Marcelo Freixo anunciou sua saída do PSOL e filiação ao PSB para se candidatar a governador do Rio de Janeiro. Diante da crise política e econômica instalada no estado e no país, o que significa esse passo pelo deputado? A Sputnik Brasil ouviu especialista para entender melhor esse quadro.

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No dia 11 de junho, o deputado federal, Marcelo Freixo, anunciou sua saída do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e filiação ao Partido Socialista Brasileiro (PSB) para concorrer a governador do Rio de Janeiro pela legenda.

A decisão de Freixo causou certo alvoroço, pois essa não foi uma simples filiação a outro partido, como muitos políticos optam em ano de eleição, foi a separação entre criador e criatura, corpo e alma.

Após 16 anos no PSOL, o deputado foi um dos políticos mais simbólicos da legenda, e ainda é difícil desassociar a imagem da sigla com a imagem do deputado e a luta de ambos pelos direitos humanos.

Pelo PSOL, Freixo se elegeu como deputado estadual por três mandatos consecutivos, sendo em 2014 o deputado estadual mais votado do Brasil. Em 2019, foi eleito deputado federal, cargo que ocupa até hoje.

Sempre na resistência e militância pelos direitos humanos, presidiu a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ).

Freixo em registro antigo, quando concorreu pela primeira vez pelo PSOL à Prefeitura do Rio de Janeiro no bairro de Madureira, Rio de Janeiro, 19 de setembro de 2012

Quando anunciou sua saída, Freixo declarou a necessidade da formação de uma frente ampla para derrotar Bolsonaro nas eleições de 2022, mas por que esse objetivo seria incompatível com a sua permanência no PSOL? Por que o PT não foi uma opção viável de partido?

Para responder a essas e outras perguntas, a Sputnik Brasil conversou com Arnaldo Francisco Cardoso, cientista político e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo.

Saída do PSOL

Para Cardoso, a saída de Freixo do PSOL deve ser entendida pelo contexto da grave crise política, econômica e social que o Brasil está vivendo.

Apesar do partido ser jovem, a legenda já criou consistência e respeito no quadro político, porém, diante do cenário crítico estadual e nacional, o cientista acredita que Freixo identificou a necessidade da formação de uma frente mais ampla para enfrentar Bolsonaro em 2022.

A legenda, embora reconheça a mesma gravidade da situação, não endossa a mesma estratégia política. Na interpretação do cientista, o PSOL se orienta por uma fidelidade programática que rejeita as concessões que se impõem para formação de tal frente ampla.

Sem dúvidas, a saída de Freixo do partido é uma perda significativa para sigla, entretanto, o partido já desenvolveu proveitosa solidez. Como exemplo, o cientista cita o histórico desempenho de Guilherme Boulos que chegou ao segundo turno na eleição do ano passado para prefeitura de São Paulo.

Outro ponto relevante, é o fato de o PSOL ter elegido 90 vereadores pelo país em 15 estados diferentes, além de cinco prefeitos, inclusive para uma capital, Belém.

Marcelo Freixo com eleitores na Cinelândia, no Rio de Janeiro (foto de arquivo)

© CC BY 2.0 / MARCELO FREIXO / MÍDIA NINJA Marcelo Freixo com eleitores na Cinelândia, no Rio de Janeiro (foto de arquivo)

Contexto no Rio de Janeiro

A cidade do Rio de Janeiro recebe um enfoque especial nesse contexto, não só por ser uma das peças centrais na disputa política de 2022, mas também por abrigar uma grande parte de eleitores ou simpatizantes do partido, ao mesmo tempo que é o reduto da família Bolsonaro.

Além disso, a cidade foi palco em 2018 da morte da deputada Marielle Franco, também filiada ao PSOL, assassinada por milícias do Rio, em um caso grave contra a manutenção da democracia e do direitos humanos no Brasil.

Para Cardoso, esse destaque da cidade ficou muito claro com a viagem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Rio no último dia 10 para encontros políticos, pois deu sinal da importância das articulações no estado.

Entretanto, apesar do PSOL ter força no Rio, o partido é muito forte na cidade, mas não tem penetração no estado, e ainda não é conhecida sua estratégia para o governo estadual de 2022, segundo o cientista.

Deputado Marcelo Freixo beija Marinete Silva, mãe da vereadora assassinada Marielle Franco. Um crime que chocou o Brasil e manchou a história da democracia no país, Rio de Janeiro, 14 de janeiro de 2019

Deputado Marcelo Freixo beija Marinete Silva, mãe da vereadora assassinada Marielle Franco. Um crime que chocou o Brasil e manchou a história da democracia no país, Rio de Janeiro, 14 de janeiro de 2019

Frente ampla com alianças além esquerda

Ao escrever sobre sua saída do partido, Freixo disse que “é urgente a ampliação do diálogo e a construção de uma aliança com todas as forças políticas dispostas a somar esforços na luta contra o bolsonarismo”.

Cardoso examina que o deputado reconhece a crise sistémica do estado do Rio e do país, o que faz com que Freixo tenha uma ação política pragmática, cuja prioridade não seja somente contornar essa crise, mas também derrotar Bolsonaro e o bolsonarismo afim de remediar os graves problemas através dos pilares da democracia e do Estado de Direito.

Sendo assim, Freixo acredita que uma frente ampla seria a forma mais coesa para enfrentar esse contexto.

Como exemplo, o cientista citou um acordo político formado em 2015 em Portugal, que articulou diversos esforços reunindo forças de esquerda e de centro, que passou a ser chamado de “geringonça”.

Esse acordo proporcionou, até 2019, a chance do governo português de promover a estabilidade no país e aprovação popular, culminando na reeleição, em janeiro desse ano, do atual presidente Marcelo Rebelo de Sousa.

Por que o PT não foi uma opção de filiação para Freixo?

Há um consenso na avaliação negativa do que representou, até o momento, o governo Bolsonaro, por diversos partidos. Um dos que mais aponta para má gestão bolsonarista é, sem dúvidas, o Partido dos Trabalhadores (PT). Em vista desse fato, Freixo poderia ter se aliado ao partido, do qual fez parte de 1986 a 2005, antes de se filiar ao PSOL.

Encontro dos movimentos de favelas no Rio reuniu Lula e Freixo – Foto Instagram

Porém, Cardoso destaca que a legenda enfrenta vários problemas, sendo um deles a pouca renovação de seu quadro de candidatos. Ao mesmo tempo, a vinculação intrínseca do ex-presidente Lula com a sigla gera uma dependência do PT de Lula, que elabora desafios para o futuro do partido. E no atual contexto político brasileiro, não há tempo para mudar essa realidade.

“Marcelo Freixo parece ter identificado no PSB as melhores condições para sua atuação política. É valido lembrar que o PSB, um tradicional partido de esquerda brasileiro, também já teve uma importante liderança política, a do ex-governador [de Pernambuco] Miguel Arraes, que deixou um relevante legado”, comentou Cardoso.

Para o cientista, ao olharmos para alianças mais amplas, o PSB identificou no apoio à candidatura de Freixo para governador do Rio de Janeiro uma decisão acertada. Além do deputado, para construção da estratégia nacional do partido, está sendo esperada ainda a filiação do governador do Maranhão, Flávio Dino, atualmente filiado ao PC do B. Segundo Cardoso, Dino se firmou como uma importante força da esquerda no país e opositor contundente de Bolsonaro.

A entrada de Marcelo Freixo e a provável filiação de Flávio Dino, ajuda a cria solidez no partido e promove uma sólida resistência no enfrentamento ao bolsonarismo pela sigla.

Marcelo Freixo, com o ex-presidente Lula, o cantor Chico Buarque, Manuela D’Avila e Monica Benicio, viúva da vereadora Marielle Franco, em campanha presidencial de Lula, Rio de Janeiro, 2 de abril de 2018

Freixo governador

Na visão de Cardoso, Marcelo Freixo é inteligente e conhecedor da condição dramática de seu estado. A disposição em negociar com forças políticas, dentro de certos limites, com programas diferentes dos que o deputado defende, é percebida como necessário, e, portanto, o pragmatismo se impõe.

Sobre a chance de Freixo ocupar a cadeira de governador no ano que vem, o cientista diz que ainda é cedo para fazer previsões, pois ainda não estão definidos os nomes que disputaram com o deputado o cargo. Mas Cardoso enfatiza que certamente Freixo é um candidato forte.

“Sua atuação como deputado estadual proporcionou reconhecimento e visibilidade como poucos outros. O conhecimento adquirido na CPI das Milícias e do Tráfico de Armas e Munições, hoje se firma como um capital importante e diferencial para se enfrentar vários dos problemas do Rio de Janeiro que se agravaram muito nos anos recentes”, disse o cientista.

Para Cardoso, o grave processo em curso no país, especialmente no Rio de Janeiro, de enfraquecimento das instituições e concomitante expansão da atuação de milícias, alçou a questão para um nível de prioridade que certamente estará no centro do debate da eleição de 2022, e segundo o cientista, Marcelo Freixo é o mais capacitado para propor medidas para contornar a situação.

Cardoso acredita que superada a pandemia, os desafios para o Brasil e para todos os países do mundo serão imensos, mas particularmente no Brasil, a reconstrução do país “exigirá muito de todos”.

A volta da nação a uma política externa ampla e bem elaborada deverá ser saudada, e para isso, é preciso desenvolver mudanças sistêmicas que possam promover a democracia e a Constituição. “A eleição de 2022 no Brasil merecerá a atenção do mundo, pois o que estará em jogo transcende a dimensão nacional”, disse Cardoso.

Marcelo Freixo, acompanhado de líderes de outros partidos, realiza coletiva de imprensa para apresentar iniciativas contra a Medida Provisória 1031/2021, que libera a privatização da Eletrobrás, Brasília, 19 de maio de 2021

Na última sexta-feira (11), após 16 anos no PSOL, o deputado federal, Marcelo Freixo, anunciou seu desligamento do partido e filiação ao PSB. Mesmo assim, Freixo fez questão de esclarecer que continuará na luta em conjunto à sigla.

Segundo Freixo, a eleição do ano que vem, mais do que ser uma disputa entre a direita e a esquerda, constitui “uma luta da civilização contra a barbárie”, além de ser um “plebiscito nacional sobre a Constituição de 1988”, pois para o deputado, a democracia está em risco com o bolsonarismo.

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