11/09/1973: Há 47 anos, militares chilenos apoiados pelos Estados Unidos derrubaram um presidente democraticamente eleito e instalaram uma ditadura sanguinária que matou cerca de 30 mil seres humanos.

Luís Felipe Machado de Genaro*, Pragmatismo
Político

No dia 11 de setembro de 1973, quando Salvador Allende saiu pelas portas do La Moneda em chamas e observou aviões da Força Aérea Chilena sobrevoando e bombardeando o Palácio Presidencial, ele já sabia. Em punhos carregava uma arma que Fidel Castro havia lhe dado de presente. Allende nunca a usaria. Não era de seu feitio. O socialismo chileno transcorreria por vias pacíficas dentro da legalidade burguesa. Jamais concordou com isso a oligarquia, os ricaços, setores da classe média chilena e as forças políticas de Washington.

Durante seis horas Allende resistiu. O Palácio foi incendiado. Seus companheiros, assassinados. As Forças Armadas traidoras tomariam o poder e deflagrariam uma ditadura militar sanguinária. Os sonhos de um Chile livre, soberano e socialista havia acabado, assim como os de uma América Latina integrada – a Pátria Grande – que tanto o presidente proferia e desejava. A brutalidade que se seguiu contra opositores e seguidores de Allende foi inigualável.

Acredito que alguns discursos (e ações) são indispensáveis para compreendermos as tentativas de se transformar radicalmente as estruturas políticas, sociais e econômicas do continente latino-americano – desiguais e violentas. A Primeira Declaração de Havana, proferida por Castro, em 1960; o discurso de Gabo na entrega de seu Nobel de Literatura, em 1982; as palavras de Lula no dia de sua posse como presidente do Brasil, no Congresso Nacional, em 2002.

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No entanto, o discurso de Allende transmitido pela “Radio Magallanes” durante o ataque ao La Moneda talvez seja um dos ‘documentos’ mais importantes para apreendermos, de fato, como a indiferença, o desprezo e a brutalidade das classes dominantes do continente continuam fazendo o seu sangue jorrar, deixando as suas veias abertas. E de tempos em tempos, somos invadidos pelo desespero do eterno retorno do mesmo.

Hoje em áudio e de fácil acesso, sempre ecoarão as palavras de uma liderança forte e engajada que se plasmou ao seu povo com o ímpeto de transformar a realidade miserável de milhares de trabalhadoras e trabalhadores de uma região historicamente marcada pela exploração e a pobreza. Mesmo diante da barbárie sanguinolenta que se iniciava após o onze de setembro de 73 – e Allende sabia disso – as suas palavras não eram de ódio e rancor, mas um alerta voltado ao povo trabalhador, operários e camponeses não só do Chile como de todo o mundo, os verdadeiros sujeitos da História, clamando, naquele momento, para que se defendesse, não desistisse, não desanimasse.

Em seu discurso, entre a freqüência com muitos chiados, o barulho das vozes em desespero, o estouro dos bombardeios, Allende, com o rádio em mãos, também deixou uma mensagem clara aos oligarcas e para a classe dominante latino-americana mesquinha, parasitária e antinacional: “La historia es nuestra y la hacen los pueblos”.

*Luís Felipe Machado de Genaro é historiador, mestre em história
pela UFPR e professor da rede municipal de Itararé