Fernando Brito, no Tijolaço, comenta a matéria de Rubens Valtente para a Folha, onde o veterano repórter trouxe de volta diálogo entre o senador Romero Jucá, a época  ministro do Planejamento e  o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado.

Do Tijolaço, por Fernando Brito

Os generais Sérgio Etchegoyen e Eduardo Villas Boas correram a desmentir as informações contidas no livro de Michel Temer, ainda não lançado, em que o vice-presidente revela ter consersado com ambos com vistas a obter apoio para derrubar a ex-presidenta Dilma Rousseff.

Curioso é que “desmentem” confirmando, isto é, admitindo que conversaram sobre a destituição de sua então comandante em chefe, numa clara afornta nao so à hierarquia militar como, claro, à ordem civil constitucional.

Hoje, o excelente repórter Rubens Valente, no UOL, junta peças do quebra-cabeças golpista para mostrar que estas conversas nada tinham de “mera troca de ideias”.

Ele recupera o trecho da fala de Romero Jucá, talvez o personagem mais próximo a Temer no MDB que foi vazada depois do afastamento de Dilma, mas que foi gravada quando, ainda e cinicamente, o partido integrava o governo. Diz Jucá

“Conversei ontem com alguns ministros do Supremo. Os caras diz (sic) ‘ó, só tem condições de [inaudível] sem ela. Enquanto ela estiver ali, a imprensa, os caras querem tirar ela, essa porra não vai parar nunca’. Entendeu? Então… Estou conversando com os generais, comandantes militares. Está tudo tranquilo, os caras diz (sic) que vão garantir. Estão monitorando o MST, não sei o quê, para não perturbar.”

Na conversa, discute-se afastar ou obrigar Dilma a uma licença, em troca de “parar tudo” nas apurações que se fazia contra o governo e contra Lula.

Não fica claro, apesar de óbvio, se, como e quando isso foi proposto. Mas os fatos evidenciam que, se foi, foi recusado.

Os “desmentidos” de Etchegoyen – na ocasião chefe do Estado Maior do Exército, e Villas Boas, seu comandante, estavam entre os militares que conspiraram – ao se oferecerem para “garantir” o golpismo – contra o poder legitimamente eleito. Como deixa evidente que à frente de suas motivações estava o desejo de manter encoberto o período em que o Exército foi desonrado pela presença de assassinos e torturadores em suas fileiras e seus comandos, matando e seviciando brasileiros, muitos deles cativos e indefesos

Foi um golpe e, ainda que não se possa reparar seus efeitos, é preciso conhecer a verdade, ou ela servirá apenas para a hipocrisia da citação bíblica de João: 8, 32, aquela que o presidente que Villas e Etchegoyen urdiram, dando-lhe trânsito nos quarteis e garantindo aos seus colegas de farda alguns milhares de “boquinhas” na Administração Federal.

Veja abaixo a íntegra do diálogo entre Jucá e Machado, publicado originalmente pela Folha em 23/05/2016:

Em conversa telefônica ocorrida em março passado e divulgada na segunda-feira (23/05/2016) pelo jornal Folha de S. Paulo, o ministro do Planejamento, Romero Jucá (PMDB-RR), sugere ao ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado que uma mudança no governo poderia “estancar a sangria” representada pela Operação Lava Jato.