestido como um mendigo. Às vésperas do carnaval, porém, a Arquidiocese do Rio de Janeiro conseguiu uma ordem judicial proibindo a apresentação da alegoria. Joãosinho Trinta não se deu por vencido: cobriu a alegoria com um plástico preto e acrescentou uma faixa com a frase “mesmo proibido, olhai por nós”.

Neste ano foi a vez da Mangueira desfilar pela Sapucaí com  um Jesus Cristo  negro, morto na favela, com o enredo “A verdade vos fará livre”. Na comissão de frente, Cristo aparece vestido como um jovem de comunidade que é revistado junto com amigos por policiais.

O refrão diz:

Os profetas da intolerância Sem saber que a esperança Brilha mais que a escuridão Favela, pega a visão: Não tem futuro sem partilha Nem messias de arma na mão Favela, pega a visão”

Negros, índios e camdomblé

Repleta de elementos do Candomblé, a apresentação da Viradouro homenageou a orixá das águas doces em diversos carros alegóricos, fantasias e destaques.

A Acadêmicos do Grande Rio também levou a espiritualidade de matriz africana à Sapucaí. A escola desfilou a história do pai de santo Joãozinho da Gomeia, um dos mais representativos do Candomblé.

A Portela fez homenagem aos Tupinambás, indígenas que povoavam o Rio até a chega dos portugueses.

Em São Paulo a escola Tom Maior exaltou grandes heróis negros da história brasileira cantando o enredo “É coisa de preto”, que propõe uma reflexão sobre a expressão racista. Pelas alas da escola, homenagens e referências aos artistas Ruth de Souza, Mano Brown, Grande Otelo, Madame Satã e Mussum e a vereadora Marielle Franco, assassinada em março de 2018.

Uma ala da Mancha Verde, de SP, se fantasiou de emprega doméstica na Disney em referência a Paulo Guedes

Campeã de 2019, a Mancha Verde fez um discurso politizado ao mostrar em “Pai, perdoai, eles não sabem o que fazem”, o erros cometidos por líderes mundiais em nome de Jesus. Sobrou para o governo brasileiro. Teve fantasia de trabalhadora doméstica com passaporte, em alusão às declarações do ministro da Economia Paulo Guedes, que afirmou que as profissionais têm ido muito à Disney. Além de uma ala chamada “primavera feminista” e outra que criticava a obrigatoriedade de meninas vestirem rosa e meninos vestirem azul, slogan criado por Damares Alves, ministra da Família, Mulher e Direitos Humanos do governo de Bolsonaro.

Este carnaval com críticas sociais parece que foi muito indigesto para a Record, que dá sustentação incondicional ao governo do presidente Jair Bolsonaro. A emissora parece que não quis registrar  os gritos nas ruas contra o racismo, contra a intolerância religiosa e as declarações fascistas do presidente Bolsonaro e seus ministros. Tampouco se interessou pelo samba que fala do preconceito aos pobres, negros, indígenas, estudantes, jornalistas e LGBT´s.

A festa continua até amanhã, e vem aí muita irreverência. O jornalismo de pé-quebrado da Record provavelmente vai continuar insultando o samba e os festejos de momo, mas o povo brasileiro vai desfilar sua indignação com alegria.