Reiterando no Twitter suas críticas sobre o voto a distância, o presidente dos Estados Unidos levantou a ideia de transferir o escrutínio para data ulterior. O anúncio espetacular, com poucas chances de sucesso, esconde as cifras catastróficas da economia.

Portal Vermelho –  Tradução: Conrado Abreu Chagas

Donald Trump provocou novos protestos ao requerer em tuíte na quinta-feira, contra toda legalidade, a transferência das eleições presidenciais e parlamentares do próximo 3 de novembro. Mas esse novo escândalo esclarece ao menos um mistério da psicologia presidencial: depois de haver negado desde fevereiro a gravidade e por vezes a própria existência da epidemia, o chefe de Estado se submeteu, desajeitadamente, ao uso da máscara em três cerimônias oficiais e, para a surpresa geral, até exortou seus compatriotas, ou antes seus eleitores mais aferrados, a demonstrar patriotismo protegendo-se contra a contaminação. Essa admissão repentina do perigo aparece agora como a primeira parte de uma estratégia que visa semear a confusão quanto às próximas eleições.

Agora que ele admite que a pandemia do Covid-19 está mesmo em curso nos Estados Unidos, Trump dá ênfase ao fato de ela tornar difícil e perigoso o sufrágio “presencial” nos locais de votação, sabidamente subequipados e congestionados. Por outro, ele não se cansa de considerar a alternativa – isto é, o voto por correspondência, frequentemente utilizado nos Estados Unidos – como fonte de fraude eleitoral. Donde sua “solução”: o adiamento das eleições até o momento mágico em que “o perigo terá se dissipado”.

Entenda-se: até o momento quando a economia, principal argumento político do presidente, se vir suficientemente alavancada para lhe oferecer uma chance de vitória.

Um adiamento das eleições seria um acontecimento histórico. Nunca ocorreu em nível nacional, mesmo em períodos de guerra, desde a entrada em vigor, em 1845, da atual legislação eleitoral.

Ocorreu, claro, por vezes em nível local, para as eleições primárias de partidos, como recentemente em alguns estados em função da pandemia, e sobretudo logo depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 nas regiões imediatamente afetadas, como Nova York, onde a eleição do sucessor do prefeito Rudy Giuliani teve de ser adiada por duas semanas. Além disso, para que fosse possível, o adiamento das eleições à presidência teria de contar com a votação favorável no Congresso, onde no momento os democratas são maioria na Câmara dos Representantes e onde o Senado, embora de maioria republicana, está cada vez mais amedrontado pela crescente baixa na popularidade do presidente nas pesquisas e inquieto com suas tendências cada vez mais ditatoriais. Projeto impossível, portanto, mas que não exclui o desejo da Casa Branca de atingir seus fins por meio de um caos que deslegitimaria as eleições de novembro.

A disputa nos “swing states”

A curto prazo, Trump ganhou pelo menos um ponto neste 30 de julho. Seu tuíte de caudilho esconde por várias horas as novas cifras catastróficas da economia, divulgadas na manhã do mesmo dia, as quais evidenciam uma contração de 33%, inédita na história do país, sinal preliminar de uma possível derrota acachapante em 3 de novembro. Desesperado para voltar a subir nas pesquisas, no momento em que estas mostram-no enfraquecido mesmo no campo de seus apoiadores mais devotados, Donald Trump deseja invocar a urgência e o perigo de um complô, a fim de arrebanhar a participação eleitoral de sua base e provocar grande participação dos eleitores brancos e de “colarinho azul” (i. é, trabalhadores de fábrica), rumo às urnas para compensar as supostas manobras do campo adversário, que defende o voto por correspondência.

Em 2016, menos de quinze dias antes do revés infligido à Hillary Clinton, até então tida como vencedora – revés esse devido à abertura de inquérito pelo FBI sobre os e-mails dela –, Trump de modo descortês insistira em muitos de seus comícios que “o sistema é fraudulento”.

A dúvida sobre a probidade das eleições lhe permitia reforçar um movimento popular antielitista que sobreviveria a sua eventual derrota e a, sobretudo, fomentar a cólera de seus eleitores que, assim, garantisse a presença massiva destes no dia do escrutínio.

Hoje, Trump parece apostar em uma eleição disputada nos swing states[1], onde Joe Biden vem progressivamente tomando a frente.

Mas ele parece também contar com um cenário parecido àquele das eleições de 2000, marcado por um distanciamento infinitesimal entre os candidatos em um ou dois estados-chave do colégio eleitoral, com um pano de fundo de desordem dantesca das infraestruturas de votação, subdesenvolvidas nas circunscrições[2] mais pobres, a fim de justificar uma recontagem de votos, um atraso dos resultados e uma decisão final nas mãos dos juízes federais ou dos altos magistrados da Suprema Corte.

A estratégia do caos de Donald Trump parece bastante evidente: diante do desmoronamento que vem sofrendo nas pesquisas, não surpreendem seus ataques absurdos e injustificados contra o voto por correspondência.

O presidente, domiciliado legalmente na Flórida, em sua residência de Mar-a-Lago, já votou in absentia, como aliás o fez toda a sua família mais próxima (esta, porém, inscrita em Nova York). Isso foi na ocasião do escrutínio de meio mandato em 2018.

Ora, as diferenças entre esse tipo de voto e o voto por correspondência são mínimas. O objetivo de Trump, portanto, é agora diminuir a participação eleitoral de seus opositores. Estes são mais propensos a crer no perigo do vírus e, assim, possivelmente evitarão estar presentes nos locais de votação. Eis por que são favoráveis ao voto por correio. Logo, ao eliminar o voto por correspondência[3], Trump pensa dar a vantagem de participação para seus apoiadores.

William Barr, ministro da Justiça e leal aliado de Trump, não podia ser mais claro quando foi ouvido recentemente no Congresso. Em sua opinião, é “evidente e de bom senso” considerar o voto por correspondência uma fonte de fraude. Não obstante, apenas 1% das cédulas são ordinariamente rejeitadas, e não por fraude, mas por erro de algum procedimento, como a ausência da assinatura do eleitor na cédula. Porém, a Fox News, grande aliada de Trump, não cessa de propagandear a ideia de fraude como uma realidade e, portanto, um perigo para a integridade das eleições. E mais: a organização dos escrutínios cabe às autoridades das circunscrições para os locais de votação e àquelas dos diferentes estados para as regulamentações de voto por correspondência.

Não surpreende, pois, que os estados republicanos já faz um ano se venham obstinando a tornar mais difícil esse procedimento eleitoral.

No Texas, curral eleitoral de Trump, onde se defende a eleição presencial em novembro, as autoridades exigem dos eleitores uma justificativa para votarem a distância. Mas não serve estar no grupo de risco do Covid-19, pois já decretaram que isso não constitui um impedimento para justificar o recurso ao voto por correspondência.

Igualmente, vários estados proíbem o envio conjunto das cédulas ou seu envio em caixas especiais por pessoa que não seja o próprio eleitor, o que se revela desfavorável para pessoas com mobilidade reduzida ou que morem muito longe dos correios.

Há dois anos o governo Trump se obstina também contra os correios em seu país, instituição essa essencial para a exequibilidade do voto por correspondência. Nesse sentido, uma série de leis advindas do campo republicano proíbem que os correios recebam apoio financeiro federal, o que tem obrigado a instituição a contar essencialmente com seus próprios recursos.

 Reduzir o número de zonas eleitorais

Os correios, sobrecarregados por milhões de votos por correspondência, poderiam assim se ver incapazes de tratá-los dentro dos prazos concedidos em cada estado, prazos esses que se limitam às vezes a onze dias antes da data das eleições. Outros estados exigem que a contagem se inicie já no próprio dia da eleição, o que provoca uma pressão catastrófica sobre os funcionários juramentados. O atraso pode gerar a anulação dos votos e simplesmente nova confusão, assim como múltiplas ações por suposta fraude, caso esses resultados tardios contradigam aqueles das urnas. Eis já o suficiente para lançar descrédito sobre “um sistema fraudulento” e abrir caminho para manobras políticas locais republicanas. Essa perspectiva não tem nada de extraordinária, se levamos em consideração a ofensiva republicana contra o direito de voto dos eleitores democratas. A famosa estratégia de “votar supressão” (a restrição do direito de voto) se encontra já em andamento nos estados e circunscrições republicanas. Com efeito, da Georgia ao Mississippi, as autoridades exigem dos eleitores que não têm carteira de motorista (abre-te-sésamo no país) documentos de identificação especiais, que só se obtêm ao final de um percurso administrativo penoso, particularmente difícil para eleitores mais marginalizados. Na Flórida, o governador republicano decidiu que ex-presos que tenham retomado seus direitos cívicos não poderão todavia votar se têm ainda multas a pagar ao estado ou a algum dos municípios. Do mesmo modo, dirigentes de circunscrições republicanas têm sistematicamente reduzido o número de locais de votação em zonas de maioria negra ou hispânica, sob o pretexto de penúria de mão de obra durante a pandemia. Medidas como essas já provocaram o caos nas primárias democratas de junho, reduzindo consideravelmente a participação do eleitor. A confusão e o caos, as armas principais do “tuitador em chefe”, podem assim vir a servir-lhe de maneira decisiva.
Trump, expert das mídias, poderá também contar com a concorrência entre os canais de informação na noite das eleições e, assim, contestar de imediato os resultados fornecidos apressadamente pelos jornalistas. Devido a seu poder mediático sobre três canais de direita, entre os quais está a Fox News, e a sua presença nas redes sociais, Trump quer aproveitar uma eventual incerteza nos resultados em alguns estados para de novo lançar sobre a mesa a carta da fraude. Em 2018, foi assim que ele se impôs na noite das eleições, quando duvidou abertamente da integridade da contagem dos votos por correspondência na eleição do governador republicano, diante da diferença demasiadamente pequena para que o resultado pudesse ser anunciado naquela mesma noite. Isso foi o ensaio para um presidente do caos.
Autor Philipp Coste, interino em Nova York do jornal francês Libération

[1] Estados onde democratas e republicanos têm níveis similares de apoio entre os eleitores, vistos por isso como determinantes para o resultado final das eleições presidenciais.
[2] Circunscrição: entenda-se aqui a mais ampla divisão territorial para governos locais dentro de um estado nos Estados Unidos. County no original.
[3] Lembremo-nos que nos Estados Unidos o voto não é obrigatório.