A energia eólica é a fonte renovável que mais cresce no mundo e a segunda mais importante da matriz energética brasileira. Nesta segunda-feira (15), Dia Mundial do Vento, o Brasil de Fato apresenta diferentes olhares sobre os impactos e as perspectivas do setor.

Daniel Giovanaz – Brasil de Fato | São Paulo (SP) – O Brasil tem 637 parques eólicos com mais de 7.738 aerogeradores – gerador integrado ao eixo de um cata-vento, que converte energia eólica em energia elétrica. Os cinco estados que mais produziram energia a partir do vento em 2019 foram Bahia, Rio Grande do Norte, Piauí, Ceará e Rio Grande do Sul.

Geradores em São Miguel do Gosto, RN

Em crescimento exponencial desde 2009, a matriz eólica representa quase 10% de toda energia gerada no país. As hidrelétricas ainda representam 60%, mas o setor chegou ao limite: não há previsão de nenhuma nova usina de grande porte para os próximos dez anos.

“O potencial eólico estimado hoje, com a tecnologia existente, é da ordem de 800 gigawatts. Isso significa 4,5 vezes a necessidade de energia do Brasil. Então, vai continuar crescendo, porque se trata de um recurso infinito”, afirma Elbia Melo presidente executiva da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica).

Ou seja, todos os ventos sopram a favor da transição energética. Resta saber quais os efeitos dessa mudança para a economia, para o meio ambiente e para as comunidades.

Vantagens

Limpa, barata e renovável. Esses são os três adjetivos mais citados pelos entusiastas da energia eólica. A ABEEólica estima que, graças ao setor, o Brasil deixou de emitir 22,8 milhões de toneladas de CO2 em 2019 – o equivalente à emissão anual de cerca de 21,7 milhões de automóveis.

“Além de reduzir o impacto ambiental, investimento em infraestrutura e energia limpa traz muito emprego, e nossa economia está precisando cada vez mais disso”, acrescenta Melo.

Cerca de 85% da energia eólica produzida no Brasil vem do Nordeste. “Geralmente, são propriedades em que a atividade econômica é menos desenvolvida – por conta da seca, por exemplo –, e a eólica tem produzido grande efeito socioeconômico”, completa a presidente da Associação.

“A grande vantagem é que ela é complementar às outras atividades econômicas. Ninguém precisa abrir mão da agricultura ou da pecuária pra produzir energia. Também existe um efeito de distribuição de renda, porque as famílias passam a receber uma renda mensal”, ressalta.

Ao assinar um contrato de 20 anos, o proprietário da terra passa a receber R$ 2 mil por mês por aerogerador instalado em seu terreno.

Parques eólicos Ventos Serra do Mel 1 e 2 começam a operar este ano no Rio Grande do Norte / Voltalia/Divulgação

Limites

A pesquisadora Fátima Góes estudou os impactos da instalação de dez parques eólicos no Nordeste, para além da produção de energia. “A geração de empregos é um dos mais propagados. Mas, em geral, eles deixam a desejar”, pondera.

“A construção de um parque eólico, que dura até 18 meses, demanda entre 400 e 2 mil pessoas trabalhando. Porém, depois que entra em operação, o complexo que eu vi com mais gente tinha 50 pessoas”, relata a doutoranda em Engenharia Industrial pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Góes diz que os moradores da região onde os parques se instalam acabam ocupando postos de trabalho de baixa remuneração. Por outro lado, ela ressalta um aumento das receitas municipais e, principalmente, estaduais.

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Outros benefícios são resultado de contrapartidas impostas pelo órgão ambiental estadual, como programas de educação ambiental e projetos em escolas da região. A especialista afirma que estudos de viabilidade e audiências públicas podem ajudar a identificar e minimizar impactos, mas aponta certos limites à participação popular nesses espaços.

“Muitas vezes, as audiências são feitas ‘por fazer’, ‘para inglês ver’. A voz das pessoas, das comunidades, nem sempre é considerada”, lamenta.

Impactos

“Quando a gente fala em energia ‘limpa’, pode haver um equívoco na abstração do conceito”, analisa Renato de Brito Sanchez, mestre em Engenharia Mecânica, professor e diretor geral do grupo Engerisa. Ele ressalta que nenhuma energia é 100% limpa, sustentável ou eficiente.

A produção de energia eólica gera uma vibração e um deslocamento de massa de ar, por exemplo, que impacta na migração de pássaros, na vegetação, e provoca erosão”, explica.

“Esses efeitos podem ser mitigados por meio de estudos de viabilidade, que garantam a utilização da melhor condição geográfica, permitindo impactar menos no meio ambiente e aproveitar o máximo da energia eólica”, completa Sanchez.

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Um impacto comum da instalação de parques eólicos é a morte de aves e morcegos, que se chocam contra as pás das hélices. Algumas dessas espécies são essenciais para o controle de pragas agrícolas.

Fátima Góes cita outros três efeitos negativos da instalação de parques eólicos. Primeiro, o ruído dos aerogeradores, que pode ser mitigado caso se mantenha uma distância segura para os locais de moradia.

Impactos na paisagem também são uma reclamação frequente – em especial, quando o parque é instalado no litoral e em regiões turísticas, como o Delta do Parnaíba ou os Lençóis Maranhenses. O terceiro impacto está relacionado ao acesso à terra.

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“O parque promove a regularização das terras, porque não se pode arrendar se não estiver tudo direitinho”, lembra. “Porém, uma vez que o parque chega e coloca uma cerca, pessoas que viviam do extrativismo e antes entravam para coletar frutas, por exemplo, perdem esse acesso. No litoral, há casos de pescadores que já não podem ir ao mar pelo caminho que iam antes”.

“Grandes empreendimentos trazem benefícios razoáveis em um nível regional, mas quem fica com a externalidade negativa são os vizinhos imediatos”, resume Góes.

O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) denuncia há quase cinco décadas os impactos das usinas hidrelétricas no país, mas não vê o setor eólico como uma alternativa viável.

“Os parques eólicos atingem áreas protegidas, onde vivem comunidades tradicionais, pescadores, quilombolas, e isso viola o direito de ir e vir, impacta na cultura e ameaça a vida constantemente”, afirma José Josivaldo Alves de Oliveira, membro da coordenação nacional do MAB no Ceará.

“O impacto ambiental da eólica pode ser menor [que o das hidrelétricas], mas ela não ameaça o controle de grandes grupos privados sobre a geração, a transmissão e a distribuição da energia no Brasil”.

“A energia no Brasil está subordinada ao interesse de grandes multinacionais, por isso o país tem uma das contas de luz mais caras do mundo”, completa Oliveira. “Na sociedade capitalista, independentemente da fonte de geração, qualquer setor estará orientado pela lógica do lucro. E isso também vale para a eólica”.

Na visão do MAB, o valor pago aos proprietários das terras por aerogerador é uma “mixaria” diante do lucro das multinacionais e apenas mascara o impacto sobre as comunidades.

“Por isso, não consideramos que o futuro do Brasil será produzir energia eólica ou solar. O problema não é de matriz, nem de tecnologia, mas de uma política energética que não considera os interesses do povo”.

Parque Eólico Calango, no Rio Grande do Norte / Neoenergia/Divulgação

Pós-pandemia

Presidente executiva da ABEEólica, Elbia Melo afirma que a Agência Internacional de Energia e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) já consideram que o investimento em energia eólica será um dos pilares da retomada de crescimento econômico global pós-coronavírus.

“No Brasil, não faz sentido dizer que a pandemia nos fará repensar a matriz energética, porque o país já vinha nessa trajetória crescente de investimento em energia renovável”, explica. “O que haverá é uma retomada dos investimentos no momento oportuno. O setor de infraestrutura cresce de acordo com a necessidade, e este ano a demanda por energia está caindo cerca de 12%. É claro que logo vai voltar a crescer, mas existe essa limitação”.

O engenheiro Renato de Brito Sanchez é otimista em relação ao futuro do setor. “O Brasil tem capacidade de explorar seu potencial eólico com as empresas nacionais”, analisa. “Muitas empresas de engenharia e serviços migraram para o Nordeste e começaram a pensar soluções para instalação e manutenção desses parques”.

Mesmo a pandemia, segundo ele, estimula a inovação e pode fortalecer a indústria nacional: “Eu tinha 99% de um contrato assinado que foi suspenso porque não foi possível importar uma peça da Europa, que viria de países afetados pela covid-19. Então, muitas empresas que importavam peças agora viraram a chavinha e passaram a desenvolver soluções para que os parques não parem, mesmo em momentos como este”.

Em 2019, foram US$ 3,45 bilhões (cerca de R$ 17 bilhões) investidos em novos projetos no setor eólico no Brasil, o que representa 53% de todo investimento em energias renováveis.

O Brasil ocupa a 7ª posição no ranking mundial de capacidade eólica acumulada, elaborado pelo Conselho Global de Energia Eólica. China, Estados Unidos e Alemanha são os três primeiros da lista.

Edição: Leandro Melito