Estudo presidente institucionalizou ações para atrapalhar enfrentamento do surto no país.

O governo Bolsonaro arruinou, de modo intencional, todas as estratégias de enfrentamento da pandemia de Covid-19 no Brasil. Um novo estudo da Universidade de Michigan, em parceria com a Fundação Getúlio Vargas, mostra como o governo institucionalizou a estratégia de sabotagem durante a pandemia, frustrando expectativas de autoridades de saúde de que o Brasil lideraria o enfrentamento da doença na América Latina. Ao invés disso, a gestão catastrófica da crise por Bolsonaro resultou na morte de mais de 380 mil brasileiros.

O estudo, que foi transformado em livro, baseia-se na análise de 60 especialistas sobre a atuação de 30 países em resposta à pandemia. 

De acordo com o levantamento, Bolsonaro usou sua autoridade como presidente para avançar na estratégia de ações a favor do vírus, com boicotes a estados e municípios – seja no repasse de verbas ou de equipamentos para leitos de hospitais – e o estímulo a aglomerações. Além disso, Bolsonaro investiu na produção de cloroquina e forçou a saída de dois ministros da Saúde que não concordaram com a adoção do protocolo para uso de um medicamento inútil no tratamento da doença.

O estudo  também observa que o então novo ministro, Eduardo Pazuello, aparelhou a pasta com militares, livrando-se de técnicos comprometidos com a ciência. “Bolsonaro interferiu no Ministério da Saúde como nunca antes visto no período democrático. Ele interveio em protocolos de tratamento e até no modo de divulgação dos dados da pandemia”, declarou ao Estado de S. Paulo a professora da FGV, Elize Massard, uma das autoras.

Segundo Massard, “não podemos voltar no tempo e rever a história, mas, se o presidente tivesse escolhido outros caminhos, o Brasil poderia ter apresentado um desempenho muito melhor. Poderíamos ser um exemplo”.

Os pesquisadores apontam a frustração da comunidade científica internacional com o Brasil porque o país construiu fama, em anos anteriores, de ser o mais preparado para a gestão de emergências de saúde na região. O bom histórico nas epidemias de Aids, hepatite C e H1N1 criaram uma grande expectativa sobre a atuação brasileira diante da Covid-19.

Medidas provisórias

O levantamento também menciona a edição de medidas provisórias para prejudicar ações de isolamento social, citando a inclusão de atividades não essenciais na lista de serviços que deveriam ser mantidos na quarentena, como salões de beleza, academias e igrejas. O estudo também aponta a tática da desinformação como fundamental para a não adesão de parte da população a medidas preventivas.

“Houve pouca coordenação entre os ministérios da Economia e da Saúde. Para combater a pandemia deve haver políticas sociais que protejam os trabalhadores e permitam às pessoas ficarem em casa”, constatou Massard.

Os pesquisadores reconhecem ainda que a catástrofe sanitária só não foi maior graças à estrutura de vigilância sanitária e da rede de atenção primária do Sistema Único de Saúde (SUS).

Da Redação, com informações de Estado de S. Paulo