Estudo internacional vai comparar como os países responderam à COVID-19 Projeto liderado por pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas e da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, visa coletar dados primários durante a pandemia para criar um repositório que sirva como base para estudos futuros. Resultado da análise comparada será divulgado em livro (imagem: Wikimedia Commons)

Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – A eficácia da resposta dos países à COVID-19 tem sido medida pelo número de casos e de mortes pela doença, assim como pelo “achatamento da curva” – termo que já se tornou famoso e faz referência à necessidade de retardar a disseminação do novo coronavírus para evitar o colapso do sistema de saúde. No entanto, um grupo internacional de pesquisadores pretende ir além desses indicadores e discutir como e por que os países adotaram determinadas estratégias para enfrentar a pandemia e, assim, entender o que possibilitou ou impediu que suas respostas fossem bem-sucedidas.

O estudo, apoiado pela FAPESP e coordenado por pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas e da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, vai virar um livro com análises comparativas entre países e regiões. O projeto prevê ainda a coleta de dados primários durante a pandemia e a criação de um repositório que sirva como base para estudos futuros – com informações coletadas de jornais, mapeamento dos principais atores políticos, comunicação dos governos e sobre como foram formuladas as políticas públicas.

“Vou colaborar com a análise comparativa entre todos os países e também com o capítulo sobre o modo de enfrentamento brasileiro. O Brasil tinha tudo para dar uma boa resposta à pandemia, mas, infelizmente, não o fez. Temos infraestrutura de pesquisa e saúde relativamente robustas, além de um histórico positivo de combate a epidemias, como as causadas pelos vírus HIV, da Aids, e zika. Talvez um dos principais problemas tenha sido o negacionismo científico, que já vinha sendo bem pavimentado com a negação das mudanças climáticas”, afirma Elize Massard da Fonseca, professora do Departamento de Gestão Pública da Fundação Getúlio Vargas e coordenadora da pesquisa.

De acordo com Fonseca, desde o ano passado ações no âmbito das relações internacionais e também problemas com a divulgação dos dados de desmatamento já haviam sinalizado um certo descrédito em relação à ciência. “É possível notar semelhanças entre a condução da pandemia e do meio ambiente. Já havia um discurso contrário à questão climática e era dada uma maior importância ao eventual desenvolvimento econômico da Amazônia do que à conservação. São discursos parecidos de desprezo à ciência e de uma hipotética oposição desses fatores à economia, algo que em nenhum dos casos tem fundamento estabelecido”, diz.

A questão dos dados é outro problema, que se tornou central, de acordo com a pesquisadora. “Informações confiáveis são essenciais para o planejamento e a transferência de recursos em saúde. No caso da COVID-19, isso é ainda mais importante. É preciso ter dados quase em tempo real para a tomada de decisões rápidas, como o afrouxamento da quarentena ou a compra de equipamentos”, diz à Agência FAPESP.

Segundo a pesquisadora, o país sempre dispôs, desde a redemocratização, de dados epidemiológicos e de vigilância sanitária confiáveis, que permitiam mapear as diferenças e as necessidades regionais – entre elas as relacionadas ao enfrentamento de doenças e epidemias como a Aids.

“Temos vários sistemas de informação e monitoramento de doença infecciosa regionalizados que incluem informações de planejamento. Com isso, já se sabia quais regiões teriam maior dificuldade de enfrentar a pandemia e, a partir dos dados contidos nesses sistemas de informação tão completos, desenhar políticas públicas específicas para essas regiões”, diz.

A pesquisadora ressalta que, embora exista muita dificuldade para obter dados, uma das vantagens de fazer pesquisa no Brasil está na confiabilidade das informações disponíveis. “Esse período é uma exceção no Ministério da Saúde, que, desde a redemocratização, tem sido composto por um quadro bastante técnico, apesar de serem, em muitos casos, cargos de confiança. Isso não é achismo, é baseado em dado de pesquisa do nosso grupo, que tem levantado o perfil de ministros, secretários e diretores de áreas desde os anos 1980. São quadros que tendem a ser da área de saúde, que conhecem o sistema de saúde e entendem a importância e a necessidade desses dados”, diz.

No olho do furacão

O primeiro artigo do projeto de pesquisa foi publicado na revista Global Public Health em que os pesquisadores argumentam ser impossível compreender os efeitos das diferentes respostas à pandemia sem a análise aprofundada do cenário político e das políticas públicas adotadas pelos países.

Dessa forma, de acordo com os pesquisadores, a metodologia de análise do estudo envolve inicialmente quatro questões como principais influenciadoras para o enfrentamento da COVID-19: histórico de resposta a epidemias e crises sanitárias anteriores, capacidades estatais (por exemplo, robustez dos sistemas de vigilância epidemiológica) e o nível de coordenação entre as unidades federativas do país e a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Outros quesitos que serão abordados nas análises por países são a comunicação, o regime de governo (autoritário ou democrático) e o tipo de política social adotado para enfrentar a crise econômica que vem acoplada à crise sanitária.

“As medidas de enfrentamento adotadas tendem a ser parecidas por causa do perfil da doença, pelas recomendações da OMS e pela observação do que funcionou nos primeiros países afetados pela epidemia, como a quarentena em Wuhan, a testagem em massa e o rastreamento adotados na Coreia do Sul. Vamos tentar entender o que funcionou de acordo com as características dos países e fazer uma análise comparada, entendendo que tipo de variáveis regionais ou institucionais é possível identificar entre esses países”, diz à Agência FAPESP.

Curiosamente, mostrou a pesquisadora, países que tiveram ações desastradas no passado têm demonstrado hoje melhor capacidade de resposta. “Um exemplo é a África do Sul, que deu uma resposta muito ruim à epidemia de Aids no passado, quando o presidente à época chegou a negar a importância de políticas públicas de enfrentamento. Anos depois, em outra epidemia, o país tem demostrado uma resposta relativamente boa”, diz.

A despeito de a análise de resposta a uma pandemia, com possíveis ressurgências e novas ondas, exigir certo distanciamento temporal, existe também urgência em coletar dados primários e identificar explicações para o sucesso ou insucesso no combate à COVID-19.

“É um momento muito difícil para fazer qualquer análise, estamos no olho do furacão e com tudo acontecendo ao mesmo tempo. Qualquer tentativa de analisar crises e fazer pesquisa em ciências sociais exige certo distanciamento. Portanto, esse trabalho é um grande desafio, é um fenômeno dinâmico demais que muda a todo o tempo. No entanto, não deixa de ser importante por conseguirmos coletar dados primários que são de extrema importância e também por sermos um dos primeiros grupos do Brasil a participar desses estudos comparativos, cuja expectativa é explicar o que está acontecendo”, diz.

O artigo The comparative politics of COVID-19: The need to understand government responses (doi: 10.1080/17441692.2020.1783340), de Scott L. Greer, Elizabeth J. King, Elize Massard da Fonseca & Andre Peralta-Santos, pode ser lido em https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/17441692.2020.1783340″_.