No meio  do “Milagre Econômico”  (1970-1973), estourou a epidemia de meningite no Brasil. O ditador de plantão, o general Emilio Garrastazu Médici, proibiu divulgação de número de mortos e infectados.  48 anos depois, o ex-capitão Jair Bolsonaro faz o mesmo. A diferença é que a economia está ladeira abaixo, o desemprego em alta e o povo quer ir para ás ruas para defender a democracia e pedir o fim do mandato do presidente.

Marcus Vinícius

Eu era garoto, estava no “prezinho” em Ceres, cidade localizada a 192 quilômetros de Goiânia, quando as aulas pararam. A “tia” Neli, do Colégio Álvaro de Melo avisou que haveria vacinação, e que tinham que preparar a escola, e a gente ficaria uma semana sem ir na aula. Uma beleza!, pensei. Mais tempo para o futebol no “terrão” na praça em frente ao colégio (que hoje é um teatro de arena).

Mais ou menos no prazo fixado, meninos e meninas foram colocados em fila para tomar a vacina da meningite. Tudo mundo “moderno”. Para ganhar tempo as crianças eram vacinadas igual gado. Ao invés de seringas, pistolas – as mesmas que os fazendeiros usavam para aplicar Ivomec, para o controle de vermes e parasitas no gado.

Crianças vacinadas contra meningite igual gado em 1975. Foto: reprodução – Folha

Eu tinha seis anos e estava com medo de  enfrentar o “revolvinho”, porque os colegas reclamavam que doía muito. Não doeu tanto assim, mas nas periferias das grandes cidades como Rio de Janeiro e principalmente São Paulo a dor foi muito grande. A epidemia de meningite meningocócica ceifou milhares de vidas nas regiões metropolitanas.

A vacinação em todo Estado mostra que a meningite também preocupou as autoridades sanitárias de Goiás, conforme revela o registro feito pela UFG (Universidade Federal de Goiás), do estudo datado de 1973, sob o título: “Meningite Meningogôcica em Goiás – Evolução do Estado Endêmico para o Epidêmico”, assinado pelos médicos Joaquim Caetano de Almeida Netto, Cleomenes Reis, Lélio Leonardo Batista, Bendito Pereira Damasceno e Dione Damasceno.

Diz o relatório: “Os autores apresentam os dados relativos a incidência de meningite meningococica na casuística do Hospital “Oswaldo Cruz” de Goiânia, De um total de 418 pacientes encaminhados ao Hospital “Oswaldo Cruz”, no primeiro perío assinalado um aumento impordo do presente estudo, ou seja, de 10/70 a 09/72, foram feitas bacterioscopias do líquido céfalo raquidiano (L.C.R.) de 351 e culturas de 208. A partir de 10/72 a 06/73, (2<? período do estudo), dentre 268 casos de meningites, 261 submeteram-se à bacterioscopia do LCR e 234 a culturas”.

Bolsonaro repete Médici

O surto começou em 1970,  no meio do “milagre econômico”, em 1972, atingiu o ponto máximo (mais de mil mortes por dia). O ditador de plantão, general Emílio Garrastazu Médici determinou censura total. Era época em que as prisões, as torturas no pau-de-arara, e a violenta repressão à Guerrilha do Araguaia, no “Bico do Papagaio” na divisa entre Goiás (hoje Tocantins) e Pará,  também fizeram milhares de vítimas.

Médici não permitiu qualquer notícia sobre a meningite. Não queria “estragar” as manchetes sobre o governo, naquele momento em que a economia ia bem. Para poucos, aliás, pois foi neste período em que a desigualdade social – o fosso entre ricos e pobres – mais aumentou, com o êxodo rural que  expulsou famílias do campo para as cidades.

Bolsonaro nunca negou admiração pelo mais sanguinário dos presidentes-generais da ditadura                Foto: (Reprodução: Flickr/Família Bolsonaro)

O presidente Jair Bolsonaro segue os passos de Médici. Desde o início negou a pandemia do coronavírus: “Uma gripezinha”!

Trabalhou com todas as forças contra as recomendações da ciência, dos médicos, da OMS e  atacou  os governadores e prefeitos que fizeram o isolamento social. O resultado é o que vemos, mortes e mais mortes.

No dia 26 de fevereiro foi confirmadoo primeiro caso da doença no Brasil, no Hospital Albert Einstein, em São Paulo.  No boletim de ontem,  06 de junho, chegamos a 673.807 casos confirmados. O número de óbitos passa de 35.930.

Bolsonaro agora quer encobrir a sua incompetência proibindo o ministério da Saúde de emitir boletins diários da doença, e vai além: quer uma recontagem dos mortos e um novo modelo estatístico para medir o avanço da pandemia, que tudo indica,é mais uma tática para tentar camuflar seu fracasso no controle da doença.

No auge da epidemia de meningite em 1972, foram registradas 1,15 mil mortes por dia. Morbidamente, este é o mesmo número que se vê hoje com o coronavírus.

Cloraquina

A ditadura também teve a sua “cloraquina” em 1972: Uma vacina dos EUA, usada em soldados no Vietnam que foi um fracasso: só teve êxito em crianças menores de dois anos, e fez a doença sofrer mutações atingindo pessoas adultas. A soma de pobreza, falta de renda, péssimas condições sanitárias (falta de água e esgoto nas grandes cidades, sobretudo São Paulo), fez a pandemia disparar para 563 casos por 100 mil habitantes, índices até então só encontrados em países africanos.

Censura

Artigo de Clovis Rossi censurado no Estadão

Médici ordenou a censura dos jornais. O artigo “A epidemia do silêncio”, do saudoso Clovis Rossi, foi censurada no Estadão. Outros artigos seriam impedidos de sair noutros jornais.

Bolsonaro cinicamente comentou a mudança no horário de divulgação dos boletins do número de mortos e infectados pelo covid19 das 17 para as 22 horas. “Acabou a matéria do JN”, disse. Não adiantou. O JN e outras redes de telvisão estão fazendo as listas com dados dos governos estaduais, e o JN voltou a usar o “Plantão da Globo”, pílulas de notícias extras, para replicar os novos números, assim que saem, sejam dos governos, seja do Ministério da Saúde.

Bolsonaro está cada vez mais isolado. Seu guru, Olavo de Carvalho, desistiu dele, xingando-o pelas redes sociais. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por quem o ex-capitão já fez declaração de amor, não tem por ele piedade. Trump faz gestão igualmente desastrosa do coronavírus. Os EUA tem mais de 100 mil mortos. Para encobrir o próprio fracasso, agora deu para escrever no twitter sobre o desastre do coronavírus no Brasil, detonando o “colega” brasileiro para não perder votos na sua campanha pela reeleição. Os norte-americanos vão às urnas no dia 3 de novembro, e republicano Donald Trump está 10 pontos atrás do democrata Joe Biden.

Morticínios do covid19 e da meningite mancham forças armadas

A história não esqueceu  o fracasso dos militares da ditadura no controle da meningite e suas consequências para a população pobre do país. A epidemia de meningite durou inacreditáveis sete anos, isto mesmo sete anos! – de 1970 a 1977.  O povo brasileiro, as famílias das mais de 35 mil vítimas do covid19 também não esquecerão que foi um ex-militar na presidência e outros 22 no Ministério da Saúde, que fracassaram em controlar a pandemia de coronavírus.

Troca de presidente ajudou a controlar a epidemia na década de 1970

No seu livro de memórias, escrito pela FGV, Geisel definiu Bolsonaro como “um mau militar”

Somente em 1974, após a troca de Emílio Garratazu Médici, pelo general Ernesto Geisel, é que a gestão da epidemia de meningite passou a ser tratada como uma crise sanitária.

Geisel – que definiu o ex-capitão Jair Bolsonaro como “mau militar” nas suas memórias-  criou a Comissão Nacional de Controle da Meningite, para a vigilância e aconselhamento de como prosseguir.

De acordo com levantamentos de pesquisadores, em 1976, o número de contágios já era seis vezes maior ao ano anterior, e uma operação gigante de vacinação se tornou necessária. Em apenas quatro dias, agentes vacinaram mais de 10 milhões de pessoas. No entanto, o esforço em impedir a disseminação do surto continuava: não existia uma comprovação da vacinação ou o registro das ações do Ministério. Além disso, os dados foram originados através de pesquisas posteriores do IBGE, por amostra domiciliar.

Estima-se que 93% da cidade de São Paulo tenha sido atingida pela campanha, o que possibilitou, dado o atraso nas ações do governo, que os casos começassem a diminuir apenas em 1977 (ano em que a incidência do Tipo A ainda era maior que a calculada), possibilitando o retorno da rotina normal da capital.

Nas ruas, no Congresso Nacional, nos meios jurídicos, estudantis, religiosos e comunitários, forma-se uma imensa base de rejeição ao presidente Jair Bolsonaro, conforme foi registrado por inúmeras pesquisas de opinião. Cresce o movimento pelo impeachment, renúncia, cassação ou interdição do presidente e do seu vice.

A experiência da década de 1970 do século passado mostra que não se mata o vírus com censura, repressão, tortura, proibição de passeatas ou eliminação de adversários políticos. Com Bolsonaro não há chance de uma política sanitária efetiva. Ele quer o caos. Se alimenta do caos. Só governa no caos. É o governo do quanto pior, melhor. Ele quer uma ditadura para chamar de sua, mas a voz das ruas já deu o grito: Basta!

 

HISTÓRIA

Médicos paulistas contam sobre a epidemia que a ditadura tentou esconder

Com o título, “Meningite, a epidemia que a ditadura não conseguiu esconder”, o site do Cremesp (Conselho de Medicina de São Paulo), conta a história da maior epidemia de meningite do país. Vale a pena ler e aprender com os erros do passado.

De olhos bem fechados

A maior epidemia de meningite da história do país grassava na cidade de São Paulo nos anos 70.
A omissão das autoridades fertilizou terreno para o avanço da doença, que atingiu todos os bairros e chegou a registrar a média de 1,15 óbitos por dia!”, registrou o Cremesp

Campanha de vacinação de 1975, no bairro da Lapa

Apesar da situação, a letalidade, que de 1970 a 1972 variou entre 12% e 14% dos casos, a partir de 1973 declinou acentuadamente, atingindo o valor mais baixo (7%) em 1974. O maior número de óbitos foi observado em 1975, quando foram registrados 411, média de 1,15 ao dia. A letalidade da meningite tende a diminuir exatamente nos momentos epidêmicos, em decorrência do diagnóstico precoce e da introdução oportuna de tratamento.

A troca de presidente, com a entrada do general Ernesto Geisel, em 1974, facilitaria a mudança de atitude das autoridades. Em julho de 1974 foi criada a Comissão Nacional de Controle da Meningite, encarregada de traçar a política de vigilância epidemiológica. O número de casos registrados em janeiro de 1975 foi seis vezes maior do que o mesmo mês de 1974. Ironicamente, a meningite que tem o início de sua história na contaminação de soldados em postos militares, parecia não querer dar tréguas ao regime.

Em março de 1975 foi elaborado o plano básico de operações para garantir a vacinação de 10 milhões de pessoas em apenas quatro dias. A parte operacional da campanha esteve a cargo do exército. O esquema adotado durante a campanha não permitiu que fosse fornecido qualquer comprovante às pessoas vacinadas, nem o registro do número de vacinados. O número de casos continuou muito acima do registrado no ano anterior até abril, quando foi realizada a campanha de vacinação. Para conhecer a proporção de vacinados, o IBGE realizou um inquérito por amostragem domiciliar. A cobertura foi estimada em cerca de 93% na cidade. Após a campanha os casos diminuíram, mas só retornaram a valores endêmicos dois anos depois. Até julho de 1977 ainda eram registradas incidências acima do esperado. A partir desse ano, os casos provocados pelo sorogrupo A deixaram de ser identificados; enquanto os produzidos pelo sorogrupo C retornaram ao nível endêmico. São Paulo retornou à rotina. Apesar dos inúmeros problemas, a cidade estava livre, pelo menos dessa epidemia.

Da periferia para o centro

A epidemia progrediu de forma concêntrica das áreas periféricas para o centro, em ondas, sem que os distritos anteriormente atingidos deixassem de apresentar alta incidência de meningite. No primeiro semestre de 1974 não havia uma única área da cidade sem registro de casos. As regiões mais pobres apresentavam maior risco. Durante a década de 70 houve uma expansão acelerada de favelas. Em 1957 São Paulo tinha 141 favelas, em 1973 esse número cresceu para 525. Nesse período a zona sul era a região com a maior concentração de população favelada do município. Com o avanço acelerado da miséria, era natural que as doenças se alastrassem. Em maio de 1971, começando pelo distrito de Santo Amaro, a epidemia de meningite progredia para os bairros contíguos. Em novembro de 1971, irrompeu na zona leste, começando pelo distrito de São Miguel Paulista – o último distrito a ser afetado na região foi a Penha.

Em junho de 1972 era a vez da zona norte, começando por Santana e Tucuruvi – um ano e meio depois, todos os seus distritos apresentavam incidência epidêmica. Na zona oeste, o primeiro afetado foi a Lapa, 25 meses depois do início da epidemia na zona sul. A progressão da doença nessa área levou apenas 10 meses. Finalmente chegou ao centro em setembro de 1973, espalhando-se por todos os seus distritos em apenas 11 meses. A incidência, durante o período de 1970 a 1977 variou entre 13,04 casos por 100 mil habitantes no distrito da Aclimação (centro) a 101,28 na Vila Nova Cachoeirinha (zona norte).

Limitações e omissões

Capa da revista Veja de 4 de outubro de 1972

Embora as autoridades sanitárias negassem a existência da epidemia, os médicos da Secretaria de Estado da Saúde tentavam controlar a doença em duas frentes: aprimorando o conhecimento sobre a quimioprofilaxia e avaliando a eficácia de novas vacinas. Os militares norte-americanos que estavam no Vietnã, maior grupo de risco, eram vacinados contra o meningococo C desde 1971. Em 1972, a vacina foi testada em São Paulo em crianças de seis meses a seis anos. Apenas produziu resposta imunológica para crianças a partir de dois anos. Nesse período, a distribuição etária da doença, quando comparada ao período endêmico, apresentou alterações. Deslocou-se em direção a grupos etários mais velhos, embora as crianças menores de cinco anos ainda fossem o grupo de maior risco. Em 1974, a distribuição etária se alterava mais uma vez, com aumento de incidência entre as faixas etárias de 15 a 29 anos. Essa tendência acentuou-se ainda mais e as taxas atingiram níveis escandalosamente altos: 563 casos por 100 mil habitantes em menores de um ano e 51 casos em pessoas com 50 anos ou mais. Tal tendência foi resultado da sobreposição das duas ondas epidêmicas. A distribuição etária da letalidade também sofreu modificações. As taxas mais altas continuaram entre os menores de um ano, mas houve elevação no grupo de 10 a 14 anos e redução nos grupos acima de 19 anos.

O aumento da incidência nos grupos acima dos 14 anos ocorreu apenas no sexo masculino. Provavelmente, pela maior exposição a situações de risco de transmissão relacionadas ao trabalho.

 

*José Cássio de Moraes, epidemiologista, professor-adjunto do Departamento de Medicina Social da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Santa Casa de São Paulo, ex-conselheiro do Cremesp e ex-diretor do Centro de Vigilância Epidemiológica da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo.

*Rita de Cássia Barradas Barata é especialista em Medicina Preventiva, professora –adjunta do Departamento de Medicina Social da FCM da Santa Casa de São Paulo.

Ambos são autores da obra “O livro da meningite, uma doença sob a luz da cidade”, em conjunto com a jornalista Cristina Fonseca.

Com informações da Veja, Folha, Estadão, UFG, DCM, Cremesp, Revista Aventuras da História.

Para ler o relatório da UFG sobre a meningite nos anos 1970 clique AQUI

 

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