Gonçalo Vecina criticou autoridades do ministério por não darem prioridade para a compra do imunizante da Pfizer, aprovado nesta semana pelo Reino Unido

RBA – São Paulo – Ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o infectologista Gonzalo Vecina Neto disse que não haverá vacinas contra a covid-19 suficientes para atender toda a população mundial em 2021. Diante desse cenário, ele afirmou que o governo brasileiro tem que “apostar em todas”, buscando diversificar a compra dos imunizantes. Por isso, classificou como uma “monstruosidade” a intenção do ministério da Saúde de deixar de fora a vacina da Pfizer.

Desenvolvida em parceria com a BioNtech, a vacina da Pfizer foi aprovada nesta quarta-feira (2) pelo Reino Unido. Sua aplicação deve ser iniciada já na semana que vem.

A vacina da Pfizer requer refrigeração a – 80° C, enquanto as geladeiras das salas de vacinação pelo país operam com temperaturas entre 2º e 8ºC. Nelas, esse imunizante teria apenas cinco dias de validade.

Essa questão, contudo, já teria sido solucionada pela própria fabricante, que promete garantir a estrutura necessária para a sua distribuição. Contêineres com gelo seco garantiriam a durabilidade da vacina por até 15 dias.

Ao todo, seriam 20 dias de prazo para fazer a substância chegar até a população. Para Vecina, cabe ao ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, garantir a eficiência do esquema de distribuição.

“É só fazer o que o general sabe fazer, que é a logística. Essa é a especialidade dele. Já que ele não entende nada de saúde, é por aí que tem que caminhar. O que não pode é desprezar uma solução que está na porta da nossa casa”, destacou o médico, em entrevista a Glauco Faria, no Jornal Brasil Atual.

Recuo em relação à vacina

Após a polêmica declaração do secretário, o ministério da Saúde voltou atrás. O próprio Medeiros, em vídeo postado no Youtube, afirmou que o órgão “não descarta nenhuma vacina”. No entanto, o ministro Pazuello, em audiência pública no Congresso Nacional nesta quarta (2), reclamou dos cronogramas, quantidades e preços oferecidos pelos laboratórios.

Segundo Vecina, é importante adquirir a vacina da Pfizer, bem como as demais em teste no Brasil, mesmo que seja em menor quantidade. Como desenvolveram parte dos seus estudos clínicos no país, elas contarão com a aprovação emergencial da Anvisa.

Da AstraZeneca, desenvolvida em parceria com a Universidade Oxford, o ministério afirmou que deve receber 100 milhões até o fim do primeiro semestre. O que atenderia a 50 milhões de pessoas, já que são necessárias duas doses. Outras 160 milhões de unidades seriam fabricadas até o final do ano que vem, em parceria com a Fiocruz.

O governo de São Paulo, em parceria com o Instituto Butantan, adquiriu outras 46 milhões de doses da Coronavac, da chinesa Sinovac. Na manhã desta quarta-feira (3), 600 litros de insumos – equivalente a 1 milhão de doses – chegaram ao estado. Outras 120 mil doses já haviam sido recebidas no mês passado.

Além das citadas, também está sendo testado no Brasil o imunizante da farmacêutica belga Janssen-Cilag, pertencente ao grupo norte-americano Johnson & Johnson.

Testes no lixo

O ex-presidente da Anvisa também criticou as falas do ministro sobre 6,8 milhões de testes para diagnóstico da covid-19, próximos do vencimento, estocados em um armazém do governo federal em Guarulhos. Segundo Pazuello, as datas de validade dos kits RT-PCR serão prorrogadas, e terão sua utilização garantida. Ainda assim, disse que mais importante do que os testes RT-PCR são os diagnósticos clínicos determinados pelos médicos.

Segundo Vecina o teste RT-PCR é considerado o “padrão-ouro” dos diagnósticos para a covid-19. Após a sua aplicação, caso o resultado seja positivo, é possível fazer o rastreamento das demais pessoas que tiveram contato com o infectado. Além disso, apenas com o diagnóstico clínico, segundo o infectologista, é mais difícil convencer a pessoa que testou positivo a se isolar, medida necessária para interromper a cadeia de transmissão.

Por outro lado, Vecina afirmou que a maior parte desses testes acabará indo para o lixo, independentemente da prorrogação do prazo de validade. Isso porque ele não é adequado para o maquinário utilizado na maioria dos laboratórios do país. Ele não culpou as autoridades de saúde por esse equívoco, dada a pouca informação disponível no momento em que eles foram adquiridos. Mas afirmou que Pazuello deveria assumir essa falha, em vez de continuar “enganando a distinta plateia”.