Biodiversidade é chave para prever e evitar novas pandemias.

Janes Rocha – Jornal da CiênciaEm webinário promovido pela Academia Brasileira de Ciências, especialistas apontam avanço do desmatamento como um dos principais responsáveis pela proliferação de vírus letais nos últimos anos.

Enquanto as atenções do mundo se voltam para a covid-19, outras doenças já muito conhecidas como chicungunha, dengue, febre amarela e zika continuam avançando em ritmo acelerado. A disseminação dessas zoonoses está comprovadamente associada à devastação do meio ambiente.

A derrubada das florestas obriga os vírus a procurar novos hospedeiros, conduzindo-o, direta ou indiretamente, às aglomerações humanas. Se nada for feito, epidemias – sejam novas ou velhas – podem surgir e ressurgir.

O alerta é do médico paraense Pedro Fernando da Costa Vasconcelos que, ao lado da ecóloga Mercedes Bustamante e da socióloga Elisa Reis, chamou a atenção para a tragédia das doenças que vinham em alta nos últimos anos, especialmente nos países em desenvolvimento, e que ficaram momentaneamente ofuscadas pela pandemia do coronavírus.

Os cientistas falaram durante o segundo webinário transdisciplinar “O mundo a partir do coronavírus”, realizado terça-feira (14/4) pela Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Pesquisa na floresta

As investigações sobre arbovírus (vírus transmitidos a humanos por artrópodes) na região amazônica se iniciaram em 1954, por um convênio entre o governo, através do Instituto Evandro Chagas (IEC), e a Fundação Rockefeller. Nestes mais de 60 anos, segundo Pedro Vasconcelos – que iniciou seu trabalho no IEC nos anos 1980 -, foram isolados 220 tipos de arbovírus. Deste total, 175 foram isolados pela primeira vez no Brasil e 115 eram completamente novos para a ciência, enquanto 37 estavam associados a doenças em humanos em geral.

Onze daqueles vírus estão associados a epidemias no Brasil: chicungunha, dengue (tipos 1 a 4), mayaro, oropouche, rocio, encefalite Saint Louis, febre amarela e zika. Elas ocorrem em mais de uma área na região norte, têm os mosquitos como principais transmissores e as aves como principais hospedeiros.

“Ainda há muitos vírus por caracterizar”, afirma Vasconcelos, explicando que os arbovírus estão associados a diferentes tipos de sintomas, como febres comuns e hemorrágicas, artralgias e encefalites. Estudos mais recentes comprovaram não só a relação da chicungunha e zika com problemas neurológicos, mas a crescente participação deles neste tipo de enfermidade.

Febre amarela e dengue marcam alarmante avanço. Entre 1980 e 2016, o Brasil registrou 797 casos de febre amarela, enquanto de 2017 a 2019 o número de casos subiu para 2.840, sendo que a ocorrência, antes em áreas remotas da região amazônica, chegou a grandes centros urbanos.

No estado de Goiás, por exemplo, foi comprovada a relação entre o aumento de ocorrência de febre amarela com o aumento de 2°C na temperatura média e com o maior volume de chuvas no período recente, comparado com os 20 anos anteriores”, afirmou.

O Levantamento de Índice Rápido de Aedes aegypt (LIRAa), realizado em 5.214 municípios, mostrou que 20% deles estão em risco de dengue, enfermidade que só tem crescido ano após ano. “Apesar da covid-19, temos as outras doenças que não param”, afirmou Vasconcelos, acrescentando que não vê perspectiva de recuo dessa situação em 2020.

As causas estão na devastação

Um artigo que publicou em 2001 sobre a Amazônia, já relatava uma série de fatores associados com a emergência de arbovírus na região, entre eles a queda na imunização por vacinas, a derrubada da floresta, o aumento da colonização e a urbanização descontrolada, enchimento de reservatórios, exploração mineral, construção de rodovias e aumento das viagens de avião.

Mas acima de todos estes fatores, diz o médico, a globalização e as mudanças climáticas são apontadas como fatores que têm levado à emergência, nos últimos 15 anos, dos arbovírus e a volta de doenças que já tinham sido controladas.

Zoonoses emergentes

A ecóloga Mercedes Bustamante reiterou a questão do desmatamento. Segundo ela, mais de 60% das doenças infecciosas humanas são partilhadas tanto com animais selvagens quanto domésticos. As chamadas “zoonoses emergentes”, como o próprio coronavírus e os arbovírus, são consideradas uma ameaça crescente, não só para a saúde, mas também para a economia, causando enormes prejuízos, algo que vem se acentuando nos últimos 20 anos.

Algumas linhas de estudo indicam que a invasão de habitats ricos em biodiversidade aumenta a exposição a novos agentes infecciosos da fauna e da flora selvagens. Portanto, a manutenção da biodiversidade é uma hipótese para reduzir a incidência de agentes patogênicos. Além destes agentes de impacto, há hoje os efeitos das mudanças climáticas que, segundo estudos recentes, ameaçam a existência de mais de 700 mamíferos e aves, relatou Bustamante.

“Ao mesmo tempo em que a perda de biodiversidade nos coloca em contato com esses agentes patogênicos, as doenças também têm um enorme impacto sobre a biodiversidade e muitas dessas doenças estão representando a catástrofe para espécies de animais que já estavam estressadas por outros fatores de distúrbio”, afirma a ecóloga. Um exemplo é o ebola, que representou uma taxa de mortalidade da ordem 95% para os gorilas e 77% para os chimpanzés.

“Olhando para os processos ecológicos de evolução dos patógenos, o que vemos é que os microrganismos exploram novos nichos e se adaptam a novos hospedeiros e que a ação humana está mediando estes novos nichos”, afirma Bustamante.

Por outro lado, a manutenção da biodiversidade é uma hipótese para reduzir a prevalência de agentes patogênicos.

“Mesmo assim, e apesar de estarmos em meio a uma pandemia, isso não tem inibido os desmatamentos, invasão de terras indígenas, com consequências que podem ser trágicas para as comunidades tradicionais”, critica.

Segundo a ecóloga, modelos estão sendo construídos hoje para identificação das regiões mais suscetíveis de produzir as próximas zoonoses (‘hotspots’ de doenças infecciosas emergentes), o que pode servir para vigilância dessas regiões e destinação de recursos globais para prevenir doenças infecciosa. Ela sugere intensificação da fiscalização e orientação no sentido de que o setor financeiro, por exemplo, não financie projetos que ameacem esses ecossistemas, além de avaliação de impactos ambientais dos grandes empreendimentos, incluindo a ecologia da saúde. Isso, claro, sem contar a importância da saúde pública.

Xenofobia versus solidariedade

A socióloga Elisa Reis abordou os impactos da crise na sociedade o horizonte pós-crise, no qual prevê dois cenários: nacionalismo crescente, com populismo e xenofobia, versus cosmopolitismo e solidariedade ampliados.

Na sua proposta para pensar a sociedade pós coronavírus, Elisa Reis primeiro aponta para o surgimento do falso dilema entre saúde e economia. “Um não caminha sem o outro”.

Ela lembra que, com todas as limitações, a sociedade experimentou nos últimos 50 a 60 anos um desenvolvimento extraordinário em termos de qualidade de vida, em tecnologia e saúde. O desafio hoje – que na verdade já era conhecido – é o aquecimento global. Nesse contexto, a sustentabilidade é um fator importante, mas Reis aponta outros grandes “déficits” sociais como a redução drástica da privacidade e o crescimento da desigualdade, fatores que ela associa também à emergência do neoliberalismo a partir do fim do século passado.

“A noção neoliberal de mérito, de que ‘se eu me esforçar, eu consigo’, embora tenha um certo fundo de verdade, enfraquece a coesão social e coloca riscos do ponto de vista de planejamento. “As externalidades negativas da desigualdade ultrapassaram muito as positivas”.

Na visão de Elisa Reis, existem possibilidades tanto de melhoria quanto de retrocesso e não é só questão de como os agentes vão se comportar, mas sim as soluções que serão buscadas para mitigar os efeitos da crise. “A ideia de ‘supply chain’ (cadeia de suprimentos) está ameaçada e poderia levar a soluções mais xenófobas e populistas”, afirmou.

O descrédito das instituições políticas é muito acentuado em todas as sociedades e tem a ver com o fato de que o neoliberalismo tirou parte das funções daquelas instituições, mas pode ser um sinal de aguçamento de tendências nacionalistas.

“A integração global revista ou mais populismo estão no cenário, mas está nas mãos dos indivíduos determinar qual será a tendência predominante”, concluiu.

Clique aqui (https://www.facebook.com/abciencias/videos/653051218825111/?t=8) para assistir o webnário na íntegra.