Mercado reage contra devastação. Fundos internacionais ameaçam retirar investimentos. Ex-presidentes da Fiesp, do Banco Central e ex-ministros da Fazenda alertam que a destruição da Amazônia, do Cerrado e o genocídio de povos indígenas prejudica empresas brasileiras no exterior, afastando negócios. Brasil corre o risco de ser alvo de boicotes internacionais da mesma maneira que o governo de Pretória, na época do apartheid.

 

Marcus Vinícius de Faria Felipe

A opção do presidente Jair Bolsonaro por garimpeiros ilegais, grileiros, madeireiros depredadores, pecuaristas invasores de terras e sojicultores matadores de índios irritou o mundo dos negócios no Brasil e no exterior. Entidades dentro e fora do país deram um grito de basta ao ecocídio da Amazônia e do Cerrado e ao genocídio dos povos indígenas.

O chamado “Mercado” – entidade onipoente que governa o dinheiro em todos os países do mundo -, deu um xeque-mate na dupla formada pelo presidente Jair Bolsonaro e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles (Novo).

Os primeiros avisos vieram na forma de uma Carta Aberta escrita por fundos de investimentos estrangeiros que somam juntos quase US$ 4 trilhões de dólares (cerca de 20 trilhões de reais). Eles exigiram que o governo brasileiro pare o desmatamento, as queimadas e a matança de índios na região amazônica e no cerrado.

O brado do capitalismo internacional foi repertutido por Horário Lafer Piva, ex-presidente da poderosa Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).  Acionista da Klabin,  maior produtora e exportadora de papéis do país, com foco na produção de celulose e papéis, Horário Piva resumiu o humor dos capitalistas brasileiros e estrangeiros: “O mundo perdeu a paciência com o Brasil”, disse Piva, durante live no jornal Valor Econômico.

“A repercussão negativa das posturas do governo brasileiro em relação à agenda ambiental e ao desmatamento da Amazônia impacta fortemente os negócios das empresas no exterior, alertou

[Essa política ambiental] afeta não só o dia a dia, como inclusive o rating dessas empresas que, de alguma forma, contam com investimentos ou financiamentos de agentes internacionais, hoje muito mais ativos na questão do meio ambiente e da sustentabilidade”, observou Piva, ao citar manifestações recentes de fundos internacionais a respeito do tema.

 

Reação em cascata

As declarações de Horácio Lafer Piva estimularam ex-presidentes do Banco Central e ex-ministros da Fazenda verbalizarem sua contrariedade contra a irresponsabilidade com o meio ambiente do governo Bolsonaro.

Um grupo formado pelos ex dirigentes do BC e da Fazenda fizeram manifestação endereçada á presidência da República pela retomada da economia, no pós-pandemia, focada no fim do desmatamento da Amazônia e do Cerrado, e com rígida orientação para as questões climáticas.

A Carta Aberta a Bolsonaro, publicada pela Folha de S. Paulo,  foi assinada pelos ex-presidentes do Banco Central Henrique Meirelles, Gustavo Krause, Gustavo Loyola, Alexandre Tombini, Pérsio Arida, Ian Goldfajn, e pelos ex-ministros da Fazenda Fernando Henrique Cardoso, Armínio Fraga, Pedro Malan, Nelson Barbosa, Joaquim Levy, Eduardo Guardia, Luis Carlos Bresser Pereira, Mailson da Nóbrega, Marcílio Marques Moreira, Rubens Ricúpero e Zélia Cardoso de Mello.

Sugestões

Os ex-ministros sugerem que o governo Bolsonaro zere o desmatamento da Amazônia e do Cerrado, ponha fim aos subsídios aos combustíveis fósseis, amplie investimentos sustentáveis e impulsione a pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias.

“O prejuízo do desmatamento tem levado diversos parceiros comerciais importantes e investidores estrangeiros no Brasil a expressar veementemente seu descontentamento e preocupaçqõ que certamente se traduzirão em menores fluxos de comércio e investimentos no país, informa o texto.

Milícias da destruição

O ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero disse que não é mais possível manter ilusões sobre a posição governo Bolsonaro.

“O atual presidente recebeu um apoio de 100% dos grileiros, dos desmatadores, dos mineradores ilegais e esses são interesses nefastos, criminosos”, enfatiza.

Para Nelson Barbosa, ex-ministro do Planejamento e da Fazenda no governo Dilma Roussef, “ao ignorar o potencial do deenvolvimento sustentável, o governo desperdiça oportunidades, num momento em que deveria estar à frente da retomada do crescimento. Desenvolvimento Verde  é uma oportunidade de inovação, investimentos e geração de empregos”, aponta.

Soft power vs fascismo

Durante as gestões dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso (1996-2002), Lula (2003-2010) e Dilma Roussef (2011-2015), o governo federal equipou o Ibama, a Polícia Federal, o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Especiais) e criou o ICMBio. Além da contratação de servidores, através de inúmeros concursos públicos, estes órgãos ganharam helicópteros, aviões, carros, caminhonetes, barcos, conexões com satélite e recursos para fiscalizar madeireiros ilegais e garimpeiros. As terras indígenas foram protegidas.

Antes deles, no governo do presidente Fernando Collor de Mello (1990-1992), o ambientalistas José Antônio Lutzenberger foi ministro do Meio Ambiente. Ele garantiu a demarcação das terras do Ianomami e trouxe para o Brasil a Conferência Rio 92, um marco nos acordos ambientais no mundo.

Por décadas a política de preservação florestal no Brasil foi motivo de elogio em todo o mundo, sendo copiada por vários países. Esta “Eco-Política”, deu ao Brasil o “soft-power”, que facilitou a participação do país em vários blocos econômicos e políticos, oportunizando em 2006 a entrada do Brasil no G-20 – Grupo dos 20 países mais ricos do mundo, além de facilitar a vitória nas rodadas comerciais da OMC (Organização Mundial do Comércio), abrindo o mercado internacional às exportações de comoddities agrícolas e minerais.

Brasil pode ser alvo de boicotes como a África do Sul da era apartheid

O governo da dupla Jair Bolsonaro-Ricardo Salles jogou no lixo décadas de admiração do Brasil no exterior e ameaça arrasar as exportações agrícolas e minerais do país.

Nas décadas de 1960/1970/1980 o mundo se voltou contra  o apartheid na África do Sul. As portas do comércio e da diplomacia foram se fechando para o odioso governo de Pretória, que impunha brutal segregação racial entre a maioria negra e a minoria branca.

As primeiras sanções econômicas contra o regime que inventou o apartheid foram impostas em 1962 (restrições às exportações e boicote a produtos sul-africanos). O leque de medidas foi ampliado em 1977, com a proibição da venda de armas ao país, e em 1979, quando a ONU decretou um embargo à venda de petróleo à África do Sul. O governo branco balançou mesmo só depois que o Congresso americano, diante da passividade do presidente Ronald Reagan, começou a aprovar sanções progressivas ao país, impulsionado pelas pressões crescentes de norte-americanos que protestavam pelo embargo econômico ao país racista. A soma de embargos econômicos em todo o mundo – inclusive no Brasil, fez o apartheid cair.

Geisel trocou a África do Sul por Angola,

Bolsonaro troca Amazônia por milícias

Em suas memórias o ex-presidente Ernesto Geisel, general que presidiu o Brasil durante a ditadura militar nos anos de 1974 a 1979, esfriou as relações com o governo racista de Pretória.  Geisel adotou como doutrina de política externa “O Pragmatismo Responsável”.  Com este lema Geisel conduziu à busca de maior autonomia na cena internacional, produzindo uma crescente multilateralização e mundialização, de dimensão econômica e política.

Nesse processo, o país necessitava exportar produtos primários de colocação cada vez mais difícil no mercado mundial, onde, com a recente industrialização, tornava-se necessário buscar mercados para os produtos manufaturados e serviços, e, para tanto, as relações com a América Latina, África, Oriente Médio e Ásia foram decisivas.

Resultado: de olho no petróleo barato de Angola, Geisel fez o Brasil ser o primeiro país a reconhecer a indendência da nação africana, que venceu Portugal e a África do Sul na sua guerra de independência. Detalhe: Angola tinha como aliados a antiga URSS e Cuba.

Geisel também trouxe a tecnologia nuclear para o Brasil – contrariando os Estados Unidos -, com o acordo Brasil-Alemanha, que levou a construção da Usina Nuclear de Angra dos Reis.

Geisel trocou parcerias por mercados e tecnologias.

Bolsonaro mata índios, desmata a Amazônia e o Cerrado pelo apoio   de garimpeiros, grileiros, desmatadores, latinfundiários. Troca a imagem do Brasil pelo respaldo de milícias.

A opção de Bolsonaro macula a imagem do Brasil, e pode quebrar o agronegócio.