País tem aproximadamente 10 milhões de indivíduos diagnosticados com a doença e uma média de 20 mil óbitos pela doença por mês

Por Daniele Monteiro – Fiocruz

Se desde o início da pandemia os números de óbitos por Covid-19 no Brasil já eram preocupantes, no dia 7 de janeiro ficou ainda mais visível a grande tragédia humanitária vivenciada pelo país. O dia registrou mais de 200 mil mortes pela doença em dez meses, uma média de 20 mil óbitos por mês. O Brasil é o segundo com maior número de mortes por Covid-19. São aproximadamente 10 milhões de indivíduos diagnosticados com a doença, sendo que a maioria das mortes está entre os mais pobres, que possuem menor acesso à saúde, educação, saneamento básico e moradia adequada.

O diretor da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP/Fiocruz), Hemano Castro, manifesta sua solidariedade com todas as famílias que sofreram perdas de entes queridos e alerta para a necessidade de políticas de distanciamento social, restrições de atividades não essenciais, reorganização do transporte coletivo e aumento de leitos intermediários e de UTI como medidas fundamentais para a redução da transmissão do novo coronavírus. “Sem medidas claras de restrição, teremos dificuldades de conter casos e mortes. Torcemos para que se inicie a vacinação o mais breve possível. E, mesmo com a chegada das vacinas, durante muito tempo ainda precisaremos manter as medidas sanitárias para o controle da pandemia”, alerta.

A pneumologista e pesquisadora ENSP, Margareth Dalcolmo, lembra que, em dezembro, pesquisadores da Escola previram que o país ultrapassaria 200 mil mortes na virada do ano, tendo em vista os comportamentos coletivos absolutamente equivocados, segundo ela, ao longo do último mês de 2020. “O que vemos hoje no Brasil é um recrudescimento importante do número de casos, materializando já uma Segunda Onda em diversas áreas urbanas do Brasil, com uma taxa de transmissão importante”, lamenta. Margareth também relembrou que as recentes mutações do vírus, as quais já circulam entre a população, agravam ainda mais o quadro, pois aumentam a capacidade de transmissão comunitária. “Esse número de 200 mil mortes deveria gerar em todos nós, sociedade civil e autoridades brasileiras, uma reflexão muito profunda sobre onde erramos e o que deixamos de fazer”, ressalta.

O momento, no entanto, segundo a pesquisadora, ainda desperta esperança com a chegada das vacinas, protagonizada por duas grandes instituições públicas brasileiras, a Fiocruz e o Instituto Butantã, capazes de dar resposta à epidemia no Brasil por meio da produção massiva de doses para cobrir a população. “Se mantivermos os cronogramas de ambas as instituições, poderemos vacinar grande parte da população brasileira nos próximos meses, fechando o primeiro semestre de 2021 já com uma imunidade comunitária alcançada, se tudo ocorrer bem, conforme se apresenta no momento”, adianta.

O movimento Frente Pela Vida publicou, no dia 7 de janeiro, nota na qual manifesta o seu mais profundo pesar pelas vidas perdidas e sua solidariedade com todos os trabalhadores da saúde e dos serviços essenciais que se mantêm em condições de risco na linha de frente de combate à Covid-19. A carta também faz um alerta sobre a ausência de um plano nacional de enfrentamento da pandemia. Enquanto mais de 50 países já começaram a imunizar suas populações, o Brasil ainda não tem um cronograma de vacinação contra a Covid-19. “A imunização é um dever do Estado e direito de todas as brasileiras e brasileiros. Os efeitos do agravamento da crise sanitária, social e econômica hoje em curso, atingirão todos os segmentos de nossa população e, de forma mais grave, as populações vulnerabilizadas.”, destaca a nota.

Além da necessidade urgente de um Plano Nacional de Imunização, o Movimento chama a atenção para a mobilização e união entre a sociedade brasileira e as instituições democráticas em prol da defesa da vida e da luta pela “garantia da vacina para todos, imediatamente, com toda a logística e recursos necessários”. Para tal, é fundamental, conforme destaca a nota, que haja “mais investimentos no SUS, tendo a saúde como direito de todas as pessoas e a manutenção da ajuda financeira emergencial com sua transformação em renda básica universal.”

Leia a nota de pesar e indignação da Frente Pela Vida.

Faltam protocolos que incluam a transmissão do vírus pelo ar

Enquanto não chegam as vacinas, a melhor forma de se proteger da Covid-19 é evitar o contágio. Desde o início da pandemia, deu-se muita ênfase na importância da higienização de objetos, já que uma das formas de contágio da doença é através de superfícies contaminadas. No entanto, segundo especialistas, pouco se falou sobre as medidas necessárias para se evitar a transmissão do vírus pelo ar, já que essa é a principal forma de transmissão da Covid-19, segundo a própria Organização Mundial da Saúde (OMS).

Um estudo publicado em novembro por cientistas da Universidade de Stanford, nos EUA, revelou que restaurantes, academias, cafés e bares possuem maior risco de contaminação pelo vírus, justamente por serem locais geralmente pequenos, fechados, com pouca circulação de ar e onde todos estão falando sem o uso de máscaras.

A transmissão do novo coronavírus ocorre pelo ar através de gotículas maiores expelidas quando a pessoa tosse ou espirra. Em julho de 2020, uma carta aberta assinada por pesquisadores de diversos países, dirigida à OMS, alertou que as partículas menores, expelidas pela fala, tosse ou espirro, também são uma importante forma de contágio. Se um indivíduo infectado expele essas micropartículas, elas permanecem no ar durante um tempo. Em um espaço fechado e pouco ventilado, essas microgotículas podem flutuar e serem inaladas por outra pessoa. “Por serem muito menores, elas podem permanecer no ar por mais tempo, tornando a infecção mais fácil”, explica a pneumologista da ENSP Patricia Canto. Daí a necessidade de adoção de protocolos em lugares fechados que incluam essa forma de transmissão pelo vírus, segundo especialistas.

Saiba mais como ocorre a transmissão do novo coronavírus pelo ar.