Entidades classistas brigam pela reabertura das atividades econômicas no momento em que os números indicam aumento de contaminações pelo coronavírus.

Marcus Vinícius

Cresce nas capitais e cidades de grande porte a pressão pela reabertura das atividades econômicas. Goiânia, Aparecida e Anápolis não são casos isolados. Este movimento existe em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte também.  As empresas pressionam as entidades classistas que por sua vez cobram dos prefeitos mais flexibilidade nas regras do isolamento social. O resultado é que quanto mais se abre a economia, mais pessoas se contaminam com o novo coronavírus.

Os registros das autoridades sanitárias mostram que o números de infectados aumenta no Brasil. Goiás é o Estado que mais apresentou casos da doença nas últimas semanas. Segundo matéria publicada pelo jornal O Popular, o Estado teve um aumento de 89% nos contágios entre o dia 13 (7.941 infectados) e 20 de junho (14.979 casos). O mesmo ocorreu em outros estados do Centro-Oeste, onde há grande pressão pelo “novo normal”, com Mato Grosso registrando aumento de 61%, Mato Grosso do Sul, 45% e Brasília, 44%.

O foco dos empresários está errado. Ao invés de pressionarem os prefeitos pela reabertura do comércio, serviços e indústrias, deveriam estar na porta do Palácio do Planalto cobrando do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), medidas efetivas de combate à pandemia, e os recursos prometidos para o financiamento das empresas.

Reprodução Infográfico O Popular

Mais testes, menos mortes

As contaminações pelo covid19 tiveram início em dezembro na China, e logo a seguir atingiram vizinhos deste país como Coréia do Sul e Singapura. Com a experiência acumulada pelas pandemias de Sars e Gripe Aviária, o que fizeram estes países? Testaram em massa, e foi só assim que registraram pequeno número de contágio e de mortes. Na Coréia do Sul são 12.484 infectados e 281 óbitos, em Singapura, 42.432 casos e somente 26 mortes. O mesmo fez a Alemanha de Angela Merkel, que está retomando as atividades econômicas.

O Brasil é o país que menos testa no mundo. Copiou os Estados Unidos, e não por acaso,  ambos ocupam as primeiras posições na pandemia, sendo 1,113 milhão de contaminados no Brasil, com 51.406 óbitos, e 2,357 milhões de contágios nos EUA  com 122.162 mortos.

Novo normal não é abrir shoppings, a feira Hippie ou o comércio na Rua 44. Novo normal é não morrer gente.  A reabertura total do comércio, indústria e serviços vai expor milhares ao contágio, fazendo colapsar o sistema de saúde no Estado.

Há uma ilusão entre os muito ricos de que estão à salvo porque possuem meios de internação em hospitais particulares, e portanto, para eles não vai faltar UTI e respirador. Esta é uma aposta de altíssimo risco, porque o agravamento da pandemia vai obrigar os hospitais particulares a cederem leitos para o SUS (Sistema Único de Saúde) e aí pode não haver respiradores para todos. Há que se pensar também que quanto maior o número de contágios, mais tempo levará para as condições sanitárias se restabelecerem. Ou seja, quanto mais infectados, pior para a economia.

Vários economistas da chamada linha desenvolvimentista defendem que o Brasil deve imprimir mais dinheiro irrigando a economia com crédito barato para garantir o capital de giro das empresas e a manutenção dos empregos.  Um dos defensores desta tese é Luiz Gonzaga Beluzzo (ex-ministro do Planejamento no governo Sarney). Em entrevista à RBA, Beluzzo disse que a capacidade do Estado de emitir moedas traria benefícios sociais, capazes de reintegrar as pessoas que hoje estão fora do circuito monetário. Os governos dos Estados Unidos, Japão, Canadá, Reino Unido já imprimiram mais dinheiro para defender suas economias, garantindo também que a população mais vulnerável receba amparo do Estado.

Colocar mais dinheiro em circulação, via auxílio emergencial, crédito subsidiado ou compras estatais é o caminho para reaquecer a economia. “Com dinheiro, as pessoas começam “a comprar as coisas, e se elas podem comprar, elas vão comprar em lojas, que vão encomendar das empresas. Então isso faz parte da reconstituição do circuito mercantil”, explica Belluzzo. “No Brasil isso está demorando para ocorrer. Aliás está ocorrendo de maneira muito imperfeita e lenta, e que não tem cabimento, porque aqui a ficha deles (do governo federal) ainda não caiu. Não é uma pandemia na saúde apenas, é um ‘pandemônio econômico’, que só pode ser na verdade enfrentado com uma ação muito firme do Estado,” critica.

Em entrevista à Folha de S. Paulo, o professor Luis Carlos Bresser Pereira (ex-ministro da Fazenda nos governos Sarney e FHC) disse que a emissão de moeda é uma “solução óbvia” e, se for bem controlada e com um objetivo claro, não causa inflação, e o dinheiro pode ser usado nos gastos de combate à pandemia de coronavírus, tanto na saúde, quanto na economia, com o pagamento do auxílio emergencial de R$ 600, por exemplo.

Não se trata, literalmente, de imprimir dinheiro. Bresser-Pereira defende que isso seja feito por meio da compra de títulos públicos pelo Banco Central, algo que está em discussão por meio da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) do orçamento de guerra, que está no Congresso.”Se o Tesouro passa a dever para o Banco Central, e o Tesouro e o Banco Central são dois órgãos do Estado, é claro que não houve nenhum aumento da dívida do Estado, só uma mudança de quem é credor internamente. Você pode dizer que isso é uma emissão de moeda”, afirma.

Enquanto o governo federal não age, a conta do desgaste político e do dano social causados pelo covid19 recai sobre os prefeitos e os governadores, que tem menos recursos para combater a pandemia do que o governo federal. Somente num esforço conjunto entre as três esferas do Poder Executivo (União, Estados, Municípios), esta crise pode ser devidamente debelada.

Por mais legítimas que sejam as preocupações dos empresários na garantia de seus negócios, é preciso uma mudança de foco nas atuações classistas. O grande capital ganhou muito com as reforças realizadas pelo ministro da Economia Paulo Guedes. CNI (Confederação Nacional das Indústrias), Fiesp (Federação das Indústrias de São Paulo) e CNA (Confederação Nacional da Agricultura) saudaram a Reforma da Previdência e os continuados cortes na Legislação Trabalhista, que trouxeram ganhos no lucro real das empresas. Mas numa crise desta proporção ninguém se salva sozinho. A pandemia está ceifando mão-de-obra qualificada, mercadoria escassa no Brasil. O descontrolado número de infectados mancha a imagem do Brasil no exterior, e já causa reações, como o fechamento para vôos do Brasil para os Estados Unidos e a Europa, principais parceiros comerciais e fornecedores de capital do país.

É preciso que as empresas e os empresários parem de mirar apenas no varejo da crise, e mudem o foco para o atacado. Pressionar prefeitos e governadores não muda nada. Somente com uma ação organizada  junto ao governo federal será possível pensar num novo normal para os próximos meses.