Mulheres jornalistas fazem história ao debater, pela primeira vez, a violência no exercício da profissão.

 

Amazônia Real – Manaus (AM) – Em um dia histórico, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) promoveu, pela primeira vez em 74 anos de existência (foi fundada em 1946), atividades em diversas capitais do Brasil, em referência ao Dia de Luta das Mulheres Jornalistas (9 de março), para discutir a crescente violência de gênero contra as mulheres jornalistas durante o exercício da profissão. A discussão foi provocada após os atos de violência do presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), contra as jornalistas Patrícia Campos Mello, da Folha de S. Paulo, e Vera Magalhães, do Estado de S. Paulo, e fez parte das programações do Dia Internacional da Mulher, o 8 de Março.

Em Manaus, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Amazonas (SJPAM) realizou à noite a roda de conversa “A mulher jornalista diante dos ataques e violações à liberdade de imprensa e exercício da profissão”, contando com a participação de cerca de 50 pessoas, sendo a maioria mulheres jornalistas, professoras, estudantes de jornalismo, advogadas, entre outras profissões. O encontro na sede do sindicato, na zona centro sul da cidade, iniciou com 1 minuto de palmas de protestos aos recentes ataques sexistas, machistas e misóginos enfrentados pelas seguintes jornalistas este mês:

Auxiliadora (Dora) Tupinambá, presidente do SJPAM, que foi atacada nas redes sociais e no programa do apresentador Sikera Jr, da TV A Crítica e da Rede TV!; e Édila Chaves, do Portal do Holanda, ofendida pelo site CM7. As repórteres Larissa Balieiro, da rádio Difusora; Thais Gama e Thassya Simões, ambas da rádio BandNews Difusora; Pietra Telles, do Portal Camisa Doze, e Natasha Pinto, da Rede Diário do Amazonas, foram ofendidas pela torcida de homens do time do São Raimundo, durante a cobertura do campeonato de futebol, no Dia Internacional da Mulher, em 8 de Março – justamente a data na qual as mulheres protestam contra a violência em vários países.

1 minuto de palmas de protesto em repúdio a violência contra as mulheres jornalistas
(Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

A roda de conversa no SJPAM foi mediada pela jornalista e professora-doutora do Centro Universitário do Norte (UniNorte), Edilene Mafra, e contou com as participações das jornalistas: Ivânia Vieira, professora-doutora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e articulista do jornal A Crítica; Kátia Brasil, cofundadora da agência de jornalismo independente Amazônia Real; Marcela Rosa, criadora e gestora do Portal da Marcela Rosa; Rosiene Carvalho, comentarista de política da rádio Band Difusora FM e do blog da Rosiene Carvalho; e Steffanie Schmidt, secretária executiva do SJPAM.

“Estamos vivendo um momento muito difícil que nunca imaginei que passaríamos e acontece por causa da Era da Pós-Verdade, que começou durante a última eleição para presidente nos Estados Unidos quando o candidato Donald Trump usou a disseminação de informações falsas para atacar sua adversária, Hillary Clinton, que é mulher. O ataque às mulheres é a face cruel do desmantelamento da democracia. Por isso, nossa união é essencial nesse momento. Saímos daqui mais fortalecidas e bem preparadas para traçar estratégias mais eficientes para enfrentar esse contexto”, disse Edilene Mafra.

Enfrentamento e diversidade

Jornalistas protestam com palmas as violações à liberdade de expressão, de imprensa e exercício da profissão (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Para Ivânia Vieira, as mulheres jornalistas precisam conversar sobre a violência de gênero dentro e fora da redação. “À medida que não conversamos, ajudamos o patriarcado e a misoginia. À medida que somos colocadas como estranhas entre nós e não nos incomodamos com isso, naturalizamos os ataques contra mulheres. Aprendemos muito cedo a desqualificar mulheres. Por que aceitamos essa cultura que nos ofende? Essa cultura que, de forma estratégica, avança contra nós? Como podemos tecer formas de enfrentar essa cultura violeta que existe não só nos espaços das redações e que trabalha com esse sentimento de destruição e que nos torna porta-vozes dela?”, indagou a jornalista. “Juntos e juntas podemos reaprender a conversar”, completou Ivânia, que é doutora em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Ufam, e participa do Fórum Permanente de Mulheres de Manaus (FPMM) assim como Kátia Brasil.

Em sua fala, Kátia Brasil chamou atenção para os anos de silenciamento das mulheres jornalistas dentro das próprias instituições que representam a categoria. “Após 74 anos, a Fenaj, enfim, implanta de fato uma Comissão de Mulheres. O Sindicato dos Jornalistas do Amazonas, com 62 anos de existência, tem a sua primeira presidente mulher, mas não tem uma comissão de mulheres. As jornalistas nunca tiveram um espaço para discutir a violência”, questionou a jornalista, que relatou vários casos de assédio e ameaças que sofreu, inclusive de morte, durante a produção do jornalismo investigativo. Ela iniciou a carreira em 1990, quando se formou no Rio de Janeiro, e trabalhou em Roraima, antes de se mudar para o Amazonas, em 1993.

Kátia destacou que no meio das jornalistas ainda há muito preconceito para a pauta feminista, “sendo que foi por causa delas que as mulheres brasileiras conquistaram muitos direitos ao longo dos anos”. A jornalista disse também que pouco se pratica nas redações o debate étnico-racial, “sendo que estamos na Amazônia”, e não se discute a diversidade de gênero por preconceito. “Vejo aqui que temos poucas mulheres negras presentes e somente uma indígena, que é a Elaíze Farias, cofundadora da Amazônia Real. Precisamos dar espaço à diversidade. É importante a união de mulheres, inclusive das LBTs. Temos mulheres trans que se formam em jornalismo e não conseguem emprego, não as vemos nas redações por puro preconceito. Outras são perseguidas e ameaçadas pelos próprios colegas de redação. Isso precisa mudar”, disse a jornalista, que foi uma das fundadoras do Sindicato dos Jornalistas de Roraima, junto com a colega Márcia Seixa, a primeira presidente mulher do sindicato, em 1992.

Sem medo de se posicionar

Steffanie Schmidt, Marcela Rosa, Edilene Mafra e Kátia Brasil durante roda de conversa sobre violência (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Com vasta experiência em televisão acumulada ao longo de 27 anos de profissão, a jornalista Marcela Rosa chamou a atenção do público presente ao relatar uma agressão física que sofreu por um ex-prefeito do município de Fonte Boa, no interior do Amazonas, durante a cobertura de um festival folclórico, na década de 1990.

“Ele estava torcendo para um item [da agremiação] e achou que eu estava privilegiando o adversário. Então ele simplesmente me empurrou no chão”, contou. “Em outra ocasião, um dos meus editores não gostou de uma matéria sobre uma denúncia que fiz a respeito de falta de medicamentos no município de Novo Airão (AM) e pisoteou meu texto”, acrescentou. “Esses episódios que vivi são da década de 1990. O que eu quero dizer é que as violências contra jornalistas não são um acontecimento recente, elas acontecem há anos”.

O silêncio e a omissão que alimentam o machismo, a misoginia e os ataques à democracia foram condenados pela jornalista Rosiene Carvalho, primeira mulher a integrar a equipe da coluna de política Sim&Não, do jornal A Crítica, no período de 2011 a 2014. Ela também fez uma análise dos dados de violência contra os jornalistas divulgados pela Fenaj recentemente: foram 208 ataques a veículos de comunicação e jornalistas em 2019, o que representa um aumento de 54% em relação a 2018. Do total, 114 casos foram de descredibilização da imprensa e 94 de agressões diretas a profissionais. O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) foi responsável por 58% destes ataques, chegando a 121 casos.

Encontro histórico reuniu cerca de 50 pessoas no SJPAM na noite do dia 9 de Março
(Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Para Rosiene, que tem cerca de 15 anos de profissão, os brasileiros não podem se omitir ao comportamento hostil do presidente da República em relação às jornalistas e às agressões à democracia.

“Estamos vendo que o momento é de risco de ruptura democrática. Ataques à imprensa sempre ocorreram, mas hoje estão simbolizados no presidente da República e associados a tentativas de abalar também a legitimidade e credibilidade do parlamento e do judiciário. Esses foram processos pelos quais passaram países em que houve ruptura democrática. Bolsonaro, neste contexto, se apresenta como representante desse projeto. Os jornalistas são os primeiros atacados e os sintomas desse cenário são muito claros. Então, em função disso, não tem como optar pela omissão ou falsa isenção. Os jornalistas e as jornalistas têm a função e obrigação de se posicionar e defender a democracia”.

Steffanie Schimidt diz que a história de luta das mulheres foi apagada
(Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Na avaliação da secretária executiva do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Amazonas (SJPAM), Steffanie Schmidt, os ataques às jornalistas são direcionados a uma categoria de maioria feminina. “O jornalista precisa se enxergar enquanto categoria e não como profissional autônomo. Temos que nos conhecermos e nos reconhecermos. O Dia Internacional da Mulher nasce de uma causa operária, trabalhista. Ao longo do tempo, ela foi suavizada e essa história é apagada. A quem interessa apagar o protagonismo da mulher?”, provocou.

A professora da Ufam, Ivânia Vieira, destacou, ainda, que o discurso machista não é só dos homens, fazendo referência à pesquisa divulgada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), que mostra que 90% da população mundial têm algum tipo de preconceito contra mulheres.

“Entre os brasileiros, 77,95% das pessoas pesquisadas se revelaram mais preconceituosos na questão da integridade física da mulher, incluindo a violência doméstica e os direitos reprodutivos. Isso mostra uma verdadeira pandemia desta violência”, disse.

Repercussão entre as estudantes

Jullie Pereira relatou a violência lesbofóbica na redação
(Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Das estudantes que participam da roda de conversa “A mulher jornalista diante dos ataques e violações à liberdade de imprensa e exercício da profissão”, na sede do SJPAM, Maria Fernanda Melo, 19 anos, que faz o 5º. período de Jornalismo da Faculdade Fametro, disse que ouvir as experiências das convidadas vai prepará-la melhor para exercer a profissão. “Não podemos ignorar o assédio que está presente na nossa vida, dentro de casa, no trabalho, na rua. O jornalismo precisa discutir isso. Gostei de ouvir sobre as experiências compartilhadas pelas jornalistas. Isso me leva a refletir sobre a minha profissão. Isso vai me preparar para o que eu vou enfrentar e assim vou saber como me posicionar”, disse.

Jullie Pereira, de 21 anos, que cursa o último período de jornalismo da Ufam, se disse provocada pela jornalista Kátia Brasil quando esta citou o preconceito com a discussão sobre diversidade de gênero dentro das redações. A estudante, que se declarou bissexual, relatou que se sente sozinha pela indiferença à diversidade de gênero no ambiente do trabalho.

“Quero convidar vocês, mulheres heterossexuais, a serem empáticas. Me senti muito sozinha e atacada nas vezes em que revelei gostar de mulheres e de homens. É preciso dar atenção a esse recorte do feminino, que somos nós, mulheres bissexuais, lésbicas, trans. Nós também somos mulheres, mães e parceiras”, afirmou Jullie revelou outras formas de agressões.

“O didatismo também vira violência, quando temos que explicar a diferença entre ser gay e ser trans. Passei por isso quando tive que explicar a um colega mais velho (da redação) a diferença entre as preferências sexuais e quais são as palavras certas que devem ser usadas para escrever sobre pessoas LGBTs”, disse.

Primeira mulher presidente

Dora Tupinambá foi atacada nas redes sociais por uma apresentador de TV
(Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Já no final da roda de conversa, Dora Tupinambá, se sentiu confortável e acolhida para falar sobre o ataque que sofreu do apresentador da TV A Crítica, Sikera Jr. Ela explicou que o caso está na esfera judicial. “Quem condena é juiz, não jornalista”, limitou-se a dizer.

“Mas o que mais chama a atenção é a omissão institucional. Estamos em um estado onde a chefe do Ministério Público é mulher, a Delegada Geral da Polícia Civil é mulher, a dona da emissora de TV é mulher, assim como boa parte da equipe do programa que ele apresenta. Por isso, temos que aproveitar ocasiões como essa e instigar as instituições a se manifestarem”, disse.

Os ataques a Dora aconteceram após o SJPAM divulgar nota em defesa de jornalistas da TV A Crítica que estariam sofrendo constrangimentos e ameaças de demissão. A situação foi provocada por um vídeo postado pelo apresentador no seu perfil em uma rede social dizendo que a emissora passaria por mudanças, insinuando que envolvia a demissão de quem tinha uma orientação política “contrária ao desenvolvimento do país”, entre outras coisas. O vídeo surgiu após a divulgação de vagas de emprego nas redes sociais da emissora.

Para Rosiene Carvalho, os ataques a Dora e ao sindicato foram, na verdade, direcionados a todos os jornalistas. “Temos que ampliar nossa capacidade de percepção enquanto categoria. Não dá para um jornalista, no momento em que se vive hoje, ser imparcial, isso é omissão, pois nossa profissão é um dos pilares da democracia”, disse Rosiene Carvalho.

Os homens presidiram o sindicato por 60 anos: sem equidade na categoria
(Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Sob as fotografia em preto e branco de 14 ex-presidentes do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Amazonas (SJPAM) estampadas na parede do prédio da entidade, desde a sua criação em 18 de dezembro de 1958, a jornalista Dora Tupinambá, primeira mulher a presidir o sindicato, destacou que entre os membros da Diretoria Executiva, somente ela e a secretária executiva Steffanie Schmidt são mulheres.

“Como vocês podem ver, o sindicato também reflete o que estamos discutindo aqui. Só estamos eu e Steffanie presentes”, disse ela, que apontou para o jornalista Jorge Miguel da Silva Pinheiro, o único homem da diretoria presente na mobilização e organização da roda de conversa sobre a violência contra às jornalistas.

Como resultado da roda de conversa, Dora disse que o sindicato vai criar uma comissão de mulheres, a exemplo do que a Fenaj fez. “É para discutir o fazer jornalístico, a pauta e análise de conteúdo entre nós e com outras mulheres feministas que já estão na luta. Já que somos maioria na categoria, que estejamos bem preparadas para isso. O evento é apenas o pontapé inicial para retomarmos o trabalho de reaproximação para que a categoria se sinta ‘donos da casa’ e se sintam à vontade para compartilhar experiências entre si e com a novas gerações”.

#Lutecomoumajornalista

Foto Sindicato do Rio de Janeiro

Assim como em Manaus, jornalistas mulheres de outras seis capitais também se mobilizaram em 9 de março, que marcou o Dia de Luta das Mulheres Jornalistas contra os assédios moral e sexual e os ataques machistas, sexistas e misóginos às profissionais da carreira.

Em nível nacional, o evento em referência ao Mês da Mulher, foi organizado pela Comissão de Mulheres da Fenaj, que é formada por representantes de 21 sindicatos do país. A iniciativa lançou a hastag #lutecomoumajornalista na internet para visibilizar a campanha de combate a violência.

Em Salvador, a Comissão de Mulheres do Sindicato dos Jornalistas da Bahia (Sinjorba) fez visitas aos veículos de comunicação e assessorias de imprensa para convidar as profissionais para um bate-papo ainda este mês.

Foto Sindicato da Bahia

Jornalistas de João Pessoa, capital da Paraíba, visitaram as redações para  convidar as mulheres para a roda de conversa “O machismo na mídia e nas redações”, que acontecerá neste sábado, dia 14 de março.

O Sindicato dos Jornalistas do Piauí ofereceu, na capital Teresina, um café da manhã em homenagem às mulheres. Nas redações, as jornalistas foram ao trabalho vestindo uma camisa lilás, cor do feminismo, com os dizeres da campanha #Lutecomoumajornalista.

No Rio de Janeiro mais de cem mulheres jornalistas marcharam da Candelária à Cinelândia, no centro da cidade, com cartazes e faixas nas mãos pedindo respeito, a defesa da democracia, o combate à violência e a preservação dos direitos garantidos por lei a todos os cidadãos.

Na capital do Paraná, Curitiba, aconteceu uma mesa de diálogo no evento “Dia de Luta das Mulheres Jornalistas”.

Em Natal, capital do Rio Grande do Norte, foi realizada a exibição do documentário “Mulheres jornalistas – histórias, memórias e vidas”, de Edileusa Martins de Oliveira, e um debate sobre os desafios das mulheres no exercício da profissão. O debate foi mediado pela diretora da Fenaj, Ana Paula Costa. As falas, segundo o sindicato, reforçaram a urgência no combate a relações de poder abusivas e preconceitos contra as mulheres.

Em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, as jornalistas integraram a Marcha das Mulheres, que reuniu milhares de pessoas na luta por justiça e democracia e contra as ações dos governo federal e estadual. As jornalistas também integraram o ato na Esquina Democrática com cartazes e camisetas com a hastag #Lutecomoumajornalista, organizadas pelo sindicato da categoria no estado.

Roda de conversa no Sindicato dos Jornalistas do Amazonas com o tema: “A mulher jornalista diante dos ataques e violações à liberdade de expressão, de imprensa e exercício da profissão (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

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