Denúncias de corrupção, suspeitas de participação de membros da família no assassinato da vereadora Marielle Franco e desequilíbrio mental do presidente reforçam análises sobre a sua incapacidade de continuar à frente dos destinos do país.

Cresce nas análises dos principais veículos jornalísticos do país a sensação de que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) perdeu as condições morais para seguir como chefe da Nação. Editoral do jornal Estado de São Paulo, publicado neste sábado, 21/12, vai direto ao ponto: “‘Bolsonaro faltou com decoro ao reagir raivosamente ao noticiário de suspeitas contra Flávio’ e pode ser alvo de impeachment, por quebra de decoro ao agredir jornalistas na saída do Palácio da Alvorada, na tarde de sexta-feira. Questionado sobre as denúncias de corrupção que envolvem o seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, o presidente perguntou ao jornalista se ele tinha o recibo de que sua mãe tinha dado para o seu pai.

No editorial o Estadão pontua:

  • É fato que Bolsonaro transformou sua retórica inflamada e muitas vezes ofensiva em uma marca pessoal.
  • Também é fato que Bolsonaro, desde que assumiu a Presidência, costuma recorrer à agressividade sempre que precisa mobilizar a militância bolsonarista para intimidar adversários políticos. A esta altura está claro que Bolsonaro não conhece outras formas de fazer política.
  • Nada justifica que o presidente tenha se dirigido a jornalistas da forma como fez, com ofensas ginasianas a respeito da sexualidade de um repórter e do comportamento da mãe de outro.
  • Ao agir dessa maneira, Bolsonaro não apenas se apequena como presidente, como dá a entender que está acuado diante das suspeitas que recaem sobre seu filho Flávio – o senador teria se beneficiado de esquema de desvio de recursos públicos e lavagem de dinheiro quando era deputado estadual no Rio de Janeiro.
  • Mas o presidente parece simplesmente incapaz de se comportar de acordo com o cargo que ocupa e de compreender que esses maus modos, ao criar atritos e cizânias, podem prejudicar a recuperação do País justamente no momento em que se verificam bons sinais na economia. O decoro no exercício da Presidência não é um capricho; é, antes, a consciência da responsabilidade – e dos limites – de quem conduz os rumos da nação, como chefe de Estado e de governo. Não é qualquer um que pode ocupar a cadeira presidencial, por mais que o atual presidente queira apresentar-se como um homem comum. A deferência ao cargo de presidente da República é, antes de mais nada, deferência à própria noção de República, em que todos devem se submeter à lei – e mesmo a mais alta autoridade do País não pode fazer ou dizer o que lhe dá na cabeça. Honestidade e compostura devem emanar da cadeira presidencial.

Porta-voz da Globo, Merval defende impeachment

“Motivos Bolsonaro já deu de sobra, e a falta de decoro de ontem é apenas mais uma, e não será a última”, diz Merval.

“O presidente Jair Bolsonaro vem numa escalada de falta de compostura que beira a insanidade. O episódio de ontem, em que destratou jornalistas, demonstrando falta de educação e preconceitos, é próprio de quem se sente acuado, e de fato o presidente está acuado, pela queda de sua popularidade, pelas limitações que as instituições democráticas lhe impõem, pelas denúncias contra seu filho Flávio, que envolvem toda uma família ampliada que, pelas acusações do Ministério Público do Rio, vivia às custas do Erário público”, diz o jornalista Merval Pereira, em sua coluna no jornal O Globo, com o título “Sem compostura”.

“O impeachment já está colocado e, como é um instrumento sobretudo político, será acionado, ou não, quando as forças políticas no Congresso desejarem. Motivos Bolsonaro já deu de sobra, e a falta de decoro de ontem é apenas mais uma, e não será a última”, aponta.

“A investigação contra o senador Flávio Bolsonaro certamente está abalando a já desequilibrada personalidade do presidente, embora a punição dificilmente acontecerá em razão direta das denúncias do Ministério Público. Mas podem atingir o presidente no correr das investigações”, afirma ainda o jornalista.

Reinaldo Azevedo defende interdição

“O ‘evento’ — já que entrevista não foi — protagonizado por Jair Bolsonaro nesta sexta, às portas do Palácio da Alvorada, não é próprio de uma pessoa no pleno gozo das chamadas ‘faculdades mentais'”, diz o jornalista Reinaldo Azevedo, em sua coluna no UOL.

“Sabemos que Bolsonaro é reacionário, agressivo, homofóbico, misógino… E essas características se manifestaram na sua conversa com repórteres, com as manifestações de praxe de seus seguidores, que representam o coro da boçalidade da bolha de opinião na qual é herói”, afirma ainda o jornalista.

“Sim, estou convencido de que Bolsonaro tem um problema que é clínico. Suas respostas, a meu juízo, o evidenciam com clareza. Ocupa, no entanto, um lugar de quem está obrigado a responder por seus atos. O único remédio que o institucionalidade tem de ministrar a ele é o triunfo da lei. O Brasil não pode se transformar em seu hospício privado”, finaliza.

As agressões verbais do presidente

 

O site Conversa Afiada registrou o episódio envolvendo o presidente Jair Bolsonaro e jornalistas, na porta do palácio da Alvorada. Segundo o site, em conversa com a imprensa na manhã de sexta-feira 20/12, ao ser questionado por um repórter do Globo sobre a investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro contra seu filho Flávio e ex-funcionários de seu gabinete – entre eles o ex-assessor Fabrício Queiroz, aquele das “rachadinhas” – Bolsonaro reagiu com um chilique:

“Você tem uma cara de homossexual terrível. Nem por isso eu te acuso de ser homossexual. Se bem que não é crime ser homossexual”, responde o descontrolado presidente.

Mais adiante, o presidente pergunta aos jornalistas: “o processo é segredo de Justiça ou não é? Respondam!”, diz Bolsonaro.

“Respondam, porra!”, repete o Jair Messias, batendo o punho na grade do Palácio da Alvorada.

O mesmo repórter insiste e pergunta a Bolsonaro sobre um cheque de R$ 24 mil reais pago por Queiroz à primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Desde dezembro, Bolsonaro afirma que trata-se de parte da quitação de um empréstimo de R$ 40 mil.

O repórter pergunta ao presidente se ele teria um comprovante do tal empréstimo.

Jair Bolsonaro, novamente, responde de forma enlouquecida: “oh rapaz, pergunta para a tua mãe o comprovante que ela deu para o teu pai, tá certo?”

No Equador, já houve interdição de presidente

No artigo “O Brasil é o Equador amanhã“, relatamos a história do presidente  equatoriano Abdalá Bucaram, eleito em 1996 e que governou apenas seis meses, sendo retirado do poder pelos deputados após um governo caótico, com escândalos de corrupção na família que irritou o povo, a classe politica e empresarial do país. O governo de Bucaram  se caracterizou por um alto nível de corrupção e por grande excentricidade do presidente. Bucaram chegou a dar shows de rock com a banda Los Iracundos, planejou contratar Diego Maradona para seu time de futebol e deu várias festas na residência presidencial.

A Folha de S. Paulo registrou a queda de El Loco, em matéria no dia 18 de fevereiro de 1997, relatando que  “o então presidente foi destituído, no último dia 6, por maioria simples dos parlamentares de seu país que, por meio de uma interpretação controvertida da Constituição, alegaram “incapacidade mental” do então presidente, que usa o apelido de “El Loco’.

Segundo o filósofo alemão Karl Marx, “a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”.  Na comparação entre o Equador e Brasil, a escolha não é entre tragédia ou farsa, mas entre democracia e fascismo, e parece que a grande mídia corporativa resolveu dar o grito de basta!

 

 

 

Leia a íntegra do Editoral do Estadão

Confira a coluna de Merval Pereira, no jornal O Globo

Acesse o texto de Reinaldo Azevedo na Folha/UOL

Veja a íntegra da matéria do Conversa Afiada