Leonardo Boff e Padre Júlio Lancellotti acreditam que documento convida o Mundo a introduzir equidade em suas relações sociais, políticas e econômicas.

Por Redação RBA– Jornal L’Osservatore RomanoSão Paulo – A terceira encíclica escrita pelo Papa Francisco foi divulgada no último domingo (4) pelo Vaticano. Com o título Fratelli tutti (Todos irmãos), o pontífice aponta caminhos a uma “revolução fraternal” para frear os “dogmas neoliberais” que resultam na exclusão social e só fortalecem o individualismo.

Na avaliação do teólogo, filósofo e escritor Leonardo Boff e do Padre Júlio Lancellotti, a encíclica convida as sociedades do Mundo para introduzir uma equidade, ou seja, dar a cada pessoa o que ela necessita. Nesse sentido, na opinião deles, o Papa critica a iniquidade e a meritocracia, responsável pela exclusão e pelo elitismo.

Boff, por exemplo, diz que o documento aponta caminhos para um mundo melhor a longo prazo. “Essa encíclica é uma revolução de rumo, porque a nossa cultura é baseada na dominação, seja de povos, natureza e classes. Contra isso, o Papa propõe a fraternidade e uma cultura baseada no amor social. É um novo rumo para que todos se salvem e precisamos tomar a sério esse documento”, afirmou à jornalista Marilu Cabañas, da Rádio Brasil Atual.

O teólogo acrescenta ainda que a fraternidade defendida pelo Papa na Encíclica se contrapõe à economia política atual, “sem alma e perversa”, mas que só é possível de ser alterada após construir uma consciência de cidadania e humanidade, a partir da base da sociedade.

“Só (é possível transformar) começando de baixo. Nas grandes reuniões de movimentos sociais, a gente não espera nada de cima. É preciso criar uma democracia participativa, uma economia comunitária, uma produção orgânica. É preciso criar justiça social, sem isso não haverá paz”, acredita Leonardo Boff.

‘Uma Encíclica política’

Na sua terceira Encíclica ao mundo católico, em seus sete anos e meio de pontificado, o Papa Francisco afirma que o neoliberalismo é um “pensamento pobre, repetitivo, que propõe sempre as mesmas receitas diante de qualquer desafio que se apresente”.

Em outro trecho, em que fala de como diferentes faces da sociedade devem buscar a convivência e o respeito mútuos, o papa cita um trecho de “Samba da Bênção”, do poeta e compositor brasileiro Vinicius de Moraes (1913-1980): “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro na vida”, escreveu.

Para o Padre Júlio Lancellotti é uma carta social, mas “fortemente política”. “Ele condena o neoliberalismo, chamando a atenção para a solidariedade e socorro aos mais fracos. Ele aponta que uma boa política é aquela que pensa no bem comum. Como diz o próprio Papa Francisco, no sistema neoliberal os pobres são descartados”, explicou.

Em outro capítulo, o Papa Francisco critica o ressurgimento do nacionalismo fechado e agressivo, criando novas formas de egoísmo, que resulta na perda do sentido social mas é mascarado por uma suposta defesa dos interesses nacionais.

O pároco acredita que o trecho fala sobre a situação dos governos de Brasil e Estados Unidos, mas vai além:

“O Papa está chamando a atenção para a questão dos imigrantes e refugiados, onde os governos do primeiro mundo deixam que essas pessoas morram afogadas no Mar Mediterrâneo, sem acolhê-los. O pontífice lembra que, em tempos de pandemia, há um vírus mais letal: o individualismo”, acrescentou Júlio.

O documento, de 84 páginas, pode ser lido na íntegra aqui.