Filho do ex-vice de Lula, o empresário do setor têxtil  assumirá entidade em janeiro.

A partir de 1º de janeiro de 2022, o empresário Josué Gomes da Silva, dono da Coteminas, assumirá o comando da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. Filho do ex-vice-presidente da República José Alencar (nos dois mandatos do governo Lula), Josué substituirá o mais longevo presidente da entidade, Paulo Skaf – 17 dos 90 anos de existência da Fiesp. E terá pelo menos dois desafios: enfrentar um contínuo processo de desindustrialização e remodelar de alguma maneira a imagem da entidade, marcada nos últimos anos mais pela militância política do que pela agenda econômica.

Nesse ponto, a “contribuição” de Skaf foi decisiva. A Fiesp foi personagem ativo do processo de impeachment, em 2016. O gigantesco pato amarelo instalado no prédio da Avenida Paulista tornou-se um dos símbolos daquele movimento. Posteriormente, a ave foi substituída por um sapo, em ação contra os juros. O executivo foi duas vezes candidato a governador, em 2010 (pelo PSB) e em 2014, já pelo MDB, a convite de Michel Temer. A partir de 2018, tornou-se aliado de Jair Bolsonaro em São Paulo.

Peso na economia

Enquanto enfatizava o discurso político, a federação dos industriais paulistas viu diminuir o peso do setor na economia brasileira, um processo que segue em marcha. Em 2004, quando Skaf foi eleito, a participação da indústria no PIB nacional era de 28,6%, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI). No no passado, foi de 20,4%. Nos melhores tempos, respondia por quase metade do produto.

Além disso, de 2009 a 2018 o estado de São Paulo viu sua participação na produção industrial do Sudeste cair em 5,2 pontos percentuais. Ainda assim, responde por 57,2%. Em relação ao PIB, o estado como um todo encolheu de 34,9%, em 2002, para 31,6% em 2018, segundo o IBGE. E a participação paulista na produção automobilística despencou nas últimas décadas.

“Reforma” trabalhista

Enquanto isso, a direção da entidade passou a apoiar as ações do governo, como a “reforma” da legislação trabalhista, em 2017. No ano passado, chegou a divulgar vídeo defendendo medida de congelamento de salários dos servidores. Em fevereiro de 2020, as centrais organizaram protesto contra a presença de Bolsonaro no prédio da pirâmide (também conhecido como “ralador”) da Avenida Paulista, para um almoço. O presidente da CUT, Sérgio Nobre, manifestou respeito por diretores da entidade, mas comentou que a Fiesp havia se tornado um “aparelho político“.

Eleito em chapa única, Josué Gomes é visto como mais agregador. Presidente da Coteminas – dona de marcas como Artex e Santista –, ele, assim como Skaf, foi presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit). Também dirigiu o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). Tal como o pai, Josué enveredou pela política. Em 2014, concorreu ao Senado pelo MDB em Minas Gerais. Com 40% dos votos, ficou em segundo – perdeu para Antonio Anastasia (PSDB).

Relações instáveis

fiesp Ayrton Vignola/Fiesp
Depois de 17 anos, recorde de permanência, Paulo Skaf deixará o comando da Fiesp em janeiro para Josué Gomes da Silva (Ayrton Vignola/Fiesp)

O mandato de Josué será de três anos. O 1º vice é o empresário do setor têxtil Rafael Cervone, que foi eleito presidente do Centro das Indústrias, o Ciesp. Além dele, a chapa tem como 2º vice Dan Ioschpe, do Sindipeças (fabricantes de autopeças), e como 3º, Marcelo Campos Ometto, vice-presidente do Conselho de Administração da São Martinho, produtora de açúcar e etanol.

A relação entre movimento sindical e Fiesp foi marcada pelo conflito. Industriais paulistas foram apoiadores da ditadura, e nesse período foram elaboradas listas de trabalhadores considerados “subversivos”, questão que é investigada até hoje. Em 2013, a descoberta de um documento pela Comissão da Verdade em São Paulo apontou uma suposta presença de representante da Fiesp no Dops, ação negada pela entidade.

Em alguns momentos, essas forças se uniram em pactos pela recuperação da economia. A expectativa é sobre qual Fiesp emergirá no próximo período, ainda mais em ano eleitoral