Cresce a tribo de adolescentes e jovens adultos que têm uma percepção totalmente irrealista de si mesmos e de seus talentos.

Fernando Fabbrini*

Circula pela internet um texto curioso assinado por um renomado escritor lusófono. Porém, o estilo e a linguagem não combinam com a suposta autoria. Parece mais um extenso e dolorido desabafo de algum pai português anônimo, indignado com o que passa na cabeça de seus filhos. Em síntese, o homem se penitencia pelo terrível fracasso de sua geração – pais e mães que criaram jovens mimados, cheios de privilégios, incapazes de enfrentar as durezas da vida, eternamente adolescentes. O pobre coitado luso está à rasca, como se diz por lá.

O homem tem certa razão, apesar de generalizar o problema, o que não me parece correto. Porém, conseguiu definir, no seu jeito simples, um fenômeno mundial das últimas décadas. Preocupados excessivamente com o futuro de seus filhos, os pais acabaram por superprotegê-los, abrindo portas, afastando problemas e retirando obstáculos por sua conta. Erro imperdoável: faz parte da construção da maturidade e da independência dos seres humanos enfrentar os percalços da caminhada, fazer escolhas difíceis e assumir consequências sozinhos.

Embalados na falsa onda de que “a culpa é sempre do sistema, do outro, do governo, do imperialismo, do mundo cruel”, essa geração encheu a cabeça de asneiras nas nossas universidades. E de lá saem acreditando que seus próprios desejos são “direitos” e que os direitos dos demais são sempre “abusos”. Quase sempre vêm da classe média, nunca trabalharam, empurram com a barriga um curso qualquer, continuam dependentes da família. Apoiam artistas, intelectuais, minorias – com os quais comungam as indignações seletivas de nosso tempo. É aquela velha história: diversidade sim, desde que os diversos pensem como nós.

De uns tempos para cá, a experiência, a maturidade, o valioso tempo de casa e de janela andam esquecidos. A humanidade vem preferindo se deslumbrar com adolescentes; celebridades infantis, influenciadores digitais e outras bobagens de nossa época. O saudável espírito crítico, antídoto tradicional contra asneiras – coisa que só a maturidade traz – anda em falta no mercado.

Cresce a tribo de adolescentes e jovens adultos que têm uma percepção totalmente irrealista de si mesmos e de seus talentos. O século 21 é o berço esplêndido da turma do “eu me acho”. Se acham os melhores alunos (nota ruim? A culpa é do professor). Se acham os mais competentes no trabalho (se recebem críticas ou não são promovidos, é perseguição do chefe). Se acham merecedores de elogios e reconhecimento diário (caso contrário, é porque a empresa encontra-se aquém de sua genialidade).

“Muitos pais modernos expressam amor por seus filhos tratando-os como se fossem da realeza”, afirma Keith Campbell, psicólogo e coautor do livro Narcisism epidemic (Epidemia narcisista). “Eles precisam entender que seus filhos são especiais para eles, não para o resto do mundo”.

Diz ainda Campbell: “os elogios mais prejudiciais são aqueles feitos quando não há nada a elogiar. Se o time do filho tomou uma goleada – e ele contribuiu para o placar vergonhoso – não passe a mão na cabecinha suada do rapaz: ‘Você brilhou, o que atrapalhou foi aquele juiz ladrão’. Isso não é elogio. É mentira”.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas às sextas-feiras no site DomTotal.