Dia Internacional da Enfermagem, o 12 de maio marca a luta dos profissionais de saúde do Brasil contra a falta de equipamentos de proteção e a política irresponsável do governo federal diante da pandemia de Covid19 que já fez 12 mil vítimas fatais no país.

Hoje, 12 de maio, é comemorado o Dia Internacional da Enfermagem. Mas, infelizmente, não se tem muito o que comemorar. Neste dia o Brasil registra 881 novos casos da Covid19, e chega a 12 mil mortes. Os enfermeiros (as) que estão na linha de frente desta luta são os mais afetados. Até agora, no Brasil, há mais de 160 mil infectados confirmados. Segundo o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), há cerca de 12 mil enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem entre infectados e suspeitos de terem contraído a doença. Todos foram afastados com suspeita ou confirmação de estarem com o novo coronavírus. Infelizmente, 94 já perderam a vida.

O Brasil hoje é o primeiro país do mundo em mortes de profissionais de enfermagem, superando Estados Unidos, Espanha e Itália juntas. O número de profissionais mortos no país em decorrência do novo coronavírus representa cerca de 38% do número de mortes em todo o mundo, contabilizado em 260 casos pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Estes guerreiros que estão na vanguarda no combate ao coronavírus, trabalham em condições precárias, com jornadas exaustivas de até 30 horas,  sem equipamentos de proteção individual (EPIs) e sem o compromisso do governo federal em protegê-los.

“O risco que correm os enfermeiros e enfermeiras que estão na linha de frente é absurdo, mas o nível de infecção e de mortes de enfermeiros no Brasil está tragicamente acima do que vemos em outros países. Já são mais de 98 vítimas fatais só na enfermagem, e isso tá ligado à falta de EPIs, à falta de comprometimento que esse governo teve de garantir a proteção de quem tá colocando a vida em risco para salvar a vida de milhares de brasileiros. Ninguém manda soldado pra guerra sem colete, sem capacete”, denunciou o médico e deputado  Jorge Solla (PT-BA).

Para o médico, ex-ministro da Saúde e  deputado federal  Alexandre Padilha (PT-SP),  as trabalhadoras e trabalhadores de enfermagem do Brasil são os grandes guerreiros da linha de frente que não deixam os pacientes sozinhos em nenhum momento.

“São eles que cuidam da orientação, que coordenam ações, que fazem a busca ativa e que coordenam as ações de vigilância”. Padilha também deixa claro que não existe a possibilidade de salvar vidas e reduzir os sofrimentos sem um Sistema Único de Saúde fortalecido; e não existe SUS sem o profissional de enfermagem protegido.

Jorge Solla parabeniza quem segue na luta, mas diz que hoje também é dia de luto pelas baixas que a categoria já teve. “Deixamos nosso pesar a cada família que ficou órfã e prometemos seguir na luta para que se garanta a segurança adequada para os profissionais de saúde”, destacou.

Divulgação

UTI de hospital para atendimento às vítimas da Covid-19, em Manaus

Governo promove genocídio

Alexandre Padilha também lamentou as mortes dos profissionais brasileiros que já superam a Itália e Espanha juntos, e condenou o projeto ou a falta de projeto de Bolsonaro para salvar vidas. “Esse é o lado perverso desse projeto genocida de Bolsonaro. De um lado estimula a população a se expor à infecção querendo atingir logo 70% da população infectada, como ele mesmo disse; e ao mesmo tempo deixa os trabalhadores e trabalhadoras de saúde desprotegidos e quem mais sofre com isso são os profissionais de enfermagem que não largam nunca a mão do paciente”, afirma o parlamentar.

Jair Bolsonaro segue menosprezando as milhares de morte no Brasil, que já somam mais 11 mil vítimas, e editando decretos que flexibilizam o isolamento social recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Projetos de lei

A Bancada do PT na Câmara dos Deputados apresentou diversos projetos de lei para os profissionais de saúde que estão na linha de frente no combate ao novo coronavírus.

O PL 1914/2020, por exemplo, dispõe sobre direito à indenização por danos extrapatrimoniais e sobre a concessão de pensão especial à dependentes de trabalhadores dos serviços essenciais à sociedade que, em razão de suas atribuições, foram obstados a aderir ao isolamento social e vieram a falecer em razão da Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus.

Jornada de 30 horas

Por inciativa do deputado  Frei Anastácio (PT-PB) e subscrito por outros deputados, há uma discussão também para debater o projeto de lei (PL 2295/2000), que dispões sobre a redução da jornada de trabalho de 30 horas para enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem em todo o Brasil. O projeto ainda não foi pautado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

O PL 2335/2020 que tornar obrigatório o uso de máscara protetoras faciais, confeccionadas de forma artesanal ou industrial, em ambientes fechados de uso comum, estabelecimentos comerciais, bancários, industriais, de prestação de serviços, em locais de livre circulação de pessoas, bem como em transportes públicos e individuais de passageiros, enquanto durar a emergência de saúde pública de importância internacional decorrente do novo coronavírus.

Déficit de profissionais e sobrecarga
Hoje, o Brasil conta com mais de 2 milhões de profissionais dessa área, entre enfermeiros, auxiliares e técnicos de enfermagem. Porém, segundo a OMS, há déficit de profissionais no setor em todo o mundo.
No relatório mais recente lançado pela organização, em abril deste ano, a estimativa é de carência de 6 milhões de profissionais. Nas Américas, o déficit seria em torno de 800 mil trabalhadores.

Um dos motivos que explica tal cenário é justamente porque faltam boas condições de trabalho: as jornadas são muito longas, os salários insuficientes e os riscos muito altos.

“A gente pode dizer que é a única categoria que atua 24 horas diretamente com o paciente. E nós estamos adoecendo muito por conta disso. Por conta da jornada extensa. Ficamos aí muitas e muitas horas expostas, muito mais do que qualquer profissional”, aponta a enfermeira fiscal do Coren, Isadora Renata, que deu seu relato no seu horário de intervalo, também concorda com a sobrecarga.

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Falta de equipamentos
Causa comum para a contaminação é a falta de equipamentos de proteção individual, ou a quantidade insuficiente desses itens ou ainda a qualidade dos materiais.

“A gente trabalha em situações adversas. Muitas vezes com equipamentos de proteção, no caso da covid-19, inadequados, escassos, sem treinamento. A gente sempre encontra profissionais muito estafados, muito fatigados, existem múltiplas cargas de trabalho e acredito que isso interfere bastante no contexto geral do profissional de saúde”, afirma Souto, que é responsável pela fiscalização do uso dos EPIs nas instituições de saúde.

Agressões
No contexto brasileiro, em que o líder do governo questiona a gravidade da pandemia e estimula constantemente a quebra do isolamento proposto como regra mundial pela OMS, esses profissionais têm ainda que lidar com ataques e perseguição.  Caso emblemático aconteceu no último dia 1º de maio, em Brasília (DF), onde profissionais da saúde realizavam uma manifestação simbólica e pacífica reivindicando melhores condições de trabalho e foram atacados por militantes bolsonaristas.

No vídeo que registrou o momento e circulou pela internet, foi possível ver três agressores e ouvir a fala de um deles: “Vocês amanhã vão pagar por tudo o que vocês estão fazendo com a nação, seus covardes. Vocês consomem o nosso fruto do suor, nós construímos essa nação. O dia que os empresários pararem de trabalhar nessa terra, vocês não receberão”.

Sobre o caso, foi descoberto que um dos manifestantes que proferiu o ataque era Renan da Silva Senna, funcionário terceirizado do governo que compõe quadro do ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, chefiado por Damares Alves.

O Conselho Regional de Enfermagem (Coren) pediu que as vítimas registrem as ocorrências individualmente e o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) entrou com uma representação no Ministério Público contra os três agressores dos enfermeiros e protocolou o documento na delegacia para abertura de inquérito policial.

Com informações da Agência Câmara, Cofen, UOL e Brasil de Fato