depoimento do “reverendo” Amilton Gomes de Paula à CPI da Covid nesta terça-feira (3) é candidato a disputar o título de o mais insólito da comissão. “O que é mais absurdo não é eu estar aqui hoje, no Senado da República, na CPI, tendo que inquirir uma figura como o senhor. O mais absurdo é o governo brasileiro dar espaço pra gente como o senhor, como cabo Dominguetti, como Cristiano Carvalho”, disse o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) ao depoente.

“Enquanto as pessoas morriam, vocês estavam atrás de vantagem financeira. Não me comovo com as lágrimas do senhor. A oferta de vacinas é mentirosa, a conversa fiada de ajuda humanitária é mentirosa, tudo atrás de dinheiro no pior momento da vida do Brasil. Já passou muito da hora de arrependimento. Agora é hora de punição”, acrescentou o parlamentar.

Pouco antes, o “reverendo”, chorando, se disse arrependido de ter feito parte do enredo de negociações de 400 milhões de doses da vacina AstraZeneca – que nunca existiram – envolvendo a empresa Davati Medical Supply, da qual o cabo da PM Luiz Paulo Dominguetti e Cristiano Carvalho se diziam representantes. Amilton preside uma entidade obscura chamada Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários (Senah). Documentos de apresentação da Senah informavam que ela era reconhecida pelas Nações Unidas e CNBB. Pressionado pelo vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), o “pastor” admitiu que esses reconhecimentos não existem.

Quem abriu a porta para o “reverendo”?

Em coletiva após a sessão, Randolfe classificou o depoimento de Amilton como um “cenário cômico em meio a uma tragédia”. Para a cúpula da CPI, é incompreensível como tal personagem foi recebido no Ministério da Saúde, enquanto uma centena de e-mails da Pfizer enviados para a cúpula do governo (inclusive o presidente Jair Bolsonaro) não tiveram resposta. “A Pfizer não conseguiu o que o nosso reverendo conseguiu”, ironizou o presidente da comissão, Omar Aziz (PSD-AM).

Randolfe afirmou que a CPI vai continuar investigando para descobrir quem possibilitava o livre acesso do “reverendo” ao Ministério. O parlamentar esclareceu que houve a decisão de não tomar uma medida mais dura contra o depoente “prevista pelo Código Penal” porque ele estava protegido por um habeas corpus.

Paz das armas

Durante a oitiva, Randolfe mencionou o fato de a Senah ter concedido titulo de “embaixador da paz” a Carlos Alberto Rodrigues Tabanez. “É instrutor de tiro, sócio e vice presidente de clube de tiro (o GSI, no Distrito Federal) e defende ampliar o acesso a armas pelos brasileiros. É um trabalho humanitário?”, questionou Randolfe. “Não, senhor”, respondeu Amilton de Paula. Tabanez é especialista em explosivos e foi candidato a deputado estadual do Distrito Federal pelo PROS.

Randolfe também explorou um título de “embaixador da federação para a paz mundial”, concedida a Amilton por uma entidade chamada Universal Peace Federation. “Seu título de ‘embaixador’ foi concedido pela federação fundada pelo reverendo Moon, que entre outras coisas respondeu por crime de evasão de divisas nos Estados Unidos e ficou preso por dez meses”, explicou o senador ao reverendo Amilton. O depoente disse que não tinha tal “informação”.

A senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA), evangélica, criticou a “relação entre governo e igreja” estabelecida por Bolsonaro. “Na Idade Média foi a Santa Inquisição, em nome de Deus, matando mais de 100 mil pessoas entre homens, mulheres e crianças”, disse.

Encontro com o “Zero Um”

O senador Rogério Carvalho (PT-SE) quis saber de Amilton quem é “Maria Helena Embaixada”, que trocou mensagens com Dominguetti. Numa delas (em 16 de março) afirma que “Ontem o rev (reverendo) esteve com o presidente”. Em outro diálogo, uma pessoa identificada como “Amauri Vacinas Embaixada” recebe do mesmo Dominguetti a pergunta “Como foi a visita do reverendo ao 01?”. Amauri responde: “O reverendo nesse momento está com o 01”. Amilton de Paula explicou que Amauri é um diretor da Senah e negou que tenha encontrado o presidente da República.

O reverendo Amilton passou a sessão se contradizendo, mentindo e negando. Afirmou não se lembrar de ter encontrado o ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde Roberto Dias, acusado de pedir propina na negociação de vacinas. “No entanto, acabamos de apresentar à CPI uma troca de mensagens entre Dominguetti e Amilton de Paula, na qual o reverendo afirma: ‘Boa tarde, Dominguetti, estou na sala do Roberto Dias”, escreveu Randolfe Rodrigues, no Twitter.

Braga Netto

O requerimento de Alessandro Vieira propondo a convocação do ministro da Defesa, general Braga Netto, não foi à votação porque a maioria votaria contra. Porém, como Randolfe e Vieira, Omar Aziz defende a convocação do general, já que ele foi coordenador do comitê de crise de combate à covid-19 quando estava na Casa Civil. “Esta é a figura que precisa ser convocada para sentar naquela cadeira e explicar por que, como coordenador, dotado de todos os poderes necessários, foi incapaz de evitar esse desastre”, justificou Vieira.

Nesta quarta-feira (4), a CPI ouvirá o ex-assessor no Departamento de Logística do Ministério da Saúde Marcelo Blanco, apontado pelo cabo da PM de Alfenas (MG) Luiz Paulo Dominguetti como participante de suposto esquema envolvendo propina.