Além de ouvir deputados perguntarem “cadê o Queiroz?”, “quem matou Mariele?” e “por que Dallagnol quer ficar com R$ 2,5 bilhões da Petrobras?”, ministro perdeu super-poderes e recebeu críticas sobre o pacote anti-crime.

Senadores e deputados da comissão mista que analisa a Medida Provisória (MP) 870, que reorganiza a estrutura dos ministérios do governo Bolsonaro, decidiram retirar o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) das mãos do ministro da Justiça, Sergio Moro. Por 14 votos a 11, o órgão sai da alçada do Ministério da Justiça e volta agora para o da Economia (antes o Coaf era subordinado à Fazenda).

Esse foi o primeiro destaque votado pela comissão na manhã desta quinta-feira (9). O governo foi derrotado numa articulação entre partidos da oposição e também da sua própria base.

Ontem, na Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado da Câmara dos Deputados, Moro defendeu a permanência do Coaf na sua pasta, sob justificativa de que sofria “descuido” quando estava no então ministério da Fazenda.

A alegação foi rebatida até pelo líder do DEM, Elmar Nascimento (BA), que citou a participação no Coaf nas denúncias envolvendo funcionários laranja no gabinete do senador Flávio Bolsonaro, quando era deputado estadual.

 

“Olhei nos olhos dele e não me convenceu. Se funcionou até hoje e revelou o que conhecemos sobre laranjal, foi até dezembro”, rebateu, alegando que, nas mãos de Moro, as investigações não avançaram.

 

Nascimento chegou a sugerir que Bolsonaro designasse o Moro para ser o articulador do governo.

Quando perguntado “cadê o Queiroz?“, sobre o sumiço do então motorista de Flávio acusado de comandar o esquema de arrecadação dos salários dos funcionários laranja do filho do presidente, Moro pediu venia (desculpa) para não responder, alegando se tratar de uma questão que “ofende o governo”.

O Coaf no Ministério da Justiça foi a principal exigência de Moro para assumir a pasta, em decisão articulada com interlocutores de Bolsonaro ainda durante a campanha. A mudança do órgão para a Economia e as demais alterações determinadas pela comissão mista ainda terão de passar por votações no plenário da Câmara e do Senado.

Funai

Outra derrota importante para o governo Bolsonaro foi a retirada da Fundação Nacional do Índio (Funai) do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, comandado por Damares Alves. O órgão volta agora para o Ministério da Justiça. As competências para identificar, delimitar e demarcar as terras indígenas, movida por Bolsonaro para o Ministério da Agricultura, também devem retornar para a Funai, de acordo com a decisão dos parlamentares da comissão.

Essas eram demandas dos povos indígenas, que apresentaram suas reivindicações durante a 15ª edição do acampamento Terra Livre, em Brasília, no fim de abril. Foram 15 votos a favor da mudança, e 9 contra. Parlamentares comemoraram a restituição da Funai “inteira e não pela metade”.

Ontem (8), em evento no Superior Tribunal de Justiça (STJ), Damares defendeu a permanência da Funai sob seu comando. “A Funai tem de ficar com mamãe Damares, não com papai Moro.”

Milícias

O deputado citou o caso do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) e seu ex-assessor parlamentar Fabrício Queiroz, acusado de ser laranja da família Bolsonaro, com movimentações financeiras atípicas, incluindo repasse de R$ 24 mil à primeira dama Michele Bolsonaro.Para explicar a gravidade da situação brasileira, Pimenta fez referência ao país que é sempre citado por Moro como exemplo de ação estatal no combate à corrução.

“O doutor Sérgio Moro gosta muito de falar os Estados Unidos. Imagina se a família do presidente dos Estados Unidos estivesse envolvida com o crime organizado. Imagina se os filhos do presidente da República nos Estados Unidos tivessem nomeado nos seus gabinetes familiares de assassinos, milicianos do crime organizado”, sugeriu o líder petista.“Imagina se os mafiosos dos Estados Unidos trabalhassem nos gabinetes dos filhos do Trump ou do Obama. Será que a imprensa trataria com essa naturalidade [que trata no Brasil]? Será que o ministro da Justiça diria ‘essa questão não me diz respeito’?”, continuou o parlamentar gaúcho.