Jornalista e cientista politico retrata a negociação entre o presidente brasileiro e o norte-americano, Franklin Delano Roosenvelt, que legou ao país a industrialização e a soberania pol´tica e cultural diante dos yanques.

 

Por Gilberto Maringoni

O Brasil teve pelo menos um gigante na presidência da República. Como qualquer um sabe, seu nome era Getúlio Dornelles Vargas (1882-1954). Diante deles – talvez à exceção de Juscelino – todos os demais são figuras menores. Notáveis, mas menores. Vale ressaltar isso num 24 de agosto, 66 anos depois do suicídio, quando um meliante fascista ocupa o cargo.

Acompanha este post a mais expressiva fotografia de todas as que conheço do ex-presidente.

Uma imagem, uma lição de poder

A foto é mais do que manjada. A data é 28 de janeiro de 1943 e o calor é tórrido. Nela aparecem Franklin Delano Roosevelt, presidente dos EUA, e Vargas, chefe do Executivo brasileiro.

A imagem vale por um curso de como funciona o poder.

Trata-se de um símbolo de quem não tem postura subserviente diante do mais forte. Vargas sabia que seu país estava na periferia do sistema. Não tinha indústrias e nem geração de conhecimento capaz de alavancar a produtividade do trabalho em larga escala.

Contudo – surpreendentemente -, o gaúcho exibia espinha ereta.

Getúlio Vargas jamais foi aos Estados Unidos pedir a benção do presidente de turno. Mas forçou o mais importante líder estadunidense do século XX vir ao Brasil para realizar uma tensa negociação.

Foi assim que em 27 de janeiro de 1943, Roosevelt se desviou da rota Casablanca-Washington e desceu em Natal, então uma cidadezinha de 50 mil habitantes. O quadrimotor Boeing B 314 que o transportava cumpriu secretamente arriscado voo pelo Atlântico Sul. Após participar de uma conferência no Marrocos francês com Winston Churchill e Charles de Gaulle, em plena II Guerra Mundial, o mandatário dos EUA veio finalizar as tratativas para a instalação de quatro bases militares em solo brasileiro. Pela proximidade com a África, suas localizações eram estratégicas para a força aérea norteamericana.

Vargas, na mesma tarde, decolara do Santos Dumont, rumo ao Nordeste. Para todos os efeitos, o presidente estaria em São Paulo, no hospital das Clínicas, ao lado do filho caçula, que enfrentava um quadro gravíssimo de poliomelite. O chefe da Revolução de 1930 ainda se ressentia de dores em uma das pernas, devido a um sério acidente automobilístico sofrido meses antes.

Foi com esse quadro de problemas que o chefe de Estado aterrissou na capital do Rio Grande do Norte.

Lira Neto, no segundo volume de sua magistral biografia de Getúlio, informa como se deu o encontro:

“Ao meio-dia de 28 de janeiro, Getúlio e Roosevelt almoçaram juntos e trocaram impressões sobre a guerra. Ao sentarem à mesa, ambos vestiam paletó de linho branco e gravata preta. Roosevelt estava com uma tarja negra em torno do braço, em sinal de luto pela queda de um avião de sua comitiva. Parte do diálogo foi feita em francês, língua que os dois dominavam”.

(…)

“Depois de muito relutar em ceder trechos do território nordestino a uma nação estrangeira — ato inicialmente considerado ‘uma violência contra a soberania nacional’ —, Getúlio enfim sucumbira às injunções de Washington, impondo o financiamento da siderurgia como uma contrapartida honrosa”.

Estavam dadas as condições para o término da construção da usina de Volta Redonda, vital para nosso salto industrializante.

É importante examinar a fotografia que ficou para a posteridade (vai aqui uma versão colorizada da original). Apenas naquele momento, a população de Natal – e a opinião pública mundial – soube da presença dos dois líderes na cidade.

De forma ousada, Getúlio indicou a Rossevelt o banco dianteiro, ao lado do motorista. Com dificuldades para caminhar, o norteamericano foi carregado até o jipe. O brasileiro sentou-se atrás, lugar de destaque em qualquer condução oficial. Assento de quem manda e indica o caminho. Roosevelt teve de se virar para conversar. Getúlio impõe-se como figura proeminente.

Exatamente o oposto do atual ocupante do Planalto, que é capaz de implorar para que Donald Trump lhe cavalgue.

Ao final daquele dia, cada um partiu para seus postos. Vargas permaneceu dois dias no Rio e logo voou para São Paulo para acompanhar seu menino. Getúlio Vargas Filho morreria aos 23 anos de 2 de fevereiro de 1943.

Ah, as bases militares foram desativadas logo após o conflito. Volta Redonda seguiu como mola mestra de nossa indústria, até ser criminosamente privatizada exatos 50 anos depois.

Parece que Getúlio já não era mais presidente…

Gilberto Maringoni e jornalista e Cientista Político. O texto foi publicado no facebook do autor e republicado pelo DCM.