Frente a recordes nos resultado, vice-presidente Hamilton Mourão, diz que trabalho de combate começou tarde.

 

Nara Lacerda
Brasil de Fato | São Paulo (SP) |

Mundo cobra ações do Brasil contra a destruição da floresta. – Mayke Toscano/Secom-MT

De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a devastação na Amazônia alcançou recordes no mês de junho. Foram 1.034,4 km² em alerta de desmatamento, maior patamar da série histórica, 10,6% superior ao registrado no mesmo mês do ano passado. O resultado foi divulgado um dia após uma reunião em que investidores estrangeiros cobraram medidas de proteção da floresta ao governo brasileiro.

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O crescimento na devastação no primeiro semestre foi de 25% em relação ao mesmo período de 2019 e chegou a 3.069,57 km², o equivalente a duas vezes área da cidade de São Paulo. No acumulado de 11 meses, a alta foi de 64%. Os números geraram cobranças de investidores internacionais ao governo brasileiro.

Um encontro virtual nesta quinta (9) reuniu representantes de dez fundos privados estrangeiros e o vice-presidente Hamilton Mourão, que é chefe do Conselho Amazônia. Os investidores solicitaram compromisso com o combate ao desmatamento e às queimadas, cumprimento da Lei do Clima e do Código Florestal e acesso público aos dados sobre a devastação.

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Não foi a primeira cobrança endereçada ao Brasil para preservação da floresta. Em junho, 30 fundos de investimento exigiram contenção do avanço no desmatamento.  A pressão também vem de empresas nacionais. No início desta semana, 40 empresários brasileiros assinaram uma carta enviada a Mourão em que expressavam preocupação com a imagem negativa do Brasil no exterior.

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Após a reunião com investidores estrangeiros nesta quinta-feira (09), o general chegou a dizer que as cobranças tinham origem em interesses comerciais para prejudicar o agronegócio brasileiro. Ironicamente, a afirmação foi feita após o próprio Mourão ter pedido dinheiro ao grupo para ações de preservação. “É óbvio que aqueles que serão incomodados pelo avanço da produção brasileira, buscarão, de alguma forma, impedir que essa produção evolua como vem ocorrendo.”

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Nesta sexta-feira (10), após divulgação dos números recorde, o vice-presidente adaptou o discurso. Ele admitiu que o trabalho para combate à devastação este ano começou tarde.

“Já coloquei várias vezes que as ações contra o desmatamento tinham que ter começado em dezembro do ano passado. Tenho colocado que vamos prosseguir neste tipo de trabalho até o final de 2022 ou até que a turma que desmata se dê conta que não dê mais para fazer isso.”

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Mourão reclamou também da falta de recursos financeiros e humanos. “O Ibama hoje tem 300 fiscais. Como é que você vai operar com 300?”

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Entidades reagem

Organizações de defesa ambiental já vinham alertando para o problema desde o início do governo de Jair Bolsonaro (sem partido). Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, afirma que o Brasil está em seu pior momento na agenda ambiental .

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Em nota, o Observatório do Clima alertou ainda para o fato de que os resultados foram registrados dois meses depois do início da Operação Verde Brasil 2, que colocou o Exército na Amazônia, “em tese, para combater crimes ambientais.” Nesta sexta-feira (10), um decreto prorrogou a operação até 6 de novembro.

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WWF Brasil também reagiu aos números. A organização chama atenção para o fato de que os alertas do Inpe ocorreram não só em propriedades privadas e terras públicas, mas também em em Unidades de Conservação, “nas quais deveria haver mais controle e rigor”, segundo a gerente para Ciências da institução, Mariana Napolitano.

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O diretor do para Conservação e Restauração da instituição alertou: “mesmo que não se queime nenhum metro quadrado na atual temporada de fogo que vai até setembro – como espera o vice-presidente da República Hamilton Mourão ao propor novamente a moratória das queimadas na Amazônia Legal este ano –, o maior estrago já foi feito.”

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Em seu site, a WWF Brasil listou as unidades de preservação que mais foram impactadas: a Floresta Nacional (Flona) do Jamanxim e a de Altamira, a Área de Proteção Ambiental (APA) do Tapajós e a Reserva Biológica Nascentes da Serra do Cachimbo, todas no Pará. Segundo a organização, o governo tem acesso antecipado a dados que já indicavam esse cenário, mas não agiu para prevenir o resultado.

Edição: Rodrigo Chagas