Abrir mão da OMC (Organização Mundial do Comércio),  romper a relação comercial com a China em favor dos Estados Unidos, trocar o comércio com os países árabes pela parceria com Israel, desmanchar a parceria comercial com a Argentina. Envergonhar os brasileiros que moram e trabalham nos Estados Unidos.  Quebrar barreiras à exportação do trigo norte-americano para o Brasil. Entregar a Base de Alcântara (MA) aos Estados Unidos. Privatizar todo o Pré-sal. Aprovar a compra da Embraer pela Boeing. Acabar com a exigência de vistos para norte-americanos, japoneses e canadenses e humilhar brasileiros que moram nos EUA. Estas foram as principais consequências da viagem de três dias  do presidente Jair Bolsonaro (PSL-RJ) à Washington, Capital dos Estados Unidos. Todas elas, são absolutamente contrárias aos interesses do Brasil, e prejudicam, profundamente os setores que apoiaram maciçamente a campanha de Bolsonario à presidência.
OMC
Uma das principais críticas a agenda de Bolsonaro nos EUA é da jornalista Miriam Leitão. Comentarista de economia para a GloboNews, e com coluna diária no jornal o Globo, Miriam considera gravíssima a sinalização de Bolsonaro de que o Brasil vai deixar a OMC, porque assim pediu o presidente-norte americano, Donald Trump. Ela deixou isto claro no artigo: “Um acordo desequilibrado”, onde adverte para a irresponsabilidade do presidente brasileiro:
“O Brasil fez concessões concretas e recebeu apenas promessas na visita do presidente Jair Bolsonaro a Washington. É isso que se conclui da leitura do Comunicado Conjunto. Há muito a perder no comércio externo, abrindo mão das vantagens que países em desenvolvimento têm dentro da Organização Mundial do Comércio (OMC). Em troca, o que o Brasil recebe? Um aviso de que os Estados Unidos apoiarão o nosso esforço de entrar na OCDE, cuja grande vantagem é meramente abstrata”.
Fato: o Brasil é mestre em derrotar os EUA na OMC. Entre as maiores vitórias brasileiras ao protecionismo americano são contra as barreiras dos EUA às exportações brasileiras de Algodão (2002), suco-de-laranja (2010) e contra a patente dos remédios contra a Aids (2007), que garantiu ao Brasil a fabricação dos remédios genéricos, tendo Goiás como um dos grandes pólos produtores nas cidades de Anápolis e Aparecida de Goiânia.
Além dos EUA, o Brasil derrotou o Canadá (1996) na disputa entre a Embraer e a Bombardier, e a União Européia na vitória do açúcar (2010) onde a OMC reconheceu que o nosso país era alvo de competição injusta em função dos subsídios dados aos produtores europeus de açúcar.
Ao agir sabujamente e atender ao pedido de Trump, tirando o Brasil da OCM – que aliás foi presidida entre 2013 a 2017 por um brasileiro, o diplomata Roberto Azevêdo de Carvalho -, Bolsonaro expõe novamente os produtores brasileiros à competição desleal dos EUA, da União Européia e da própria China. É uma estupidez sem tamanho, para dizer o mínimo.
Viralatismo
Comentarista da Rádio CBN, o jornalista Kennedy Alencar lembrou a máxima do jornalista e escritor Nelson Rodrigues, de que o brasileiro tem “complexo de vira-latas”. A expressão foi cunhada em 1950 – com a derrota do Brasil para o Uruguai, em pleno Maracanã, na Copa do Mundo.  Kennedy considerou  que Bolsonaro e seu filhok o deputado federal Eduardo Bolsonaro,  se investem deste complexo nas ” lamentáveis  declarações sobre imigrantes brasileiros em situação de ilegalidade nos EUA.
Em entrevista à BBC News Brasil, Natalícia Tracy, criticou as falas dos Bolsonaros. Dirigente de uma das principais associações de imigrantes brasileiros nos EUA,  ela disse que as declaração do presidente e do deputado Eduardo Bolsonaro de que “a grande maioria dos imigrantes em potencial não tem boas intenções nem quer fazer bem ao povo americano” amplia o estigma sobre centenas de milhares de brasileiros que vivem nos EUA e que já enfrentam dificuldades crescentes sob o governo de Donald Trump.
China compra no Brasil o dobro dos EUA
Nos EUA, ao lado de Trump, o presidente brasileiro fez novas críticas ao comércio Brasil-China. Segundo dados da Cacex e MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio) em  2003, um total de 23,1% das exportações brasileiras foram para os Estados Unidos e 24,8% para a União Européia. A América do Sul foi responsável por 17,7%, a Ásia por 16% e o resto do mundo por 18,4%, sendo que a China tinha apenas 6,2% de participação nas exportações brasileiras.  Quatorze anos depois, os números mudaram. Segundo o MDIC,  entre janeiro e julho de 2017, a China deixou para trás os EUA e foi responsável por 30,8% das nossas exportações, os Estados Unidos  por 15,3%, a Argentina, 9,8%, Países Baixos (5,5%), Chile (3%), Alemanha (2,7%), Índia (2,7%), Japão (2,7%), México (2,6%) e Espanha (2,3%). Em 2017 o volume de exportações brasileiras para a China chegou à marca de US$ 67 bilhões, fechando 2018 em US$ 58,3 bilhões.
Reação chinesa
No final de fevereiro, a China deu o seu primeiro recado  Bolsonaro,que durante a campanha criticou a invasão chinesa no Brasil.  A agência Bloomberg, especializada em notícias econômicas revelou em primeira mão no dia 27/02, o acordo China-EUA para compra inicial de 10 milhões de toneladas de soja dos EUA. O valor total do acordo deve chegar a US$ 50 bilhões anuais em compras de produtos agrícolas, como parte de um acordo comercial bilateral.  Além da soja, a proposta envolve outros ítens como milho e trigo e seria parte de um memorando de entendimento relacionado às discussões comerciais blaterais.
No ano de 2016 a China importou 38,56 milhões de toneladas de soja do Brasil, enquanto no ano de 2017 a quantidade exportada para o país asiático subiu para 53,80 milhões de toneladas, já em 2018, até novembro, a China havia importado 64,95 milhões de toneladas de soja do Brasil. Graças a Bolsonaro e ao chanceler Ernesto Araújo, neste ano, a China deve reduzir drasticamente este valor. Sua excelência deveria dar esta má notícia aos produtos de Goiás, Estado onde ele  teve 65,21% dos votos, ou aos do Mato Grosso (66,42%), Mato Grosso do Sul (65,22%), Rio Grande do Sul (63,24%(. de Rondônia (72,18%) e de Roraima (71,25%).
Países árabes
Em 2017 a balança comercial do Brasil com os 22 países que formam a Liga Árabe teve superávit (exportações/vendas maiores que as importações/compras) de US$ 7,1 bilhões. Com Israel o Brasil compra/importa US$ 1,2 bilhão e vende/exporta US$ 400 milhões, ficando com um déficit/dívida de US$ 800 milhões. Em dezembro, antes de tomar posse, Bolsonaro anunciou a decisão de mudar de Tel Aviv para Jerusalém a embaixada do Brasil, fato que desagrada a comunidade árabe, que considera Jerusalém cidade de dois povos:  sagrada não somente para os judeus, mas também para os muçulmanos. Resultado: em janeiro, a Arábia Saudita descredenciou frigoríficos do grupo JBS-Fribou, cancelando a compra de milhões de toneladas de carnes bovina e de aves. Boa notícia para as granjas de Santa Catarina, maior produtor de aves do Brasil onde Bolsonaro teve a sua maior votação no pais (75,92%).
Mercosul
O Mercosul, sobretudo Argentina, Uruguai, Paraguai, e países associados como Chile, Venezuela e o Bloco Andino (Peru, Equador,Bolívia) constituem o terceiro maior destino das exportações brasileiras. O Brasil tem uma pauta comercial vantajosa com a Argentina, onde exporta carros, eletrodomésticos e serviços e importa principalmente o trigo. Matéria do G1, mostrou a dimensão deste negócio. Em  2018,  das 6,8 milhões de toneladas de trigo que o Brasil importou, 5,9 milhões de toneladas vieram da Argentina e 330 mil do Paraguai, com os EUA vendendo 270 mil toneladas — os demais países forneceram volumes menores.
O anúncio de Bolsonaro de que vai retirar a barreira de 10% à importação do trigo norte-americano pode quebrar os produtores argentinos e brasileiros. Goiás tem grandes produtores em Vianópolis e Cristalina, que devem estar festejando a generosidade do presidente brasileiro com o presidente Trump, principalmente sabendo que os agricultores norte-americano são altamente subsidiados, enquanto no Brasil quem produz tem como sócios o Banco do Brasil e os fornecedores de agrotóxicos e de adubo, cujos preços são dolarizados.
Ideologia à serviço do desemprego
Nos EUA, Jair Bolsonaro deu entrevistas às redes CNN e Fox, e em ambas, disse que sua vitória livrou o Brasil do comunismo. Para começar, o Brasil nunca foi comunista. Qualquer estudante do segundo grau que acessar o google verá que a definição de comunismo é de um Estado onde todos os meios de produção e serviços (fábricas, supermercados, butecos, hospitais, etc) são propriedade do Estado. Quando isto existiu no Brasil? Nunca! Só na cabeça do guru de Bolsonaro, o astrólogo (?) e filósofo sem diploma de ensino superior Olavo de Carvalho.
Sinal de alerta para o agronegócio
Mais uma vez passo os olhos nas observações de Miriam Leitão sobre a irresponsável proposta de retirar o Brasil da OMC: “O que o Brasil prometeu em troca desse vago apoio foi abrir mão da vantagem de ser país em desenvolvimento na OMC. A Organização Mundial do Comércio estabelece que países em desenvolvimento têm um tratamento especial diferenciado no comércio internacional. Têm prazos de implementação de regras de defesa comercial maiores do que os países desenvolvidos. Na área agrícola, têm maior espaço de subsídios. Os países em desenvolvimento podem negociar entendimentos entre eles sem estender os benefícios para os países desenvolvidos”, frisa.
Mas o ponto central da análise de Miriam é que saindo da OMC o Brasil vira presa fácil dos produtores norte-americanos. Afinal, alguém precisa dizer a Bolsonaro que os EUA concorrem com o Brasil pelo título de celeiro do mundo. Alô CNA! Alô FAEG!
Segundo Miriam Leitão, “os EUA, por serem a maior economia do mundo, querem acabar com essas vantagens para os outros países. Aceitar isso é fazer o jogo americano, com reflexos concretos em exportações brasileiras de inúmeros produtos”, alerta arrematando:  “Além disso, o Brasil abre mão antecipadamente de quaisquer benefícios em negociações futuras. É bem verdade que os Estados Unidos serão muito mais resistentes a aceitar tratamentos diferenciados no futuro, já que a China se declara país em desenvolvimento. Além dela, México, Coreia, Turquia e Cingapura, entre outros”.
Até a ditadura peitou os EUA
Escrevendo para o Onze de Maio, publiquei em fevereiro o artigo: “Agronegócio apoiou Bolsonaro, colhe prejuízos e pode ver a soja virar mato e a vaca ir para o brejo”. onde analisei os prejuízos para economia brasileira dos ataques do presidente á China, aos árabes e a preferência pelos EUA e Israel. O principal erro, de sua Excelência, é rasgar a tradição da diplomacia brasileira de não alinhamento incondicional a nenhum parceiro comercial.
O presidente Jânio Quadros (1961) engajou a política externa brasileira no movimento dos Países não Alinhados, grupo de nações que não se referenciava nem pelas políticas dos Estados Unidos e nem pelas da União Soviética. O Brasil tinha naquele período relações com a China, Cuba, União Soviética e também o chamado “mundo livre”: Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Alemanha Ocidental etc. Esta politica foi mantida durante a ditadura.
O general-presidente Ernesto Geisel, que governou o Brasil entre 1974 a 1979 mandou os Estados Unidos às favas quando o interesse nacional assim exigia.  Ele reconheceu governo de Angola,em 1976,  chefiado por Agostinho Nelo, líder do MPLA, partido marxista apoiado pela URSS e que naquele momento ainda estava em guerra civil com o movimento rival, a UNITA, de Jonas Savimbi, apoiado pelos Estados Unidos. E por que fez isto? Para explorar o petróleo da angola através da Petrobrás e ajudar o Brasil a sair da crise do petróleo que travou a economia mundial nos anos 1970.
 Geisel contrariou os EUA outra vez, quando fez o acordo nuclear com a Alemanha, que permitiu ao Brasil construir a usina nuclear de Angra dos Reis, e dominar toda a cadeia de produção do urânio – da extração à produção de energia.
Nos governos dos presidentes Lula e Dilma, tendo como Chanceler, o experiente  diplomata Celso Amorin, o Brasil estreitou relações com  o mundo árabe, com a África, a Ásia e principalmente com a América do Sul, ampliando o Mercosul e fazendo pactos bilaterais com o Chile e o Bloco Andino. O resultado o saldo da balança comercial brasileira explodiu, e ao final deste período o Brasil acumulou US$ 380 bilhões em reservas cambiais externas. Somente no ano de 2017, o saldo positivo do comercio exterior brasileiro chegou a US$ 67 bilhões.
A política externa “Olavo-bolsonariana” é irracional, contraproducente e antagônica a tudo o que já foi feito pelo Itamaraty desde o seu fundador, o Barão do Rio Branco, e principalmente, contrária à agricultura nacional, à indústria nacional e a geração de empregos num país que amarga 12 milhões de pais de família sem lugar para trabalhar.
Ibope
O Ibope trouxe hoje uma pesquisa, que corrobora com os dados de outra, a XP/Ipespe, que mostra que a popularidade do presidente está caindo avassaladoramente. A aprovação caiu 15 pontos e é inferior as aprovações de FHC, Lula e Dilma, no mesmo período de mandato.  Se não corrigir rumos, Bolsonaro não será considero o presidente mais favorável aos norte-americanos, e sim o mais antibrasileiro dos presidentes.
Vitórias do Brasil na OMC impulsionaram o agronegócio
Para o economista Celso Grisi, da Fundação Instituto de Administração (FIA), a OMC tenta trazer um equilíbrio ao comércio internacional e, mesmo sem ter um poder impositivo – já que, por exemplo, não pode obrigar o cumprimento das retaliações aos países que perderam disputas – acaba servindo como uma proteção aos países em desenvolvimento.
Embraer-Bombardier – junho de 1996 – Brasil vence queda de braço com o Canadá na disputa pelo concorrido mercado da aviação regional. A canadense Bombardier acusava o Brasil de subsídio disfaçado à Embraer através do programa Proex (Programa de Financiamentos às Exportações). O contencioso foi parar na OMC onde ficou provado que o Canadá também subsidiava a Bombardier com dois programas semelhantes. Com a vitória brasileira o modelo ERJ-145 dominou os céus e desbancou os modelos similares da Bombardier.
Açúcar – 05 de agosto de 2004:   Brasil obteve ontem vitória sobre a União Européia na OMC (Organização Mundial do Comércio) na questão do açúcar. A organização considerou ilegais, em parecer preliminar, os subsídios europeus à produção. Esses subsídios, segundo o Itamaraty, geravam um prejuízo de US$ 400 milhões por ano aos produtores brasileiros.  A Tailândia e a Austrália foram  parceiras do Brasil nesse processo. Outros 22 países participam como partes interessadas, entre eles os EUA e o Canadá.
Suco de laranja – 20 de dezembro de 2010: Brasil tem grande vitória sobre os EUA na OMC, derrubando as tarifas alfandegárias norte-americanas, que foram consideradas abusivas contra a importação ao suco de laranja brasileiro. Naquele ano o Brasil já era o maior exportador de suco de laranja do mundo, com US$ 1,7 bilhão, dos quais US$ 400 milhões vendidos ao mercado norte-americano. Foi uma disputa de dez anos na qual o Itamaraty provou que o produto brasileiro era alvo de protecionismo e subsídio desleal por parte do governo americano.
Algodão – Setembro de 2002, – Brasil questiona na OMC subsídios de  US$ 12,5 bilhões dos EUA aos seus produtores de algodão. Em junho de 2008, a OMC emitiu sua decisão final e os EUA tiveram que retirar os subsídios, que penalizavam os produtores brasileiros na venda para os EUA e para outros países.