Enquanto presidente sugere tratamento com desinfetante, 1 milhão de pessoas estão contaminadas pelo coronavírus no país

Lu Sudré -Brasil de Fato-SP – Depois de semanas minimizando a gravidade do novo coronavírus, Donald Trump se depara com um cenário crítico: existem mais de 1 milhão de casos da covid-19 confirmados no país, de acordo com monitoramento da universidade Johns Hopkins divulgado na última terça (28).

Os EUA lidera a previsão para o número de contaminações na pandemia; Brasil aparece em seguida – Foto: Saul Loeb/AFP

Com um sistema de saúde completamente privado e descaso com as populações mais pobres do país, conforme denunciam ativistas, o número de mortos nos Estados Unidos também crescem exponencialmente.

Segundo informações do Centro de Controle de Doenças (CDC), 57.505 mil mortes haviam sido registradas no país nesta quinta (30), sendo que 2.247 óbitos aconteceram nas últimas 24h.

Para Leonardo Valente, diretor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), houve um erro colossal do governo Trump ao não avaliar corretamente o potencial da pandemia. Devido às posturas do presidente, ele acredita que o país continuará sendo o maior país com números de mortos e infectados.

“É possível que os EUA ultrapassam facilmente os cem mil mortos. É possível que chegue ao teto dos 200 mil dependendo de como as coisas vão evoluir. A situação é muito complicada. A resposta atrasada fez com que a situação ficasse muito deteriorada, mais do que na Europa”, avalia o especialista.

Desserviço público

O maior número de contaminação global durante a pandemia foi atingido dois dias depois do republicano sugerir injeções de desinfetante ou álcool isopropílico para ajudar no tratamento contra o coronavírus.

Segundo informações da rede americana NBC, o centro de controle de envenenamento da cidade de Nova York recebeu 30 chamadas relacionadas ao uso de desinfetante nas 18 horas seguintes à fala do presidente.

A declaração, condenada internacionalmente e considerada irresponsável, é mais uma entre outros posicionamentos polêmicos de Trump desde o início da pandemia, que, assim como Bolsonaro, declarou diversas vezes que o coronavírus era “só uma gripe” e que a pandemia não estaria avançando no país.

:: Brasil chega a 78.162 casos confirmados da covid-19, com mortalidade de quase 7% ::

Em resposta, o repúdio entre a comunidade médica e nas redes sociais também foi amplo. “Em vez de sermos questionados sobre como melhoramos nossa resposta à covid-19 nos próximos meses, os médicos estão sendo solicitados a comentar por que as pessoas não devem beber coisas como água sanitária ou álcool isopropílico. Isso tem que parar”, criticou Craig Spencer, diretor do Hospital Presbiteriano Columbia de Nova York, em seu perfil no Twitter.

Até mesmo a marca Lysol,  fabricante de desinfetantes, emitiu um aviso severo de que “sob nenhuma circunstância nossos produtos desinfetantes deveriam ser administrados ao corpo humano (por injeção, ingestão ou qualquer outra via)”.

Outros interesses

Trump compartilha ainda outra similaridade com Bolsonaro, que também declarou que o coronavírus seria apenas “uma gripezinha”. Os presidentes têm defendido arduamente o fim do isolamento social em nome da economia.

Segundo Valente, há outros fatores entrelaçados à defesa da questão econômica que tem determinado a política de Trump. O primeiro deles é a eleição presidencial, prevista para novembro deste ano.

“Há uma preocupação do Trump em garantir sua reeleição e isso não é pouca coisa no atual cenário. A segunda questão é a geopolítica. Essa pandemia está provocando movimentações da China que estão mais aceleradas que o habitual, provocando fenômenos geopolíticos que estão fazendo com que os americanos tenham uma preocupação maior com os chineses e como vai ficar o mundo pós pandemia”, analisa.

Mesmo em meio à situação de calamidade pública dos EUA, Trump tem acelerado o processo de expulsão de imigrantes sem documentos no país.

Há mais de um mês, o republicano determinou uma medida que permite que agentes do Serviço de Alfândega e Proteção de Fronteiras “devolvam” estrangeiros sem documentos sem a necessidade de abrir um processo.

As novas regras afetam, principalmente, detidos vindos de México, Guatemala, El Salvador e Honduras, que são enviados ao México ou ao Canadá. Ao anunciar a medida, Trump declarou que imigrantes indocumentados “têm problemas que eu não quero conhecer e, em muitos casos, são criminosos”.

O diretor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) sublinha que nem mesmo as respostas ruins da pandemia são suficientes para que o presidente estadunidense deixe a corrida eleitoral de lado.

“A política eleitoral é fortemente direcionada, inclusive, para o combate da imigração ilegal. As políticas de extrema direita que conhecemos bem do Trump, diante da pandemia estão sendo ajambradas sob justificativa de disseminação da doença, o que é, obviamente, uma hipocrisia que não faz sentido, mas faz sentido pro eleitor do Trump”, comenta Valente.

Brasil & EUA

Conforme informações divulgadas pelo Ministério da Saúde brasileiro nesta quarta (29), existem 78.162 casos confirmados da covid-19, com mortalidade de quase 7%. Somente nas últimas 24 horas, houve 6.276 novos casos e 449 novas vítimas fatais.

Por lá, Donald Trump indica desinfetante para o tratamento da covid-19 de forma completamente irresponsável. Aqui, Bolsonaro tenta se desviar de sua responsabilidade enquanto chefe de Estado, sendo manchete nos principais veículos do país todos os dias.

Durante entrevista recente em frente ao Palácio da Alvorada, por exemplo, uma jornalista comentou que o Brasil havia passado a China em relação ao número de mortes. A resposta de Bolsonaro foi imediata: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre”, disse Bolsonaro, em referência a seu segundo nome.

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Enquanto o capitão reformado demonstra descaso com o crescimento vertiginoso das vítimas da covid-19, até mesmo Donald Trump, a quem Bolsonaro não poupa elogios, declarou estar preocupado com a pandemia no Brasil.

Na última terça (28), o republicano afirmou que “acompanha de perto” o que chamou de “surto sério” de novo coronavírus em terras brasileiras.

O republicano comentou ainda que o país tomou um rumo diferente no combate à pandemia de Covid-19 na comparação com outros países da América do Sul.

Trump e Bolsonaro defendem o fim do isolamento social, colocando a população dos dois países em risco / Foto: Jim Watson/AFP

Durante a coletiva de imprensa, Trump questionou Ron De Santis, governador da Flórida, se ele não cogitava banir voos vindos do Brasil para o estado, possibilidade que havia sido mencionada pelo próprio presidente no começo de abril e que foi implementada com voos vindos da China e da Europa.

Na análise de Leonardo Valente, novamente os cifrões devem pesar mais e proibição não irá acontecer, já que a Flórida tem laços econômicos muito fortes com o Brasil.

Perspectiva negativa

A curva de mortes da pandemia no Brasil, conforme avaliação e monitoramento do Observatório Covid-19, que reúne especialistas de 7 instituições e mede a “velocidade” da doença no país, pode ser ainda maior. Sem as medidas de isolamento necessárias, cidades brasileiras correm risco de repetir situação de Europa e EUA.

No preocupante cenário, a defesa de Bolsonaro pelo isolamento vertical (estabelecer quarentena apenas para as pessoas do grupo de risco) é diariamente criticada pela comunidade médica e pela sociedade civil.

Relatório divulgado nesta quarta-feira (29) pelo Imperial College, de Londres, confirmou o diagnóstico. O estudo indicou que o Brasil é o segundo país com previsões mais críticas para o número de mortes nas próximas semanas. A análise foi feita com base na tendência de crescimento da taxa de contágio do novo vírus.

O país deverá ficar atrás somente dos Estados Unidos, que lidera a previsão para o período. As duas nações são as únicas enquadradas na categoria “muito alta” de transmissão.

:: Entenda como os pesquisadores chegaram a essa conclusão :: 

Além de ser o segundo com a maior previsão de mortes, o Brasil está entre os seis países com a menor confirmação de casos diante da quantidade efetiva.  Numa lista de 48 nações, o país é listado entre os nove em que a doença ainda registra tendência de crescimento.

“A política norte-americana é extremamente ruim, foi extremamente ruim. O que está acontecendo lá é fruto disso. É de uma resposta muito falha. Acredito que só não seja mais falha do que a nossa no Brasil”, critica Valente, especialista em Relações Internacionais.

Ele lamenta que em um momento de calamidade pública, que carece de investimento do Estado, o governo opte por privilegiar os setores econômicos em detrimento da perda humana que já é sentida em todos os estados do país.

“Os prejuízos que o governo Bolsonaro vai acarretar no Brasil são gigantes. Vidas não têm retorno. A sensação que me passa é de uma enorme insensibilidade para a questão de boa parte do governo. Uma insensibilidade e um pensamento que vai contra o próprio governo. Não faz sentido incentivar a economia com pessoas morrendo”, acrescenta.

“Fora Trump”

Desde o início da pandemia nos EUA, o republicano tem sido alvo de constantes protestos. Na sexta-feira passada, dia 24 de abril, por exemplo, dezenas de pessoas protestaram em frente ao Trump International Hotel de Washigton DC.

Elas ergueram cartazes com diversas frases como “Trump mente, pessoas morrem”, em referência às declarações sem comprovação científica desde o início da pandemia.  Motoristas estacionaram os carros na avenida e buzinavam enquanto os ativistas jogaram réplicas de corpos ensacados na calçada do luxuoso hotel.

“Todos os dias pessoas estão morrendo desnecessariamente porque não temos testes disponível. Nós não temos o equipamento de proteção pessoal adequado. Não temos o planejamento adequado. Não temos a liderança adequada. Precisamos que o presidente renuncie”, disse um dos ativistas ao Democracy Now. 

A denúncia em relação à falta de testes já havia sido registrada pelo Brasil de Fato em entrevista com a ativista Njimie Dzurinko, do Put People First. (Pessoas em primeiro lugar, tradução livre em português), organização que atua em defesa do direito à saúde da população americana em diversos estados do país e principalmente na Pensilvânia.

“Não existem testes amplos, para todos. Eles são muito limitados e racionados. Estamos em uma situação em que, ao invés do Estado manejar os recursos para garantir que o vírus não se espalhe, acaba sendo uma decisão individual. Cada pessoa se isolando e se perguntando se está carregando o coronavírus ou se irá ficar doente. É uma situação aterrorizante, na qual ninguém deveria estar”, disse Dzurinko.

 

Edição: Leandro Melito