Brasil perde um lutador pela liberdade, democracia, reforma agrária, direitos humanos, direitos de índios, negros, mulheres e oprimidos. O céu, ah, este ganha mais uma estrela.

Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia, no Mato Grosso, e um dos maiores defensores dos direitos humanos do país, morreu aos 92 anos, às 9h40 deste sábado (8), em Batatais (SP), onde havia sido removido para tratamento médico devido a problemas respiratórios. A informação foi comunicada pela Prelazia de São Félix do Araguaia (MT), a Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria (Claretianos) e a Ordem de Santo Agostinho (Agostinianos). Ele havia testado negativo para covid-19.

Depoimentos

Podemos dizer sem medo de errar que Pedro Casaldáliga foi um dos bispos que melhor viveu e implantou as reformas que o Concílio Vaticano II propôs e os compromissos assumidos no pacto das catacumbas assinado por algumas centenas de bispos. Compromissos esses traduzidos para a realidade latino-americana pela II Conferência latino-americana dos bispos realizada em Medellín, Colômbia, em 1968.

(Antônio Canuto – membro fundador da CPT, amigo de Pedro Casaldáliga)

Dom Pedro foi um exemplo. De São Félix do Araguaia fez uma trincheira de defesa dos índios e dos pobres. Nunca fugiu da luta. Sua arma foi a palavra. Seja na poesia, na canção, na homilia, na pregação e no diálogo. Vai se juntar a Padre João Bosco Burnier, Pe Rodolfo Lukenbein e Simão Bororo no rol de heróis na busca de terra sem males. (Sebastião Ferreira Leite, Juruna, advogado).

“Dom Pedro Casaldáliga, é exemplo de Luta e solidariedade internacional, defendeu os índios, os camponeses, e enfrentou várias batalhas. Um dos homens que combateu a Ditadura Militar no Brasil.
Deixa saudades a todos lutadores do povo”. (Delúbio Soares, professor, fundador da CUT e do PT)

 

Bispo do Povo

O bispo Pedro rechaçou sempre qualquer símbolo ou distintivo que o diferenciasse do povo. Na sua ordenação episcopal a mitra foi substituída por um chapéu de palha sertanejo. Um remo, feito pelos indígenas Tapirapé, substituiu o báculo. O anel de tucum, feito pelos índios da região, marcaria o compromisso com sua causa. (O anel que cursilhistas amigos de Madri lhe enviaram, foi mandado como recordação e sinal de carinho à sua velha mãe, na Espanha).

O cartão-lembrança deste ato na verdade era um manifesto de como seria sua conduta, distribuído aos presentes:

“Tua mitra será um chapéu de palha sertanejo, o sol e o luar; a chuva e o sereno; o olhar dos pobres com quem caminhas e o olhar glorioso de Cristo, o Senhor.

Teu báculo será a verdade do Evangelho e a confiança do teu povo em ti.

O teu anel será a fidelidade à Nova Aliança do Deus Libertador e a fidelidade ao povo desta terra.

Não terás outro escudo que a força da Esperança e a liberdade dos filhos de Deus, nem usarás outras luvas que o serviço do Amor.”.

Pedro manteve esta coerência a toda prova. Ele não sossegou até não morar na casa simples em que ele viveu até o fim de seus dias.

Os trajes normais de Pedro eram calça e camisa e um chinelo de dedo (havaianas) era o calçado. Estes chinelos passaram a ser conhecidos como “prelazia” pois era o calçado de praticamente todos os agentes de pastoral.

Pedro não usava batina. Quando se viu obrigado a ir ao Vaticano para a Visita da Limina, em 1988, teve que tomar emprestada a batina de um seminarista para ir às audiências com os cardeais e com o Papa. Quando a Unicamp lhe concedeu o título de Doutor Honoris Causa, quebrou seu cerimonial em respeito ao estilo de Pedro. Recebeu o título em mangas de camisa, foi dispensado das vestimentas usadas nestes rituais.

Pedro viajava sempre da maneira mais próxima do povo, em ônibus, na carroceria de uma caminhonete, ou na de um caminhão carregado de sacos de arroz ou com toras de madeira, na garupa de uma moto e até na garupa de bicicleta.

Ao ir às comunidades fazia questão de visitar o maior número de famílias que fosse possível. Sem sombra de dúvida Pedro na região da Prelazia era quem mais conhecia pessoas e delas se lembrava quando as encontrasse em algum lugar. Lembrava detalhes da família, do trabalho.

A casa dele estava sempre com as portas abertas para acolher a quem por lá passasse. Pedro viveu totalmente integrado à vida do povo.

Como era seu desejo expresso, Pedro vai ser sepultado no cemitério à beira do rio, cemitério dos Karajá e onde estão sepultados dezenas de peões das fazendas, sem nome ou qualquer identificação.

 

Com informações do Blog do Sakatomo e do portal da CPT